Joaquim Ferreira: Contributos para a História das Fábricas de Meias de Lã do Coentral

Desde os tempos mais remotos que o Homem utiliza a lã para confecionar as roupas que usa na proteção e agasalho do seu corpo, aconchegando-o das agruras do clima. Inicialmente usava a pele inteira dos animais para se cobrir, mas com a domesticação destes, ocorrida durante o neolítico, começou a utilizar a lã para fabricar as suas vestes, o que conduziu ao desenvolvimento, nessa época, das técnicas de tosquia e de preparação da lã para tecelagem.

Embora aprimorados ao longo de milénios, os saberes e as artes da produção de tecidos de lã chegaram ao nosso tempo sem alteração substancial das primitivas técnicas de base: tosquia, lavagem, cardagem/penteação, fiação e tecelagem.

Em Portugal as manufacturas em lã estão indissociavelmente ligadas aos grandes rebanhos das regiões montanhosas do Centro do País, conduzidos por homens que calcorreavam territórios inóspitos, e à história das aldeias serranas isoladas, onde as suas gentes produziam as vestes com que cobriam o corpo, usando aquelas técnicas ancestrais de tecelagem.  Na região da serra da Estrela, desde o século XII até à actualidade, são numerosas as fontes documentais existentes sobre as actividades ligadas à lã. Na Serra da Lousã, nomeadamente na zona do município de Pedrógão Grande, onde se integrou o concelho de Castanheira de Pera até 1914, os registos documentais antigos são escassos. A primeira referência escrita sobre os ofícios ligados ao trabalho da lã leva-nos ao ano de 1574 e à Acta da Câmara de Pedrógão Grande, de 24 de Agosto desse ano. Aí se referia que “Os Officiais das lans que ora saõ e ao adiante forem, antes de começarem a servir seus offícios, poderáo pedir satisfação delles”.

A abundância de matéria-prima para a confecção de produtos de lã, tanto na região da Serra da Estrela como da Serra da Lousã, constituiu a base primordial do desenvolvimento das actividades ligadas aos lanifícios no nosso concelho, que progrediram persistentemente nos séculos XIX e XX, tendo passado da produção artesanal para a industrial.

Infelizmente, este progresso não foi possível no século anterior pois o tratado de Methuen, assinado em 1703 entre Inglaterra e Portugal, que vigorou até 1836 e pelo qual se estabelecia a livre entrada dos lanifícios ingleses em Portugal e uma redução nas tarifas impostas aos vinhos portugueses que entravam em Inglaterra, o que colocava os vinhos portugueses numa situação privilegiada em relação aos vinhos franceses, embora tenha contribuído para o fomento da produção vinícola em Portugal, constituiu um rude golpe no desenvolvimento da então incipiente indústria de lanifícios portuguesa.

De facto, Castanheira de Pera só viria a ter importância na indústria têxtil nacional, vários anos após o fim do protecionismo sobre os panos ingleses.

Assim se compreende a análise que Alberto da Conceição Magalhães faz na tese de Mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão, apresentada em 2010 sob o tema “A Real Fábrica das Sedas e o Comércio Têxtil com o Brasil (1734-1822)”, ou seja, de que nesse período as oficinas industriais do ramo da tecelagem laboravam ainda em moldes artesanais e muito limitadas por deficiências graves do sistema transportes, nomeadamente por falta de vias de comunicação. Nesse tempo, a produção de tecidos de lã tinha ainda uma forte componente caseira que, tal como algumas outras operações, se encontrava dispersa um pouco por todo o Reino, quase sempre fora dos grandes centros, e se destinava, fundamentalmente, ao mercado local.

Também assim era na região de Castanheira de Pera onde, até meados do século XIX, a ocupação das gentes serranas se cingia, basicamente, à agricultura e pastorícia, sendo a produção de tecidos em lã e linho feita de forma artesanal, com recurso a teares caseiros, manobrados essencialmente por mulheres, e em que ao homem eram atribuídas as tarefas mais pesadas de manuseamento dos pisões. Só em 18601 com a instalação da primeira fábrica de lanifícios, na Abelheira de Baixo, por iniciativa de José Antão, se veio a modificar este cenário. A partir daí assiste-se ao surgimento de várias unidades fabris, um pouco por todo o concelho, de tal forma que em 1881, no Inquérito Industrial realizado nesse ano, Castanheira de Pera era já o terceiro centro mais importante da indústria têxtil nacional, com 12% da produção nacional deste ramo industrial, só superada pela Covilhã e pela Guarda. Nesse período promove-se em Castanheira de Pera uma verdadeira revolução industrial, com a instalação de várias unidades fabris que produzem tecidos da mais alta qualidade e utilizam as mais modernas técnicas de fabrico. Este surto industrial arrasta consigo e impulsiona a instalação, no Coentral, de várias unidades de pequena dimensão, orientadas para o fabrico de produtos de lã, nomeadamente meias, luvas e camisolas.

Mas antes da industrialização, é muito provável que as gentes das aldeias do Coentral produzissem já meias de lã, de forma rudimentar, utilizando nessa tarefa as populares “agulhas de fazer meia” e os “ganchos de fazer meia”. Contudo, sabe-se que na Beira e em Trás-os-Montes, antes do aparecimento das agulhas, usava-se um objecto de construção simples, com cerca de 30 cm de comprimento, designado por canhão de fazer meia que as mulheres prendiam à cintura.

Em 1831, António de Moraes Silva no Diccionario Da Lingua Portugueza, Volume 1, 4ª Edição, publicado em Lisboa, descreve as “agulhas de fazer meia” como utensílios que têm uma ponta lisa e outra barbada.  Também Frei Domingos Vieira no “Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza”, publicado no Porto em 1871, nos diz que a agulha de fazer meia é uma varinha de metal com uma ponta lisa e outra farpeada.

Canhão, Ganchos e Agulhas de fazer meia, eram assim nessa época palavras comuns do léxico das gentes serranas que aproveitavam os tempos “livres”, fora do amanho da terra e das lides caseiras, para produzir meias de lã que lhes ajudassem a suportar o frio nas agrestes noites de inverno.

Segundo o manual “Normas de Inventário, Tecnologia têxtil, Etnografia”, do Instituto Português de Museus, 1.ª edição, de Abril de 2007”, Os canhões de fazer meia foram usados até à introdução das agulhas com pega na ponta, e empregavam-se na confecção de meias e de malhas em geral. São compostos de um segmento cilíndrico de madeira, com uma das extremidades perfurada no sentido longitudinal para fixação de uma haste extremamente delgada com a função de agulha. Esta, com uma segunda haste idêntica, e com a ajuda dos dedos, produz o ponto de malha. O canhão de fazer meia fixa-se de modo semelhante à roca, na cinta, do lado esquerdo, entre a saia e o corpo.

Os ganchos usados no fabrico de meias podem-se apresentar com designações diferentes – “gancho de meia” ou “gancho de fazer meia” – e servem para prender ao peito a linha com que se faz o ponto de malha.”

Quanto às agulhas de fazer meia, José Leite de Vasconcelos, um dos mais notáveis, senão o mais notável cientista social    que existiu em Portugal e viveu entre 1858 e 1941, no seu trabalho “Apetrechos da Meia”, publicado em 1916 na Alma Nova – Revista Mensal Ilustrada de Arte, Sciencias e Literatura, diz-nos que “Fazer meia ou na meia é uma das indústrias domésticas portuguesas mais usuais das mulheres do povo, sobretudo em algumas províncias, como a Beira. As meias fabricam-se de fios de lã, de algodão, de linho, de seda, à mão, com um “jogo” de cinco agulhas de arame (ou quatro); e as mulheres trabalham nisto, já sozinhas em casa, já em comunidade com outras ao serão ou ao soalheiro, já até na rua. Há terras onde as mulheres, ao mesmo tempo que levam recado, ou transportam um caneco d’agoa à cabeça, ou tem um menino ao colo, vão fazendo meia, de cestinho, ou cabazinho no braço esquerdo com novelos.

Para se fazer a meia, o fio póde simplesmente passar em volta do pescoço da mulher, ou andar-lhe preso ao ombro esquerdo por um gancho, com uma fitinha ou laço. E também póde fazer-se sem isso, ficando sôlto o fio.”

 

As Fábricas de Meias de Lã do Coentral

Com a industrialização verificada no país e em Castanheira de Pera, em meados do século XIX, também a actividade fabril veio a desempenhar um papel de relevo na freguesia do Coentral. Antes, porém, as gentes coentralenses começaram por se dedicar à confeção artesanal de meias de lã. Nessa fase, procurava-se apenas satisfazer o gasto da própria casa. Depois, com a introdução das rudimentares máquinas manuais, as meias de lã entraram no negócio dos feirantes. E dessa forma, estava dado o primeiro passo para o desenvolvimento industrial do Coentral, nomeadamente na sede da freguesia.

Em 1914 eram já referenciadas 3 fábricas de meias e luvas de lã, no Coentral, num documento dirigido ao partido Republicano a pedir a elevação de Castanheira de Pera a concelho.

Segundo Jorge Bento, no livro “Notícias da Freguesia do Coentral, até 1974”, nos anos 20/30 do século XX nascem no Coentral Grande as duas maiores fábricas de meias de lã:

  • a Fábrica de Manuel Alves Barata (MAB);
  • e, a Fábrica de António Lopes Ladeira (ALL).

Com os avanços tecnológicos verificados na primeira metade do século passado, as máquinas artesanais deram lugar às eléctricas, quando o Coentral Grande passou a dispor desta energia no ano de 1931. De facto, contrariamente a outras localidades do nosso concelho, a força hidráulica das águas das ribeiras – ribeira das Quelhas, ribeira do Coentral Grande e ribeira de Cavalete, que engrossam o caudal da Ribeira de Pera que nasce neste território – não teve qualquer papel na industrialização das aldeias do Coentral, certamente por não terem, isoladamente, caudal suficiente para o efeito, e, assim, à produção artesanal individual seguiram-se 4 unidades fabris de malhas de lã (duas de pequena dimensão e duas de dimensão familiar), movidas a energia elétrica. Nos anos 60 do século passado as duas unidades fabris de pequena dimensão, instaladas no Coentral – as fábricas de António Lopes Ladeira e de Manuel Alves Barata – empregavam mais de 40 operários, número que se iria manter quase inalterável até ao início da década de 802. As outras duas unidades de dimensão familiar, vulgarmente designadas por “fabriquetas”, de Augusto Carvalho e Manuel Alves Barata Júnior, já se encontravam desactivadas nessa década.

Em 1970 surge uma nova fábrica deste ramo industrial no Coentral Pequeno, a “Fábrica de Malhas do Coentral Pequeno, Ldª”, que aí permaneceu em laboração durante cerca de 4 anos.

A última fábrica de meias e luvas de lã em actividade no Coentral, a Manuel Alves Barata, Ldª, acabaria por encerrar em 2009, sucumbindo à concorrência feroz provocada pelos produtos originários da China.

No livro “Noticias da Freguesia do Coentral”, Jorge Bento identificou, para além das fábricas anteriormente referidas, outros empresários que se dedicavam ao comércio de lãs, essencialmente durante a primeira metade do século XX, designadamente: Joaquim Diniz Pimentel, Pedro Alves, Joaquim Lopes Ladeira & Filhos, Ldª, César Carvalho, Joaquim Alves Barata e Diamantino Lopes de Carvalho.

Associada a esta actividade surgem os vendedores ambulantes de meias de lã, não só na região serrana, mas, essencialmente, em Lisboa onde alguns coentralenses se deslocavam, durante o Inverno, apregoando o dia inteiro, de rua em rua – “meias de lã!” – para, no regresso ao Coentral, levarem no bolso “meia dúzia de escudos” que ajudavam a tornar mais suave a vida dura das suas famílias.

Entre os vendedores de meias de lã recordo os nomes de meu pai José Lopes Antão Ferreira, Henrique Ventura, João Miguel, César Carvalho e Afonso Ventura, que andaram “no briche” no século passado, como era tradicional chamar à actividade de venda de meias e camisolas de lã, na cidade de Lisboa.

 

O inverno não traz ócio

Pode o frio ser coisa boa

Há quem leve p’ró negócio

Meias de lã para Lisboa.

 

Notas:

1 Kalidás Barreto refere, contudo, que embora esta unidade fabril tenha sido fundada em 1858 só acabaria por ser construída em 1860 e, naturalmente, a laborar apenas a partir dessa data. (In: Monografia do concelho de Castanheira de Pera, 2004).

2 Segundo José Manuel Simões, “Antes destas referencias, havia a de Cesar Carvalho. Era a CECAR. A do irmão Augusto Carvalho que era a AUCAR e em Pera havia a DICAR de Diamantino Carvalho. Finalmente o irmão Manuel Carvalho – na Lousã – tinha a MACAR.”

 

Referências bibliográficas:

  • Vasconcelos, J. Leite de, Apetrechos da Meia, Alma Nova – Revista Mensal Ilustrada de Arte, Sciencias e Literatura, Ano II, nº 19, Lisboa, Novembro de 1916;
  • Magalhães, Alberto da Conceição, A Real Fábrica das Sedas e o Comércio Têxtil com o Brasil (1734-1822), Tese de Mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão, apresentada em 2010 na Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História;
  • Normas de Inventário, Tecnologia têxtil, Etnografia, Instituto Português de Museus, 1.ª edição, Abril de 2007;
  • http://aervilhacorderosa.com/, última consulta em Novembro de 2019;
  • Barreto, Kalidás, Monografia do concelho de Castanheira de Pera, 3ª Edição revista e actualizada da edição de 1989, 2004;
  • Bento, Jorge, Notícias da Freguesia do Coentral – até 1974, edição do autor, 2014;
  • Ferreira, Joaquim, COENTRAL-História, usos, costumes e tradições, edição de autor, Outubro de 2018.
  • Machado, Herlander, Terra de Encantos – Coentral, Factos e Contos da Tradição Oral, Serra da Lousã – Coentral, Lisboa, 1991;

 

 

 

Novembro/2019

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