Francisco H. Neves: Crónica da Fraga – Ribeira (da selada) de Pera

Crónica da Fraga

RIBEIRA (DA SELADA) DE PERA

No número anterior ficou dito que quando hoje dizemos Castanheira de Pera estamos a dizer Castanheira (da Ribeira) de Pera e não Castanheira (do lugar) de Pera.

Agora aditamos que, quando hoje dizemos Ribeira de Pera, estamos a dizer Ribeira (da Selada) de Pera e não Ribeira (do lugar) de Pera. Realmente,

Aquando das inquirições paroquiais de 1758, o Padre-cura da Paróquia de São Domingos da Castanheira, ao tempo Luís Thomás Denis, no seu circunstanciado relatório consignou, além do mais, que

«Enquanto a ribeyra que há nesta freguezia …  Se chama a ribeyra de Pera que nasce onde chamão a Sellada de Pera, de onde tomou seo nome» …

Ao fundo a Selada de Pera, entre o Trevim (oculto e que fica à esquerda da foto) e o Cabeço do Pereiro (ou Santo António da Neve, do lado direito)

Ora aí está: «Sellada de Pera, de onde tomou seu nome», «Monografia/115». (1)

Esta declaração do Padre-cura, pelo seu saber, competência e estar ao tempo no terreno, merece credibilidade, quer quanto ao nome, quer quanto à nascente.

Nascente que, em sites de Pedrógão Grande, é tida como no Porto Ervideiro, que fica precisamente na Selada de Pera.

E é do conhecimento geral que a Selada de Pera/Porto Ervideiro se situam na freguesia do Coentral, entre o Trevim e o Santo António da Neve.

O que tudo confirma a carta militar 252.

(Sendo que «selada» significa aqui “depressão na lombada de um monte”; “cavidade oblonga numa montanha”).

Quanto ao nome. Existe na doutrina uma corrente segundo a qual «pera» deriva do grego «pétra», através do étimo latino «petra», (petra, pedra, pera).

Ora, a informação do Padre-cura é compatível com esta corrente.

Com efeito, os Romanos patrulharam todas estas serranias (Lousã – Açor – Estrela), integradas nos Montes Hermínios, aquando das suas lutas com os Lusitanos.

Construíram o Altar do Trevim, ao qual deram o nome, (triffinium).

Trevim como ponto estratégico de observação militar.

E tinham uma capital cultural aqui perto (Conimbriga).

Assim, terão sido os Romanos, falando latim que, com alta probabilidade, deram o nome à Ribeira de Pera, a partir da Selada de Pera. De início algo como flumen petra ou river petra.

A histórica povoação de Pera (cultural, enfiteutica, militar) é muito antiga, remontará aos primórdios da nacionalidade, terá muitos séculos.

Mas a ribeira terá milénios. Ora não é de crer que a ribeira tivesse aguardado séculos pela povoação, para dela tomar o seu nome. Tanto mais que antes, romanos (seis séculos), visigodos (dois séculos) e árabes (quatro seculos) ocuparam vilas e castelos aqui na envolvente região centro. E ainda que poucos se tenham fixado aqui na ribeira, muitos foram certamente os que dela usufruíram, calcorrearam e patrulharam todo o seu vale.

Custa aceitar que eles tivessem permanecido tanto tempo por aí abaixo, sem saber «dizer» a proveniência da água que descia cá de cima.

É sabido da lógica que, quanto maior é a extensão de uma ideia, menor é a sua compreensão. Daí que, para melhor localização, máxime fins operacionais, se diga na linguagem comum vg Serra do Amial, Serra da Ortiga, Serra do Candal, Serra da Safra, Serra do Trevim, sabendo-se que tudo isso são segmentos da oficial Serra da Lousã.

Do mesmo modo se poderá dizer vg Ribeira da Selada de Pera, Ribeira do Coentral Grande, Ribeira das Rocas, Ribeira dos Linhares, Ribeira do Gravito, sabendo-se que tudo isso são segmentos da oficial Ribeira de Pera.

Agora o que não se poderá dizer é que uma ribeira «nasce» de outra. Nascente é o ponto do solo onde principia uma corrente, («caput aquae»).

E se na linguagem comum tal seccionamento das ideias pode ocorrer, já na linguagem oficial ou científica importa que se cultive algum rigor.

Rigor que se afigura algo romântico nesta passagem da Grande Enciclopédia PB:

«Pera… lugar… Castanheira de Pera…. Deu o nome à ribeira de Pera e à vila sede de concelho». (vol. 21/69).

E ainda nesta outra, quanto ao afluente:

«Selada de Pera. Ribeira que nasce na freg. do Coentral, conc. de Castanheira de Pera, e é afluente da Ribeira de Pera», (Vol. 28/161).

Na linguagem escolar «afluente» significa um curso de água secundário que, lateralmente, se junta a um curso de água principal, o que não é o caso.

Quando hoje se diz, no mesmo âmbito geográfico, «Ribeira da Selada de Pera» (enciclopédia), «Ribeira do Coentral Grande» (carta militar) ou Ribeira de Pera (oficial), está-se a falar da mesma coisa, da mesma substância activa (corrente de água) com três nomes diferentes: um de marca e dois genéricos.

Significativos afluentes da Ribeira de Pera, na freguesia do Coentral, são a Ribeira do Cavalete (margem direita) e a Ribeira das Quelhas (margem esquerda).

Ainda não se mostra feito o levantamento hidrográfico-histórico da rede da Ribeira de Pera, com seus afluentes e subafluentes ribeiros, açudes, regadio, lagares, azenhas, moinhos de água, indústria, praias. O mapa constante da «Monografia/32» (1) é elementar. Ainda assim dele resulta a nascente da Ribeira de Pera como aqui tido por oficial.

Em síntese: quando hoje dizemos Castanheira de Pera estamos, oficialmente, a dizer Castanheira (da Ribeira) de Pera. E quando hoje dizemos Ribeira de Pera estamos, oficialmente, a dizer Ribeira (da Selada) de Pera. Sem embargo de, na linguagem comum, cada pessoa se expressar no sentido que entender.

 

 

Francisco H. Neves

(Que segue a grafia antiga)

 

 

 

  • «Monografia do concelho de Castanheira de Pera» de Kalidás Barreto/Página

 

 

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