“Quem Lê um Conto, Cresce um Ponto” – Onde está o brilho? (3ª e última parte) – Um conto original de Sérgio Filipe Godinho

Continuação do número anterior

(V)

A luz sem dono que lhe devolveu o passado fugiu como uma estrela cadente. O passado fechou-se naquilo que nunca devia ter deixado de ser: uma memória.

Muitos pensamentos poderiam ter passado pela mente do homem, mas ele apenas recordará às emoções. Até porque os pensamentos eram escassos. Emperrados. Escandalizados.

O seu peito parecia cada vez menos seu. Colocou a mão sobre ele e sentia-lhe o inferno quando se soltaram de si palavras que não viu no pensar: – O que fizeste com aqueles homens?

– Eles trouxeram o fogo sobre si próprios.

As sobrancelhas arquearam-se quando ele lhes respondeu: – Porque tu lhes pediste!

– Eu dei apenas uma mensagem que nenhum deles percebeu: A ganância queima os homens e o sonho aquece-os.

O homem fechou os olhos e baixou a cara. Nada de pior havia no mundo que os seus próprios reflexos.

– Porém, o diamante precisa de brilhar. E nós, os teus reflexos, estamos cada vez mais baços.

O homem, sem perceber o que lhe diziam, abriu os olhos. A paisagem outrora lúcida e brilhante, estava agora escurecida e extinta. Uma memória de si própria. Apenas isso. Cada vez mais isso. Apenas isso.

Ele levantou-se. Mais por instinto que por qualquer outro motivo. O que está acontecer?, era tudo o que pensava enquanto as mãos tocavam nas paredes vítreas e os olhos viram o que nunca pensaram ver: – Não me deixem! – implorou aos reflexos.

– Ainda queres saber onde está brilho?

Ele hesitou: – Sim…

– Para que tu encontres o brilho, nós temos que desaparecer.

E com a palavra “desaparecer”, a mais forte luz se sentiu. Capaz de cegar multidões, mas sem o calor de outrora. A respiração do homem parecia um carrossel sem rumo e sem fim. E foi no ramo fraco das tonturas que o seu corpo se apoiou. E caiu para outra existência.

(VI)

Tudo o que era mundo, já não é não mais. Nunca mais será e, no entanto, será para sempre. O presente nunca existirá sem passado. E o que resta, o futuro, não tem

que ser o assassino do presente. É o presente que será eternamente recebido. E assim será mesmo depois, quando ninguém o puder confirmar. Sempre houve tempo e sempre haverá. Contudo, parou. Para mim, parou.

As certezas são meros aprisionamentos forçados de dúvidas. Não vou por esse caminho. Nunca fui. E por isso perguntava para o meu eu mais profundo: O que aconteceu com o mundo?

Olhei em volta e…: – Reflexos! – chamei – Reflexos, onde estão?

Perder a companhia de anos… e ficar assente numa rotina à espera de o ser. Perder o chão espinhoso que os pés calejados não reclamavam. Rejeitavam, sim, este chão sem vontade: – Não vão! – pedi-lhes. E eles responderam, sem que me deixassem vê-los: – Nós estaremos sempre contigo. Nós somos um.

– Tenho medo de avançar.

– Se não fizeres o caminho não chegas à meta.

– Não sei se quero chegar…

Silenciaram-se. Depois, apenas um murmúrio: – Olha em volta e diz-nos o que vês.

Respirei fundo. Não consegui. Só quando a ordem dos reflexos veio é que eu tomei consciência do que me rodeava. Fiquei cego de mim e ébrio dos outros. As ruas eram as ruas. As pessoas eram pessoas. E tudo era o que sempre foi antes do diamante. Menos ele próprio. O que outrora tinha sido o maior diamante do mundo era agora uma massa de pó e crostas cinzentas. Dei passos na sua direção como se caminhasse na direção de um cadáver suspeito de ainda estar vivo. Mergulhei-lhe as mãos e, com elas juntas numa colher humana, vi o pó cair pelas fissuras dos dedos. Eram cinzas da minha…: – Prisão – murmurei, para ninguém senão eu – Nunca passou de uma prisão. Uma prisão onde sonhei estar acorrentado. A prisão do brilho…

Os olhos passearam-se sem objetivo. Como uma caneta que tenta escrever o pensamento mais brilhante do seu portador, mas sem uma mera folha para a anotar. Folha. Mesmo à minha frente estava a folha branca. Exposta, serena como sempre, na montra da loja que outrora foi minha e que agora nada vendia. Caminhei para ela, impressionado como apenas uma criança poder ser. Estiquei a mão e abri a maçaneta de metal. Nada oferecia resistência. Nada. Nem eu próprio.

Cheguei-me perto da montra e olhei a rua. Os admiradores do brilho tinham-se sumido e nas ruas existiam apenas pessoas. Gentes com aspirações diferentes das de serem as donas do brilho. E isso fazia-as… brilhar aos meus olhos.

A folha estava a centímetros de mim. Agarrei-a com delicadeza tal que parecia colher uma flor para um bouquet real. Apressei-me a verificar se o velho banco de madeira ainda estava ali. Encontrei-o caído e empoeirado junto a uma estante com saudade de livros. Peguei nele e soube que teria a força para me apoiar mais uma vez. De folha e banco na mão, dirigi-me para o mundo.

Um ar quente vivia na rua. Aproximei-me do monte de grafite e apanhei um pequeno pedaço – apenas grande o suficiente para ficar confortável na mão. Sentei-me no velho banco e mirei a folha. Amarrotei-a como nunca uma outra folha tinha sofrido nas minhas mãos. Marcada pelos vincos e dobras da dureza que lhe impus, parecia pouco mais que um pedaço de lixo. Algo sem saber do seu sentido. Foi então que, como se tratasse de seda, a libertei da prisão que era. Pedaço após pedaço, ponta após ponta, a folha tornava-se mais folha. Nunca seria a mesma folha. Nunca mais. Contudo, ainda existia uma história a ser escrita. E eu via aquela folha como a representação perfeita da minha vida vincada pelo consumismo do brilho.

Apenas uma pergunta me surgiu na cabeça: – Onde está o brilho?

Apenas uma resposta falou através de um sorriso sincero. Pela primeira vez, não precisei que um diamante brilhasse por mim.

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