Peregrinos do Sol

Dr. Fernando Figueiredo

Dr. Fernando Figueiredo

Não interessa onde se situam os santuários das areias, lambidas por calmas ou revoltas águas! Multidões ávidas de receberem o senhor sol utilizam os mais diversos meios de lá chegarem. Conservadores caminheiros trocaram o bastão pelo chapéu-de-sol, a carroça pela camioneta ou comboio que mais parecem sardinha em lata.

Outros ostentam os coches, puxados por cavalos de petróleo, onde as filas, num pára arranca de horas, mantêm todo  o stress da semana, ou mais.

Para terem o merecido descanso, levantam-se bem cedo ou exactamente como nos dias de trabalho, só que chegam tarde, e, de preferência quando  o sol está alto, ou seja, mais prejudicial.

Para compensar o atraso, levam o óleo para besuntarem-se antes de iniciarem a fritura.

Pensam e comentam que, assim, o ultra violeta não fará tão mal. Esquecem-se que a camada de ozono em Portugal não apresenta a mais pálida carência.

Em vez de hidratarem a pele com água, sumos de frutos ou plantas que não tapam os poros, aplicam no corpo, em parte ou no todo, pastas e geles extraídos do petróleo, com as mais diversas contra indicações e geradores de cancro de pele e outros, em lugar de os evitarem.

O bronzeado manter-se-á por muito mais tempo se o bronzeador for de sumo de cenoura, uva ou mesmo vinho tinto, maçã, laranja e muitos mais, misturados com algumas gotas de essência de alfazema, alecrim e ylang lang.

O perfume exalado destas substâncias e misturado com as fero hormonas, provocará em si e nos outros, reacções hormonais hiper benéficas à saúde, para não dizer que será um elixir afrodisíaco.

Não é demais relembrar que a pele, com perto de seis quilos de peso, é o nosso maior órgão. Para trabalhar tem que ser estimulada com vento, água, frio, calor e carícias suaves ou violentas. Bem basta a roupa, que durante a maior parte do tempo, não deixa a pele alimentar-se e excretar tudo o que é indesejável ao organismo. Não forre o corpo com uma camada plástica!

Depois destes preliminares, o ritual ao culto do deus sol, vai começar num cenário dantesco, onde os autores se distribuem aqui e ali em extensos areais ou se concentram de forma exagerada nas que mais parecem ilhas de focas em algazarra infernal. Nos primeiros, o silêncio da natureza dita a música. Nos segundos, vibrações frenéticas são impostas por potentes colunas cujos decibéis dão continuidade aos walkietalkies, ou seja, à fábrica dos surdos. Estas máquinas ruidosas, são apoiadas por bandas com animadores a exortarem, não sei bem o quê, provavelmente ao astro rei, que confirmará o calor com o fumo de uns cigarritos, de forma que o vento defume bem os parceiros do lado e no outro dia as piriscas enterradas em todo o areal fiquem para a posteridade, a fim de facilitarem a vida aos arqueólogos.

Faço votos que a lei antitabagista contemple estes locais, só apenas porque há algumas crianças que podem queimar os pés nos cigarros mal apagados…

Há alguns anos atrás vi, e, muito bem, proibir a passagem dos aviões publicitários pelas praias devido ao ruído. Quanto às colunas e bandas? «E esta hein?!»

A discoteca está montada, as poltronas dão lugar às toalhas, a dança é estar deitado e o mais imobilizado possível.

O corpo exposto ao sol recebe as suas carícias, para algum tempo depois procurar, nalguns casos, a frescura gélida das águas do mar.

Corpos elegantes pertencem ao passado e já não devem ser considerados como normais. Os padrões correntes são o de barrigas empinadas e grávidas de hambúrgueres e pizas, ancas de banhas a dar a dar e pernas com derrames, que bem mais parecem paus entrelaçados dos ninhos de cegonhas!

Será bem mais saudável se o almoço e o lanche forem de fruta e água e aproveitarem o dia para um relativo jejum, a fim de perderem tudo aquilo que não querem.

Se porventura não tem o hábito de apanhar sol no corpo durante todo o ano, no primeiro dia, a exposição não deve exceder os dez minutos, dobrando o tempo na sequência de dia para dia.

Quando vão refrescar-se façam-no de preferência com digestão feita ou refeição fugaz. Não entrem bruscamente na água. A dona congestão não existe, o que acontece é um fenómeno termo eletrocutivo, resultante de uma paragem cardíaca pelo esforço do coração para fazer chegar de forma brusca o sangue à periferia do corpo, pelo rápido arrefecimento.

Antes de entrarem na água devem ter sempre o cuidado de passarem as mãos húmidas e arrefecidas, primeiro pelas pernas e braços, de seguida pelo abdómen e peito e finalmente pela cabeça.

O maior número de vítimas mortais, situa-se nos que julgam saber nadar muito bem. Não exceda as suas capacidades.

Se não sabe nadar ou tem pouca prática não lhe fica nada mal um colete. Uma bóia ou um colchão que lhe escapa das mãos e um fundão põem a sua vida em risco se não for socorrido de imediato.

Os acidentes, não acontecem só aos outros, acontecem também a nós. Haverá alguém que leia este artigo e que não se tenha minimamente aleijado?

«Há mar e mar, há ir e voltar».

Quando for para férias leve na sua bagagem um pouco de argila, folhas de silvas e lacto bacilos. A maioria dos veraneantes, por esta ou por aquela razão, e em especial os que se deslocam a países tropicais, têm uma diarreia. Poderá tratar-se rapidamente, se tomar o equivalente a meio dedo mindinho de argila de uma só toma, fazer e beber o equivalente a ½ litro de chá das folhas das silvas. Nos dois dias seguintes tomar comprimidos de lacto bacilos.

Marisco e carne de porco, quer em febras, fiambre ou presunto, tenho quase a certeza que vão fazer parte das iguarias da peregrinação ao sol. Em face disto, leve cápsulas ou comprimidos de harpago pois o ácido úrico pode pregar-lhe uma partida nas articulações. Reforce com envolturas seguidas de cataplasmas de argila amassadas com água gelada.

Raro é o preso de ventre que, quando muda de ambiente, a sua obstipação não aumenta. Se já sabe disto e a sua experiência ditou a má sorte, porque não se fazer acompanhar por laxativos?

Numa ervanária adquira um pouco de folículo de sene, sementes de linhaça, cáscara sagrada, hortelã-pimenta e erva-doce. Em casa, com o auxílio da picadora, triture isto tudo e misture bem.É fácil levar para férias e deitar uma colher de sobremesa num litro de água fervente, que tira à noite da torneira, mesmo num hotel. Deixe o chá a fazer durante toda a noite, para começar a tomá-lo a partir da manhã. Quanto ao recipiente para fazer a tisana, qualquer plástico serve, e para beber nem que seja o copo de lavar os dentes.

A partir de agora não precisa encolher-se, para evitar lançar as “bombas de mau cheiro”…

Votos de boas férias, mesmo com muitas asneiras. O que é preciso é voltar relaxado. Para quê preocupar-se com cuidados de saúde, se tem mais onze meses de trabalho e tanto tempo para se tratar!

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