Mário Coelho Fernandes e Aires Henriques: Itinerários turísticos de Pedrógão Grande (2) – A Estrada Real de Figueiró dos Vinhos  a Pedrógão Grande

 

Antes da construção da EN350 (entre Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande) existiu na Região do Vale do Zêzere uma denominada “Estrada Real” que, partindo do norte da Lavandeira (junto à Vila de Figueiró dos Vinhos), atravessava quatro ribeiras: a Ribeira da Lavandeira; a Ribeira do Poço Negro, no sítio da Quinta dos Godinhos, onde actualmente existe um pontão enviesado em arco, de xisto; a Ribeira do Nodel, onde também resta um pontão em xisto, de arco perfeito; e a Ribeira de Pera, onde se ergue uma outra ponte centenária, também de arco perfeito e em granito trabalhado, construída na época dos Filipes de Espanha (1629), com quase 400 anos, junto à qual foi construída uma outra transversalmente, em betão armado, no ano de 1958, por onde se faz a actual circulação automóvel que liga a Freguesia da Graça à vila de Pedrógão.

Esta antiga via, também conhecida em Figueiró dos Vinhos por “Estrada do Marco”, passava pelas povoações da Portela e Couto (ambas elas aldeias do concelho de Figueiró dos Vinhos), Vale Mercador (já nos domínios de Pedrógão Grande), Carvalheira Grande, Altardo, Lameira Fundeira, norte da Mó Pequena (no local conhecido por Cabeço do Cura), Casalinho, Mó Grande, S. Vicente dos Pinheirais, dirigindo-se daí à Ponte de Pera, onde a atravessava, passando rente à Fábrica de Manuel Rodrigues & Herdeiros, seguindo pelo viso acima até entroncar na actual EN350, junto à cerca do Convento de Nª Sª da Luz (ou Pomar Venturoso), donde parte até alcançar o primeiro largo ao fundo da Vila de Pedrógão Grande.

Essa “Estrada Real”, de acordo com o levantamento que fizemos, a partir da Vila de Figueiró dos Vinhos atravessava a actual EN350 em Lameira Cimeira, Mó Pequena, Casalinho, Mó Grande e, seguidamente, no sítio da Ponte de Pera.

Ao longo do seu percurso é possível encontrar alguns nichos sagrados, vulgarmente conhecidos como “alminhas”, designadamente nas proximidades da Quinta do Godinho e nos limites do terreiro de São Vicente dos Pinheirais. Apesar de mais moderno, mas por ser seguramente o mais interessante, merece a pena referir o nicho incrustado no edifício da Fábrica de Manuel Rodrigues & Herdeiros, no sítio da Ponte de Pera, todo ele revestido a azulejos artisticamente pintados, onde sobressaem como motivos principais a Igreja Matriz, Santa Rita de Cássia e Nª Sª dos Milagres, padroeira de Pedrógão Grande.

No percurso dessa Estrada Real merece, sobretudo, visitar a Capela de São Vicente dos Pinheirais onde no seu interior se podem observar duas belas telas a óleo, de apreciáveis dimensões, sendo uma muito curiosa, porque alusiva à chegada a Lisboa das relíquias de S. Vicente, padroeiro da Capital e das suas gentes. Nas proximidades deste santuário, na subida que imediatamente se segue à Ponte de Pera, para quem da Vila para ali se dirige, ainda é possível visualizar o que resta de uma antiga calçada á portuguesa à base de grauvaque, uma variedade de xisto rijo e compacto.

Falar desta Estrada Real é sobretudo um pretexto para os pedroguenses e quem nos visita ir à descoberta de um vasto território que, a cada instante, a oriente da Serra da Lousã, nos deslumbra e reanima o corpo e a alma…

Mário Coelho Fernandes

Aires B. Henriques

 

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