Miguel Portela* – Novos dados para uma biografia do compositor Francisco António de Almeida [1703-1754]

*Investigador

Breve introdução

São inúmeras as partituras manuscritas de compositores portugueses e estrangeiros que permanecem esquecidas nas estantes de bibliotecas e arquivos. De igual modo, e não menos importante, constatamos que a historiografia não tem sido capaz de reabilitar alguns dos mais representativos compositores Portugueses, fazendo-nos acreditar que a Música Portuguesa não teve, nem importância, nem impacto expressivo na nossa cultura.

Cremos, que o défice de estudos neste campo, tanto sobre os compositores, como sobre os músicos que a interpretaram, poderá ser um dos factores para que o conhecimento e divulgação da música antiga portuguesa seja pouco conhecida, divulgada, e interpretada no nosso país. Porém, reconhecemos algumas obras fundamentais para o conhecimento da vida e trabalhos de alguns compositores portugueses entre os séculos XVI a XVIII, como é o caso do estudo sobre “A Música no Ciclo da «Bibliotheca Lusitana»” de Rui Vieira Nery, editado em Lisboa, em 1984 pela Fundação Caloustre Gulbenkian.

 

Compositores e músicos setecentistas: breves notas

Nuno de Mendonça Raimundo, no seu estudo “Música, Patriotismo e Sebastianismo. Espírito autonomista na música portuguesa sob reinado filipino”, apresentado em 2015, na Faculdade de Ciências e Humanas – Universidade Nova de Lisboa, no âmbito de Mestrado em Ciências Musicais, sublinha que “No campo musical, Filipe II dotou a Capela Real portuguesa do seu primeiro regimento, em 1592, sistematizando finalmente, ao fim de dois séculos de existência desta instituição, uma série de práticas mantidas apenas na tradição oral; e ficou a sua composição em 24 cantores (6 por voz) e 5 instrumentistas, colocando-a ao nível das suas congéneres europeias” (http://independent.academia.edu/NMendon%C3%A7aRaimundo). 

De entre um grande número de compositores e músicos que estiveram ao serviço da corte portuguesa, destacamos, por exemplo, enquanto organista de Filipe II de Portugal, Álvaro Gomes, cuja filha, Justa Sebastiana contraiu matrimónio na igreja do Convento de Santa Clara em Lisboa, em 8 de janeiro de 1608, com Luís Barreiros (A.N.T.T. [Arquivo Distrital de Lisboa], Livro de Registos Mistos da Paróquia de Santa Engrácia [1586-1620], Livro M1, Caixa, n.º 1, assento n.º 1, fl. 61).

Foi precisamente no reinado de D. João V que o ensino da Música adquire uma importância manifesta, particularmente com a criação de uma escola para o seu ensino, em Lisboa, em 1713. Desta cidade saíram inúmeros músicos para as principais Sés Portuguesas, destacando-se de entre muitos compositores e músicos, Manuel Antunes, um dos mais relevantes organistas portugueses da primeira metade do século XVIII. Manuel Antunes, natural de Lisboa, foi organista da Sé de Coimbra, e veio a falecer em 10 de maio de 1725, tendo sido sepultado “debayxo do cuberto da claustra desta Santa Seé”, deixando inúmeras composições que permanecem ainda por (re)descobrir na cidade de Coimbra (Arquivo da Universidade de Coimbra, Livro de Óbitos da Paróquia da Sé Nova em Coimbra [1709-1746], III-2.ªD (PT/AUC/PAR/CBR25/004/0003), assento, n.º 5, fl. 114). De igual modo, constatamos que desde o reinado de D. João V, era mestre de Rabeca de Sua Real Majestade, Pedro Jorge, casado que foi com D. Maria Luísa Lamprete, o qual faleceu em 4 de fevereiro de 1752, tendo sido sepultado na Igreja Matriz de Salvaterra de Magos (A.N.T.T. [Arquivo Distrital de Lisboa], Livro de Óbitos de Salvaterra de Magos [1732-1764], PT/TT/PRQ/PSMG04/003/00003, assento n.º 2, fl. 126v).

A cidade de Coimbra foi um dos principais centros musicais do Portugal setecentista, todavia, a falta de estudos desta matéria, não têm permitido consolidar essa relevância. Destacamos entre os inúmeros compositores que nos deixaram um legado rico de música, em particular, missas, requiens, responsórios, etc., os nomes de Dionísio José de Oliveira e José de Sousa Coelho. Dionísio José de Oliveira, compositor, natural da cidade de Coimbra, filho de Tomé de Oliveira e de Mariana Luísa, foi casado com Luísa Clara, natural da cidade do Porto, filha de João de Almeida e de sua mulher Maria Teresa, moradores na freguesia de S. Ildefonso, na cidade do Porto. Deste matrimónio, nasceu, entre outros filhos, Maria, que foi batizada em 28 de outubro de 1756, na Igreja da Colegiada de S. Cristóvão, em Coimbra (Arquivo da Universidade de Coimbra, Livro de Batismos da Paróquia da Sé Velha em Coimbra [1745-1789], III-2.ªD (PT/AUC/PAR/CBR38/002/0002), assento, n.º 2, fl. 32).

De idêntico modo, reconhecemos, José de Sousa Coelho, como compositor filho de Domingos de Sousa, natural da freguesia da Sé da cidade de Coimbra e de Domingas Coelha, natural de Samuel (c. Soure) foi casado com Antónia de Jesus, natural da freguesia de S. Cristóvão dessa cidade, filha de João Rodrigues natural do Espinhal (c. Penela) e de Antónia de Jesus, natural de Continge (c. Sátão). Deste casamento, nasceu, entre outros filhos, Maria, que foi batizada em 1 de julho de 1759, na paróquia de S. Cristóvão da cidade de Coimbra (Arquivo da Universidade de Coimbra, Livro de Batismos da Paróquia da Sé Velha em Coimbra [1745-1789], III-2.ªD (PT/AUC/PAR/CBR38/002/0002), assento, n.º 1, fl. 64).

No reinado de D. Maria I, sobressaem alguns músicos que se encontravam ao serviço da corte portuguesa, particularmente com ocupação na Capela de Ajuda. Achámos que em 1 de março de 1780, era músico da Capela da Ajuda, Dom Mateus Urgeli, tendo sido padrinho no batismo de Mateus Teotónio filho de José António e de Cristina Maria, que foi batizado nessa data na Igreja Matriz de Colares (c. Sintra) (A.N.T.T. [Arquivo Distrital de Lisboa], Livro de Batismos da Paróquia de Colares [1777-1784], Livro B12, Caixa, n.º 4, assento n.º 1, fl. 45v). De idêntico modo, em 24 de dezembro desse mesmo ano, era músico d’El-Rei (D. Pedro III), Miguel Mayciote, italiano, tendo este sido padrinho de batismo de Miguel filho de Elias José Ferreira e de Ana Joaquina Rita, que foi batizado nessa data na Igreja Matriz de Colares (Idem, assento n.º 1, fl. 58).

 

O compositor Francisco António de Almeida

Um dos mais relevantes compositores da primeira metade do século XVIII, a par de João Rodrigues Esteves e António Teixeira, foi sem dúvida, Francisco António de Almeida. Estes três compositores foram enviados para Roma, enquanto bolseiros de D. João V, para aprender e aperfeiçoar a sua arte, naquele que foi um dos principais centros de irradiação da música instrumental e coral setecentista.

A obra de Francisco António de Almeida têm vindo a ser estudada por reconhecidos autores, destacando-se entres vários estudos, o importante “Contributo para o Estudo da Música Religiosa de Francisco António de Almeida. Transcrição e Análise de Seis Obras Litúrgicas para Solistas, Coro e Orquestra.”, de João Paulo Janeiro (Dissertação de Mestrado em Musicologia Histórica elaborada por João Paulo Janeiro sob orientação do Prof. Doutor Gerhard Dodered, apresentada na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Departamento de Ciências Musicais, em 2004, 238p.).

Da imensa produção artística de Francisco António de Almeida destacamos várias óperas, nomeadamente, La pazienza di Socrate  (1733), La finta pazza  (1735) e La Spinalba, ovvero il vecchio matto  (1739), a serenata L’Ippolito  (1752) e a oratória La Giuditta  (1726).

Apesar de alguns autores se terem debruçado sobre a obra deste artista, pouco se avançou sobre a sua genealogia, em particular, sobre a sua família, nascimento, descendência e falecimento. Nesse sentido, procedemos a uma apurada investigação que possibilitou a (re)descoberta desses dados.

 

Novos dados biográficos sobre o compositor Francisco António de Almeida

Francisco António de Almeida nasceu na vila do Crato, onde foi batizado em 17 de fevereiro de 1703, sendo filho de Domingos Rodrigues de Almeida e de D. Catarina da Rosa, sendo neto paterno de João Mendes e Maria Rodrigues, e neto materno de Manuel da Rosa e de Maria Gonçalves (doc. 1). Sabemos também, que Francisco António de Almeida teve uma irmã de nome Maria que foi batizada na mesma vila do Crato em 26 de outubro de 1705 (doc. 3).

Da sua juventude nada se sabe de momento, pelo que só em 1722, surge alusão a Francisco António de Almeida, como pensionista de D. João V, em Roma, cidade onde terá permanecido até 1724. Data precisamente de 9 de julho desse ano, uma “caricatura” de Francisco António de Almeida, executada por Pier Leone Ghezzi, e que se guarda na Biblioteca Apostólica Vaticana com a seguinte legenda “Signor Francesco Portoghese il quale è venuto in Roma per studiare, e presentemente è un bravissimo compositore di Concerti, e di musica da Chiesa, e per essere Giovane è uno stupore e canta com gusto inarrivabile, venendo alla mia Academia di Musica Io Cavalier Ghezzi me ne sono lassata la memoria il di 9 iuglio 1724”.

Figura 1 – “Caricatura” do compositor Francisco António de Almeida por Pier Leone Chezzi, datada de 9 de julho de 1724.

A partir de 1728, encontrava-se em Portugal, na cidade de Lisboa, onde viveu toda a sua vida e compôs imensas peças musicais, sacras e profanas. De entre alguns cargos que exerceu, destacamos o de organista da Igreja Patriarcal de Lisboa. Poucos anos antes de falecer, em 20 de fevereiro de 1751, D. José I, tornou-o Compositor de Música de Sua Câmara, com 50 000 réis de ordenado por ano, tendo o alvará sido passada a 20 de abril desse ano (doc. 3).

Tem sido apontado o ano de 1755, como o do seu falecimento, justificado em parte pelo grande terramoto que ocorreu no dia 1 de novembro desse ano. Porém, comprovámos que Francisco António de Almeida faleceu em 3 de outubro de 1754, em Sacavém, tendo sido sepultado na ermida de Nossa Senhora da Vitória, como consta no registo do seu óbito (doc. 4).

 

Em síntese

Francisco António de Almeida é sem dúvida, um dos mais importantes compositores da primeira metade do século XVIII. Estes novos elementos permitem-nos demarcar o período de sua vida, de forma inequívoca.

Esperamos que tanto a vila do Crato como a cidade de Sacavém, possam no ano de 2018 prestar a devida homenagem e tributo a este compositor assinalando os trezentos e quinze anos anos sobre a data do seu nascimento, com a atribuição toponímica a um largo, rua ou avenida nessas localidades.

 

APÊNDICE DOCUMENTAL

Documento 1

1703, fevereiro, 17, Crato – Registo de batismo do Compositor Francisco António de Almeida.

Arquivo Distrital de Portalegre, Livro de Batismos da Paróquia do Crato [1691-1703], PT/ADPTG/PRQ/PCRT02/01/11B, Caixa n.º 005, assento n.º 3, fl. 177v.

˂ Francisco ˃

Aos dezasette dias de fevereiro de mil e settecentos e trez annos, baptizey solemnemente a Francisco filho legitimo de Domingos Rodriguez e Catarina da Roza. Forão padrinhos Bartolomeu de Andrada Leitão e D. Maria filha de Pedro de Andrada Leitão todos parochianos desta Matriz de Nossa Senhora da Conceiçam e em feé de que fis este termo etecetra. Crato, dia, mes, e anno ut supra.

  • O Mestre Beneficiado Antonio de Almeida de Andrada

Documento 3

1705, outubro, 26, Crato – Registo de batismo de Maria irmã do Compositor Francisco António de Almeida.

Arquivo Distrital de Portalegre, Livro de Batismos da Paróquia do Crato [1703-1711], PT/ADPTG/PRQ/PCRT02/01/12B, Caixa n.º 005, assento n.º 2, fl. 36.

˂ Maria ˃

Aos vinte e seis dias do mes de dezembro de mil e setecentos e sinco annos nesta matris da villa do Crato eu o Padre Francisco Gonsalves Ferrenho Reverendo nesta baptizei solenemente a Maria filha legitima de Domingos Rodrigues e de seu legitima molhere Catherina da Roza neta pela parte paterna de João Mendes e de Maria Rodrigues e pela materna de Manoel da Roza e de Maria Gonsalvis. Forão padrinhos Manoel Pireira Garro em seo lugar tocou por procurasam Pedro Cazado Mures e Roza Maria solteira filha de Pascoal Teixeira todos desta freguezia e por verdade fis este termo que asignei dia mes era ut supra.

  • O Reverendo Francisco Gonsalvis Ferrenho

Documento 3

1751, fevereiro, 20, Lisboa – Registo de mercê de D. José I, em que tornou Francisco António de Almeida, Compositor de Música de Sua Câmara, com 50 000 réis de ordenado por ano, tendo o alvará sido passada a 20 de abril desse ano.

A.N.T.T., Registo Geral de Mercês 1639/1949, Registo Geral de Mercês do reinado de D. José I, Livro 2, PT/TT/RGM/D/0002, fl. 536.

Francisco Antonio de Almeyda natural da villa do Cratto filho do Capitão Domingos Rodrigues de Almeida.

Houve Sua Magestade por bem tendo concideração ao prestimo, sufficiencia, e mais partes que concorrem em o dito Francisco Antonio de Almeida, e ao particular zello, e cuidado com que se emprega no seu serviço. Há por bem fazerlhe mercê de o tornar por Compositor de Muzica de Sua Camera, com o qual emprego haverá sincoenta mil reis de ordenado, cada anno, que lhe serão assentados na Folha dos Officiaes de Sua Caza, pagos pello Thezoureiro della e concignação da mesma folha, com vencimento, de 20 de fevereiro deste prezente anno em diante, ao Alvará foy feito a 20 de abril de 1751.

(Lateralmente está registado “Em (?) o primeiro de agosto de 1751”).

Documento 4

1754, outubro, 3, Sacavém – Registo de óbito do Compositor e Beneficiado Francisco António de Almeida.

A.N.T.T. [Arquivo Distrital de Lisboa], Livro de Óbitos da Paróquia de Sacavém [1720-1774], Livro O1, Caixa n.º 14, assento n.º 1, fl. 112v.

˂ O Beneficiado Francisco Antonio de Almeida ˃

Aos tres dias do mes de outubro de mil settecentos sincoenta e quatro falesceo da vida prezente com o Sacramento da Extrema Unção, e não recebeo o da Comunhão, pella dimencia em que se achava, e não falar, e foi absolvido comdicionalmente, o Beneficiado Francisco Antonio de Almeida, Compozitor da Camera de Sua Magestade, filho do Capitão Domingos Rodrigues de Almeida, e de Dona Catherina da Roza. Morreo abintestado sem testamento, esta sepultado dentro na Ermida de Nossa Senhora da Victoria desta lugar de Sacavem, e por verdade fis este acento que asignei, dia, era ut supra.

  • O Prior Jorge Affonso Godinho

 

 

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