O Calor dos Corpos (Parte 1) – Um conto original de Sérgio F. Godinho

(I)

A menina Maria refugiou-se no terraço do último piso. Esse sítio distante de tudo era onde ficava mais perto de si. Gostava de sentir o frio a beijar-lhe a face e ouvir o que o caos lhe tinha para dizer. Que prazer enorme o de abrir os braços e ter neles toda a cidade. Todos aqueles sons. Que glória! Abraçava o mundo desta forma sempre que ele estava frio, mesmo sem que ele alguma vez lhe tenha reconhecido o conforto. Ela pensava que o mundo devia ser tímido. E abraçava-o de novo. Estes momentos proibidos de inverno eram os seus favoritos. Adorava-os. Eram os seus preferidos, pois era quando tinha a certeza que não conseguir ver nunca a iria impedir de ver beleza na paisagem.

Naquele dia, a sua mente estava preocupada com uma questão bastante especial. Intrigante. A sua mãe pareceu cantar-lhe quando, nessa manhã, lhe perguntou o que queria receber para o Natal. A sua meninez ingénua fê-la subir às nuvens. Sorriu a tudo o que era possível. Por momentos, desejou o que todos os outros meninos desejam. Por momentos apenas. Porque onde ela vive, as cores não passam de distrações inúteis. Onde ela vive, os objetos não ficam mais pequenos apenas por nos afastarmos deles. Onde ela vive, os olhos não olham para fora, mas para dentro. Tudo o que ela queria era aquecer o mundo com o um calor tão delicado que seria capaz de fazer bonitas rios com nada mais que agulhas de gelo.

Tentava descortinar qual seria a magia que iria trazer esse seu sonho à realidade quando ouviu o chão. Um burburinho, como se as pedras brincassem entre si. Arranhavam-se… Algo se aproximava dela. Sentiu um movimento no ar. Ela manteve-se serena, vestida com a dignidade de uma princesa, a preencher o puzzle dos sentidos. O que seria? Uma respiração. Uma presença. Por fim, uma mão no seu ombro. Uma mão de calor.

– Vem para dentro, Maria. – reconheceu o som. A vibração vinha calma. Carinhosa. Querida. Era a voz da sua doce mãe, Carolina – O papá tem algo para te mostrar.

 

(II)

Soube que entrou em casa quando o vento lhe fugiu dos contornos e o calor lhe abraçou as mãos: – Onde está ele, mamã?

– Na sala, sentado na poltrona em frente à lareira.

Não precisava que a mão da sua mãe a guiasse. Tinha decorado todos os contornos. O chão coberto de tapetes adormecidos no centro do corredor, as esquinas afiadas do móvel que hibernou no lado direito e a estátua rugosa em forma de gato que arranhava o fim. Fez-se ao caminho. Apareceu então uma curva, mas ela sabia todas as curvas das paredes. Tinha que virar à direita. Dar três passos. Um. Dois. Três. Continuou ao esticar a mão direita rumo à parede. Parede essa que decidiu dar aquele pequeno espaço para que uma porta lá pudesse viver. Empurrou-a. Bastou um leve toque na madeira lisa com as pontas dos dedos. Ao fazê-lo, ouviu pequenos estalinhos. Cheirou-lhe à lareira acesa. Um bafo de breve verão admirou-a. Sorriu, na certeza de ter chegado ao sítio certo.

– Olá, papá. – cumprimentou, voz alegre como se fosse o seu espelho.

Sentiu que ele a olhou. Sentiu que sorriu. Sentiu que sim: – Vem sentar-te ao meu colo, Maria.

O quanto ela gostava de se sentar na poltrona, com o calor a sussurrar-lhe na pele e o pai a murmurar-lhe ao ouvido. Rumou para ele. Desviou-se da mesa redonda revestida de napperons numa inclinação suave. Seguia o rasto do mais belo cheiro a alecrim, folhas de laranjeira, essência de rosas e tantas outras maravilhas que ela era incapaz de nomear. O seu pai tinha muito cuidado a escolher o seu perfume, não fosse ele um conhecido criador desses milagres.

Ao sentir-se perto, tão gloriosamente perto, do seu pai, abriu a mão e atirou-a para a frente. Sentiu os estofos da poltrona a fazerem-lhe cócegas na palma desprevina. Passeou-a até a perna do pai. De súbito, voou. Tanto como qualquer pássaro livre. Asas abertas. A gravidade como grave gralha. Plenitude. Voo em bando com os braços de seu pai. Ela e o pai eram todo o mundo. E, tão súbito quanto a descolagem, a chegada ao ninho. As calças de ganga ríspida a tocar na perna descoberta pelo vestido. A camisola de lã suave no seu pescoço. Um encosto enternecido. Podia viver ali para sempre.

– O que estavas a fazer papá?

– Estava a ler um livro.

A voz rouca, que lhe soava sempre bela, levou-a a recordar-se de todas as bonitas estórias que o pai lhe oferecera, e que ela leu sem que precisasse de abrir os olhos uma única vez. Lia com as mãos. Tocava-lhes. Sentia-as. Deixava as letras brincar com os seus sentidos mais que qualquer outro menino.

– As estórias são como magia. – comentou.

– Porquê?

– Porque nos levam para onde queremos ir. Sem demorarem tempo. Basta abrir a página e já viajámos milhares de quilómetros.

– Por vezes até no tempo viajamos. – acrescentou o pai – Como se ele tivesse um comboio mágico que nos respeitasse a vontade.

Um doce entusiasmo preencheu-a, tal com uma breve lufada de vento fresco no verão: – E podemos ir para o mesmo local quantas vezes quisermos, quando quisermos.

– Sabes que mais é mágico?

Ela sabia. A magia dos outros meninos não era a mesma magia que a do mundo dela. Os seus olhos não lhe falavam a verdade, mas também não lhe mentiam. A magia dela ocorria, mais que em qualquer outro, na mente. A magia era ela que a construía. Toda. Em última instância, a magia era ela. Soube que o pai a ia ajudar para esse espetáculo de si própria quando lhe pediu para a pousar no chão. Ouviu então os passos atarefados da mãe. O bater de mãos numa superfície oca. Madeira… Soava a madeira. Ouvia a mão do pai receber este presente da mão da sua mãe. Ambas quentes. Esta criatura mágica que eles passavam entre si fez um leve som quando o pai a ajeitou no seu colo. E, como se ele fosse o mestre do universo, forçou esta criatura a soar a mais bela música de Natal. Sentiu um leve arrepio percorrer-lhe as costas. Um frio que aquecia. Acolhedor. Todo o seu corpo aquecia como um vulcão simpático que usa a sua lava apenas para retirar o frio, nunca para queimar.

– A música pede à mente que se faça calor nos corpos. – comentou a sua mãe, antes de juntar a sua mágica voz ao som das cordas da viola.

Sem que ela esperasse, a voz da sua mão juntou-se numa sinfonia de carinho. Os pelos de Maria formaram uma armadura de ar. Defendiam-na deste poder desconhecido. Arrebatador. Uma pujante forma de vida sem forma alguma. Uma combinação de calor, carinho, de tudo o que se podia lembrar, mas para os quais não tinha nome. Momento de magia na mente mais mendiga do mundo.

Já sei o que quero para o Natal., pensou, Quero vê-los felizes. Quero uma viola. Quero este calor.

 

(III)

Os seus pais nunca a viram tanto como uma parte de si como quando ela lhes pediu a viola. A música era o que os unia. Escolher a música era escolher uma parte de cada um deles para fazer alguém por inteiro. Para eles, era o ser pai ou mãe no expoente máximo. Por isso, Maria arriscava pensar que podia receber o seu tão desejado presente. Arriscava, só. Sonhava com isso. Raptada por tamanha incerteza do querer, não pôde evitar uma saudável ansiedade quando o natal acolheu o calendário.

Podia acordar desorientada após uma longa hibernação que, quando se sentisse rodeada daquele ambiente, saberia que estava em sua casa na noite de vinte e quatro de dezembro. O ar bafejado com a promessa do sabor das filhoses, da aletria e do bolo-rei. A textura do grão a voar junto com a do bacalhau cozinho, abraçadas pelas nuvens de cheiro das couves macias. Todos esses odores dançavam ao som das belas melodias de natal. À dança juntavam-se o perfume do seu pai e o natural acolhedor aroma da sua mãe. E as músicas alegravam-se com sininhos, vozes de amigos que ela nunca conheceria e sorrisos falados de alguém que esperava uma redenção total nesta época especial. Calor de fogo bafejado de ternura. Calor humano pintado com partilha. Calor, por si e num todo, oferecido pela mente.

Toda essa noite foi uma agradável invasão ao seu castelo dos sentidos. Ora toques, ora sabores, ora cheiros. Sempre carinho, sempre música, sempre vozes. A companhia ideal para o natal. No entanto, a cada garfada, inspiração ou palavra, a roedora ansiedade continuava lá a imitar um ratinho que corre na sua roda enquanto espera que o tempo traga o que há de vir. A meia-noite parece a um mês de distância. Espero que seja a viola., suspirou para si, Quero-a tanto. Quero tanto poder aquecer aqueles que gosto. Que invasão de alegria a de pensar ter na sua posse tão magistral objeto. Algo com o qual ela própria podia originar vida. Como se tivesse uma espécie de poder superior capaz de iluminar o mundo apenas por assim o querer. Aquecer os corpos mortais como um anjo que decide ser Homem.

O açúcar dos doces formava uma muralha adocicada nos cantos da sua boca quando a sua mãe anunciou: – Não consigo esperar pela meia-noite… Que me dizem a abrir os presentes?

O tempo perdeu o seu poder de tortura. Era agora! O momento tinha chegado. Deu um salto para o vazio e saiu da cadeira. Correu para a sala. Os braços em frente do corpo tanto a protegiam das surpresas do caminho, como a aproximam do presente. Perseguia o odor a madeira queimada, a embrulhos e à pele dos sofás. Estava já na sala quando deu por si a pensar A meu lado dorme a poltrona. Saltou para ela. Esperançosa. Abraçou as mãos uma na outra, encarquilhou os dedinhos dos pés dentro dos seus sapatinhos e aproveitou todos os segundos do remoinho que vivia dentro do seu umbigo. Ouviu os passos dos adultos a chegar. Traziam uma balada de alegria.

– Querido, creio que ela também não consegue esperar.

O seu pai respondeu de pronto: – Nem precisa de o fazer.

Estas vozes mel agarraram um embrulho. A música do papel ao ser tocado pelas mãos. O seu som mais próximo. Um aviso de ternura. Esticou as mãos abertas ao alto para o receber. Sorriu quando sentiu o toque liso do papel de embrulho as tocar-lhe nas mãos descobertas. Textura suave. Frio. Pontiagudo. Não era muito rígido, nem era muito mole. Tinha uma forma retangular que prometia proteger alguma coisa e não ser ela própria, a caixa que tocava, o tão ansiado presente. Vincou os dedos, furou o embrulho com as unhas e rasgou aquela máscara. Imaginou algo brilhante, porque era assim que se sentia. Percorreu os detalhes vincados da caixa de cartão enrijecido. Procurava algo. Uma abertura. Um rasgo de luz, fosse isso o que fosse. Encontrou uma saliência, puxou-a e desvendou o segredo. Mão hesitante, como se temesse o que podia descobrir. Ou não descobrir. Tocou de leve no sítio certo. Uma superfície fria. Fina. Uma corda. Duas… Seis! Desprovida de qualquer vergonha inútil, abraçou-a e festejou a felicidade. Tenho uma viola., convenceu-se, Eu tenho o calor dos corpos na minha mão.

– Toca a música que te ensinei há dias, Ana. – pediu o pai, espetador.

Maria imaginou que a olhavam com orgulho. A mãe no colo do pai. Ambos de calmos olhos mar. Felizes. As cabeças a tocarem-se num leve ponto.

Ela apoiou a sua preciosa prenda no colo, absorveu-lhe a essência e tocou. Uma melodia suave, capaz de calar as distrações da vida a acontecer em redor. Tal como o seu pai lhe tinha ensinado. Ganhou coragem e libertou a voz prisioneira de sua garganta para a dar companhia ao mundo solitário da guitarra. Tal como a sua mãe lhe tinha ensinado. Era a música a juntar uma parte de cada um deles para fazer alguém por inteiro.

Apercebeu-se que estavam radiantes. Realizados. Que sorriam para si. O que interessava que não os visse? Sentia-os. E que mais são os sorrisos que para serem sentidos? O que é o mundo senão para ser sentido? Todo ele é apenas interior. Naquele momento, todo ele era apenas calor. O calor que ela oferecia aqueles corpos que tanto amava. Corpos quentes como nunca.

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