Mário Coelho Fernandes / Aires B. Henriques: A bela foz da Ribeira de Pera como inestimável fonte de riqueza

 

17PENEDOEm finais de 2016, num dia de sol radiante, visando reviver alguns dos melhores momentos de que usufruímos enquanto frequentadores do Vale do Zêzere e do Cabril do Granada, deslocaram-se os autores deste texto de viatura todo-o-terreno até ao sítio do Penedo do Granada, a cujos pés a Ribeira de Pera encontra o Zêzere. Aí deixámos o jeep estacionado, num pequeno parque de apoio de onde se acede ao histórico Penedo. Avançámos a pé até à lápide ali instalada há mais de 20 anos pela Casa-Memória de Camões, em Constância, quando o primeiro signatário era Presidente da autarquia pedroguense.

Dado que Pedrógão Grande faz parte de uma possível Rota Camoniana – que tarda em se implementar -, e houve um particular cuidado na escolha da colocação dessa placa comemorativa da passagem do grande épico Luís de Camões pelo concelho, o caminho pedonal está bastante acessível. O mesmo não acontece com as letras da lápide, que ora estão bastante sujas e de leitura difícil, quase imperceptível.

Seguidamente deslocámo-nos até junto de um dos filões graníticos – o de maior possança ali existente – com o objectivo de alcançarmos uma das mais curiosas grutas situadas longo de toda a sua extensão. Conseguimo-lo, mas com um grau de dificuldade bastante acentuado, depois de termos que desbravar o terreno – com altas giestas, urzes, lentrisco e mato-queiró – e abater quantos mais repetidos obstáculos que, uma cuidada valorização do local, há muito justificam que tivessem já sido removidos, em prol do desenvolvimento local.

17PENEDO2Durante esse percurso para alcançar a gruta deparámo-nos com dois blocos graníticos que aí jaziam com, pelo menos, mais de uma tonelada cada um, que por força da gravidade e da erosão dos tempos – aparentemente não há muito – se haviam desprendido do respectivo local de jazida no filão. Verificámos isso porque, se os outros existentes em redor já possuíam avultado musgo e o sinal dos tempos, aqueles ainda não o revelavam, reforçado pela comparação da estrutura e cores dos diferentes fragmentos graníticos expostos e pela visualização do local de onde os mesmos se haviam desprendido, revelando nitidamente o formato e ajuste do encaixe desses blocos.

Fotografámos a referida gruta e voltámos ao local de origem, junto do jeep. Seguimos de seguida o caminho pedonal que aí se inicia – hoje assinalado como equivalendo à Grande Rota do Zêzere (GR33) – até atingirmos um recente passadiço metálico sobre a Ribeira de Pera. Atravessámos este com satisfação, tanto mais que o avaliámos como adequadamente concebido, tanto técnica como arquitectonicamente, da autoria do Engº A. Armindo Silva, técnico do Município de Pedrógão Grande. Apresenta-se com uma ancoragem perfeita, amarrada às grossas rochas de ambas as margens da Ribeira de Pera, constituída por uma estrutura de dois cabos de aço, que servem de sustentação a outros com menor diâmetro; sustentam ainda perfis metálicos longitudinalmente – as longarinas da ponte – às quais foram aparafusadas travessas de madeira (tratada e trabalhada) que enformam o tabuleiro desse passadiço.

Logo à sua saída, já com os pés na margem direita da Ribeira de Pera, encontrámos o Moinho da Pena, de características comunitárias, onde ainda são visíveis ambas as mós (fixa e móvel); assim como as suas paredes se mostram de pé, com a levada também visível, bem como o recinto de entrada de água para o cubo do rodísio. Nas redondezas ainda se visualizam algumas das pedras do antigo açude, bem como as ruínas que serviam de arrecadação e apoio aos moleiros e habituais frequentadores do local, designadamente para guarda dos burros e uma ou outra cabeça de gado que até aí os acompanhavam, para apascento e modesto contributo para a melhoria dos seus magros rendimentos agrícolas.

A partir daí, subimos a encosta da Pena-Mingacho e atingimos a estrada camarária, hoje classificada como Grande Rota turística do Rio Zêzere (GR33) mas que foi aberta há mais de 20 anos atrás pelo Município de Pedrógão Grande (durante mandato a que o autor Mário Fernandes presidia).

Confrontámo-nos de novo com aqueles dois possantes filões graníticos que, depois de transpôrem a Ribeira de Pera, cortam a toda a largura o caminho da GR33 e, logo mais à frente, do lado direito, por cima dela, deparámos com as ruínas de algumas estruturas em pedra que outrora serviram de habitação aos moradores da Pena, antes de – lá pelos anos 50-60 do Séc. XX – as abandonaram e irem viver para lugar menos ermo e mais seguro, na aldeia do Sobreiro. Há ainda quem recorde alguns desses modestos agricultores, conhecidos como o José, o António e a Joaquina da Pena.

Avançando para sul através dessa GR33, no sentido da Barragem da Bouçã, tivemos ainda a possibilidade de contemplar – lá mais acima, no topo dessa encosta da Pena/Mingacho – o maciço rochoso onde se ergue o Calhau Furado, um soberbo geo-monumento que aguarda quem, com melhores olhos e firme vontade, queira velar pela sua conservação e valorização turística; sendo que, para mais, a panorâmica que daí se usufrui é do melhor que a região beirã e o país indiscutivelmente nos proporciona, em termos de grandiosidade, cor e beleza.

Seguimos adiante até ao termo do Mingacho, de onde se avista (já do lado de Pedrógão Pequeno, na margem oposta do Zêzere) os sítios do Túnel (ou Furado) e do Moinho das Freiras, não sem que antes de regressarmos observássemos, junto a um canavial que bordeja a estrada (GR33), as ruínas de um antiquíssimo forno de fabrico de telha serrana (ou telha de canudo).

No definitivo regresso ao local de partida, não nos cansámos de rever – a partir de novos ângulos – os dois imponentes filões de granito que, partindo do Penedo do Granada, em paralelo, atravessam a Ribeira de Pera, possibilitando-nos em simultâneo contemplar o que resta  desses pesados blocos de granito, que outrora colapsaram a partir desses filões milenares; e que hoje – apesar da força das águas torrenciais – permanecem lá bem fundo, ao longo do seu leito.

E, ao transpormos de volta aquela singela ponte pedonal, tivemos ainda a possibilidade de avaliarmos mais pormenorizadamente da marcante beleza da vegetação, das águas e rápidos da Ribeira de Pera, sempre deslumbrante a montante como a jusante desse troço de travessia. Um espectáculo de cor e efeitos naturais digno de ser apreciado pelos mais exigentes amantes da natureza, mas que deveras tarda em ser divulgado com fonte de enriquecimento interior, inspiração e apoio ao desenvolvimento local. Um património verdadeiramente digno de nele se concentrarem os esforços autárquicos, dando a conhecer ao país e ao mundo um pouco mais do que de melhor temos em Pedrógão Grande para oferecer e usufruir: – a Foz da Ribeira de Pera e o Cabril do Granada, no Vale do Zêzere, com as suas caprichosas formas e geo-monumentos. Um paraíso de beleza e silêncio a visitar!…

 

 

Pedrógão Grande, em 6 de Janeiro de 2017

Mário Coelho Fernandes / Aires B. Henriques

 

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