Sérgio F. Godinho – O Calor dos Corpos (Parte 2)

(IV)

A cabeça sempre pesa toneladas quando é roubada aos sonhos onde nada pesa. Maior peso tem ainda quando o acordar é acompanhado por um som agudo, afiado e cortante. Horrendo. O som de mil pedaços de vidro a cair no chão. Ela conseguia imaginar a janela da cozinha perdida para o vento, o frio a invadir a sua quente casa e a gelar tudo o que nela dormia.

As vibrações percorreram o ar, vindas de um local longínquo do quarto escuro onde Maria escondia o corpo trémulo sob os lençóis. Bem agarradinha a eles. Lençóis salvação. Seguiram-se, então, passadas graves. Faziam o chão tremer. Tudo tremia. Ou seria apenas ela? E se fosse, haveria diferença? O mundo tremia. Era tudo o que importava.

Para onde iam os passos que o inferno ousava percorrer nesse céu? Era essa a preocupação maior que foi interrompida por murmúrios entre vozes que, mesmo abafadas, reconhecia. Os seus pais debatiam o que fazer com o intruso. Teve a impressão de ouvir segredos, coisas que meninas pequenas nunca deveriam ouvir. O silêncio retornou. Depois dele, apenas o colchão a ranger ao libertar um sonhador. Pai…, assumiu ela. Um, dois, três passos e um clique. Era o som de pressionar o corajoso interruptor que não se escondeu e anunciou a estranha presença. Ela nunca tinha conhecido a luz, mas sabia que neste momento não seria ela a trazer a paz. Apertou os cobertores nas suas mãozinhas. Nunca antes as sentiu tão frágeis. Findas. Fracas. Nela crescia o tumulto de uma respiração tornado e de um coração bomba. Ambos revoltados. Ambos impotentes.

Por segundos, fez-se um silêncio profundo. O mundo tinha-se cansado dos seus grunhidos próprios e desistiu. Entregou-se à maestria de a nada soar. Não era mais que silêncio abismo. Um silêncio frio. Doloroso. Visceral. Eterno. Como se o ar estivesse preso por fios de vidro e fosse incapaz de vibrar.

O que se seguiu ao silêncio? O som que silenciou todo o seu ser. O simples bater de um objeto sólido numa forma humana. Um gesto que invocou uma violenta orquestra do inferno. Começou como um queixume do estranho. Um grito de voz grave desconhecida cujo dono não simpatizou com a dor. Maria alegrou-se. Sorriu. Sim, a menina sorriu ao saber que a breve vitória tinha o nome do seu pai. Sentiu-se como uma claque de uma só pessoa que apoiava mais nessa sua ausência fingida que numa multidão vibrante.

– Ninguém rouba a minha casa! – gritou o seu pai ao invasor, com a voz a denunciar a sua vontade de estar em toda a parte que não ali – Não comigo aqui.

– Podemos tratar disso. – respondeu o invasor num ronco de raiva.

Desse momento em diante, a comunicação foi feita através das palavras que as pancadas trocaram. Falas por gritos grotescos. Meros suspiros de dor lançados pela ajuda que nunca viria. A sua mente pegou na noção que tinha dos corpos e colocou-os numa dança seca ao som de uma música tintinante tocada para uma pista de dança no deserto. Que dança desgraçada!

O momento parecia não querer terminar. Muito mais lento se tornou quando a sua mãe gritou o terror do que via. Grito que cortou o ar como uma agulha de som pronta a perfurar os tímpanos. Ouviram-se panelas a cair. Estão na cozinha…, concluiu. Queria saber onde estavam para ter a ilusão que poderia ajudar. Para que pudesse ignorar a sua impotência. E, de súbito, a ausência de gritos deu espaço para que ela ouvisse o som metálico que reconhecia tão bem. A gaveta das facas… Sons graves violentaram o chão. Eram pernas a correr. Sofás arrojaram-se. Na sala… Foram para a sala., alertou-se. Um vaso partiu-se. Teria sido derrubado ou atirado? Por quem? Nunca saberia. Nem isso a inquietava. Tudo passou de prioridade a irrelevante quando sentiu o ar a ser afiado. O gume de uma faca voava com um rumo urgente. Tocou a carne. Cortou. Perfurou. O grito da sua mãe rasgou nuvens. A faca voou de novo.

Ouviu-se a vontade de viver até que só o silêncio sussurrou.

 

(V)

Apeteceu-lhe gritar. Mas para que iria gritar ao vazio? Para ser engolida por ele em igual medida? Limitou-se a ouvir o intruso a respirar. A chorar. A vomitar arrependimento na forma de palavrões. Para ela, tudo isso era um espaço vazio ocupado pelo terror. Onde estão os meus pais?, implorou por respostas, Por que não ouço os meus papás?

Por fim, afastaram-se os passos aflitos. Distanciaram-se até serem nada. Passaram a ser meras memórias estéreis desse homem que abandonou o lar de Maria como se nunca lá tivesse deixado um legado destrutivo. Eterno. Maria sentiu-o como uma criatura desprovida de uma migalha de humanidade. Ser indecente. Energúmeno. Inferior.

Tens que ser forte, Maria!, lembrou-se, Vai até à sala. Eles precisam de ti. Convenceu-se a largar os lençóis que a abraçavam. Os joelhos tentavam convencê-la do contrário, mas a sua coragem de mil guerreiros exigia que não fugisse ao confronto com a verdade. Maria ergueu-se. Caminhou numa diagonal até à porta. Tropeçou nuns chinelos, mas não chegou a cair. Ela não ia cair. Ia seguir intacta até ao destino deste seu caminho de medo. Os seus pés ingénuos pousavam leves, tal penas, e trémulos, tal a esperança que algo de bom saísse pela boca do silêncio. Ao pousar o pé direito para mais um corajoso passo, sentiu-o ser invadido por um líquido. A sua meia a sufocá-la como podia. Tentou evitar pensar sobre o que poderia ser… Deve ser sangue…, pensou. Não pensar é uma mentira. Pensar é sobrevivência. É instinto. É mais verdade que nós alguma vez seremos.

Tendo o pensamento como inevitável, restou-lhe a inteligência de o usar para os encontrar: – Mamã… – chamou, voz coberta de medo – Papá…

Ninguém respondeu. Talvez pudesse seguir um possível rasto. Passeou o seu pé pelo chão em busca de alguma pista. Considerou-se absurda. Aquilo nunca daria em nada. Seguiu para a sala, tal como tinha definido assim que se tinha erguido da cama. Ela tinha a certeza que os tinha ouvido lá! Mas agora não os ouvia… Não os sentia… Será que…?

Ao passar a porta, abrandou o passo na mesma medida em que o seu corpo acelerou. Queria que o tempo se apressasse. Se pudesse, saltava aquele dia ou aquele mês. Ou aquele ano. Não podia. O seu corpo obrigava-a a ter que dar todos os passos, a sentir todos os centímetros e a respirar todo aquele peso até lhes chegar. Os pés percorreram o caminho cautelosos, mas livres. Até que embateram em algo. Maleável. Mole. Mãe…, teve a certeza quando se baixou e lhe tocou nas feições leves, lisas e sempre belas. Desviou-lhe da cara o seu enorme cabelo empastado. Os caracóis perfeitos. Canudos onde gostava de enrolar os dedos… Sentou-se junto dela, colocou a cabeça junto ao seu peito e apertou-lhe o pulso. O sangue tinha desistido de se passear. Não sentiu nenhum vibrar nos seus caminhos de vida. Maria petrificou. Olhos no vazio que era o seu pensamento. Enfeitiçou a mão e deslizou-a do pulso para o peito. Procurava um abraço. Aproveitar a réstia de calor que nela existia. Mas apenas sentiu um gélido arrepio quando o caminho da sua delicada esperança foi interrompido por crateras cravadas no tronco. Cavernas rodeadas por mares de líquido outrora vital, que ali não encontrava futuro. Espesso de nada. Sem função senão a dor. Tocar-lhes foi como um áspero toque na própria morte.

Fez-se choro. A menina Maria fez-se um coro de lágrimas que encontravam foz no seu queixo incrédulo. Abraçou a mãe, toda ela convencida que podia ser a última vez. Que podia… Recusava-se a aceitar tal destino como certeza. Decidiu-se a encontrar o seu pai… Ele tem sempre solução para os casos mais difíceis., pensou.

Levantou-se, limpou a face e seguiu com o seu peito pequenino, apertadinho, escondido num canto de si mesma. Toda ela se recolheu para esse canto, esperando que o corpo agisse como máquina e lhe deixasse a humanidade intacta. Deu um passo com o pé direito. Diziam que dava sorte… Seguiu-se o esquerdo. Nada. Respirou fundo antes de avançar uma vez mais. Mais uma vez descobriu um corpo que já não respeitava as ordens do seu efémero mestre. Vincou-se sobre ele numa saudade imediata. Abanou o corpo estátua na certeza que seria tudo um teatro. Um número para a assustar. Coisa distorcida que não pertencia à realidade… Abraçou-o com toda a vontade do mundo. Com força. Querer. Tudo o que queria era sentir o retorno. O calor dos braços a apertá-la. O calor da sua respiração, que era agora apenas uma memória de terno amor. Tudo o que queria sentir era o calor dos corpos. Sentiu apenas frio.

Os seus pais não podiam morrer no dia em que se celebra um nascimento…! Não podiam. O mundo não podia fabricar tal ironia!? Ou podia? Talvez… Só talvez… Ah(!), o que acontece na mente dos homens que matam inocentes? Quão sádica teria que ser a vida para que tal não passasse de ficção? Não podia… Ou podia… Talvez. Só talvez.

Tinha sabor a sangue na boca, sentia-se suja e seria capaz de jurar que todo o céu era mais pequeno que o leve ponto a que chamamos lua. As lágrimas continuaram acompanhadas de sons por igual. Como podiam não continuar? Contudo, ela podia ser um corpo mar antártico, mas tinha a visão virada para o calor. Como fazer com que se mantenham quentes como para sempre deveriam ser?, perguntava-se, Como sempre foram…

Levantou-se, perdida, pernas rápidas para lugar algum. Que dor visceral a perda paternal. Que sofrimento só o pensar na perda maternal. Como pode a realidade ser mais cruel que os pesadelos? O anjo tinha beijado a morte… Os corpos arrefeciam sem alternativa. Nada se podia fazer… Ou pode?, ponderou. Postou-se de gatas à procura do sonho. Que invasão de alento ao sentir a superfície lisa do seu presente. Agarrou-o, colocou-o ao colo e sentiu-o coberto sangue. Todo o seu ser quis desistir, sair-lhe pela garganta e abandoná-la. Sê forte por eles como eles foram por ti., encorajou-se. Pressionou os acordes com a mão esquerda, deslizou os dedos da mão irmã sobre as cordas e soou o som que havia soado na noite anterior. Onde todos estavam quentes pelo fervor da sua música. Quis parar em todos os segundos. Nunca o fez. Continuou. Angelical na esperança tórrida que os seus pais não arrefecessem se a ouvissem tocar a melodia. A que lhe tinham ensinado. A que os tinha aquecido ainda naquela noite.

 

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