Luís M. Cunha: O FLII (Festival Literário Internacional do Interior) e os seus propósitos

Este Festival Literário, criado logo após aos grandes incêndios de 2017 pela Arte-Via, Cooperativa Artística e Literária, sediada na Lousã, tem o mérito de procurar divulgar a literatura no interior.

Se nas suas duas primeiras edições, o Município de Pedrógão Grande marcou presença, nestes dois últimos anos, o mesmo já não se fez representar. Em 2020 coube à “Villa Isaura” e ao Museu da República e Maçonaria sediado em Troviscais Cimeiros, a sua realização, e neste ano de 2021, foi à Associação das Vitimas dos Incêndios de Pedrógão Grande, que coube essa tarefa.

Não querendo contestar os méritos do festival, tenho algum receio, que se não houver mais empenho por parte do Municípios, numa tentativa de promover os escritores que neles residem e que sobre os mesmo vão escrevendo (a sua História e a sua Cultura), este festival não passe de um encontro de alguns amigos, que se juntam, para ouvir falar de alguns escritores consagrados e da sua literatura, perdendo-se, do meu ponto de vista, uma excelente oportunidade para promover e criar intercâmbios entre os escritores dos vários concelhos envolvidos no FLII, no intuito de os divulgar, ao mesmo tempo criar sinergias entre os mesmo.

Com esse propósito, e porque estamos em ano de eleições autárquicas, pareceu-me apropriado, perguntar aos quatro candidatos já apresentados pela comunicação social a Presidentes, à Câmara Municipal de Pedrógão Grade, o que pensavam sobre o FLII.

Passo a transcrever as perguntas que enviei para os quatro candidatos.

  • O que pensa sobre este Festival e da sua importância ou não, que o mesmo pode vir a representar como divulgador da cultura desta região?
  • Atualmente a metodologia e os critérios empregues no festival, nomeadamente, a quase inexistência de escritores da região no mesmo, não será um dos fatores que leva à recusa por parte de algumas Autarquias a participarem no mesmo?
  • Será que este Festival, sendo do interior, não deveria servir para promover os escritores do desse mesmo Interior e difundir a sua escrita, mais que não fosse nos vários concelhos em que o mesmo atua, através do intercâmbio desse mesmos escritores nos debates literários que se vão realizando pelos vários concelhos no decorrer do Festival, até como forma de divulgação cultural e patrimonial de cada concelho que participa no FLII, independentemente de ter uma figura de Cartaz (Escritor de Créditos Reconhecidos)?

As resposta de cada um dos candidatos, é da sua inteira responsabilidade, o articulista simplesmente se limitou a colocar aqui o que cada um deles lhe enviou via e-mail.

Sendo o candidato pelo PSD, o Dr. António Lopes, aquele que primeiro se deu a conhecer ao eleitorado Pedroguense pela Comunicação Social, é com as respostas do mesmo que iremos iniciar, seguindo esse mesma cronologia.

«Boa tarde»

«Face às questões que coloca, agradeço que entenda que as respostas às mesmas não vinculam o grupo que me acompanha nas próximas eleições autárquicas considerando que o tema é objeto de reflexão e tomada de decisão de grupo, decisão definitiva a divulgar apenas em tempo de campanha, o que não é, presentemente, o caso».

«Então, com a devida ressalva, o meu entendimento sobre o assunto é o seguinte»:

Resposta à 1.ª Pergunta:

«Nascido após os incêndios de 2017 pela mão da cooperativa ARTE-VIVA da Lousã, o Festival Literário Internacional do Interior constitui um poderoso veículo de transmissão de cultura, nas suas vertentes da literatura, música, exposições, teatro, intervenção das escolas, por forma a reanimar a região e o seu povo».

«Pelas características que encerra, definição de tema e subtemas e dedicação a Escritores de Créditos Reconhecidos, este ano, pelos 50 anos da obra de Manuel Alegre, “Um barco para Ítaca”, Maria Teresa Horta, pelos 50 anos da sua obra “Minha Senhora de Mim”, e pelo centenário de Carlos de Oliveira, é um Festival de importância sobejamente reconhecida precisamente pela envolvência alcançada pela participação dos Municípios e outros parceiros, atores de desenvolvimento local».

«Assim é a sua conceção, o divulgar, o tornar acessível a cultura em vários contextos junto das populações dos municípios afetados pelos incêndios de 2017. Competirá à organização do evento, a decisão da possibilidade de acomodar espaços, enquadrados nos temas e subtemas, destinados à divulgação da cultura local».  

Resposta à 2.ª Pergunta:

«Atendendo ao período de pandemia que vivemos e, ainda assim, à participação contínua de alguns Municípios, não me parece ser essa a razão da não participação».

Resposta à 3.ª Pergunta;

«Esta questão deverá, a meu ver, ser colocada à organização do evento para reflexão. No entanto acredito que cada Município, o  veja dessa forma, caso a organização do evento assim o decida, seja de uma forma autónoma e também com o enquadramento da CIM, deverá criar as condições para divulgar a sua cultura e património».

«Com os melhores cumprimentos»,

«António Lopes»

Reposta do candidato pelo CDS, o Arq. Pedro Fernandes:

«Boa tarde caro amigo Luís Cunha».

«Agradeço o convite que me foi dirigido e é com gosto que procurarei responder de forma satisfatória às perguntas que me são colocadas».

Resposta à 1.ª Pergunta:

«Como Festival Literário Internacional do Interior, que a meu ver deve ter uma elevada importância a nível cultural para esse mesmo interior, será de todo o interesse a participação do Municípios, como divulgador da sua cultura».

Resposta à 2.ª Pergunta:

«Penso que nesse campo algo pode ser feito, para que haja uma maior e efetiva participação dos Municípios, quer seja na sua envolvência, que seja na envolvência dos escritores residentes, ou não nesses Municípios. Mas isso terá ser sempre concertado da a entidade responsável pelo FLII, ou seja pela ARTE-VIA».

Resposta à 3.ª Pergunta:

«O Festival poderia ser um excelente veiculo de divulgação do que se vai escrevendo neste interior, quer dando a conhecer não só os atuais escritores, que necessitam de ser divulgados, bem como todos aqueles que foram escrevendo sobre este território e entretanto já faleceram. Tudo isso, através de um intercâmbio nos debates que se vão realizando ao longo do FLII nos vários concelhos aderentes».

«Com os melhores cumprimentos»

«Pedro Fernandes»

Reposta do candidato pelo PS, o Eng. Nelson Fernandes:

«Bom dia Ilustre amigo Luís Cunha»,

«Seguem as minhas respostas às questões colocadas».

Resposta à 1.ª Pergunta:

«O Festival Literário Internacional do Interior é para mim uma oportunidade de divulgar a nossa Cultura, garantindo por exemplo que os nossos costumes e tradições não caiam no esquecimento, apesar de tão poucas pessoas resistirem no interior. É assim para mim de extrema importância, pois permite que as camadas mais jovens recebam o conhecimento dos nossos antepassados e também permite que todos os autores da região se conheçam entre si. A Região ganha assim uma oportunidade de ser reconhecida não só pelo Turismo e natureza, mas também pela Cultura que sempre foi o fator mais importante no desenvolvimento das regiões».

Resposta à 2.ª Pergunta:

«Creio que a metodologia poderá ser melhorada no sentido de incentivar a maior participação de escritores locais, dando um contributo aos mesmos, havendo assim justificação no apoio por parte da Autarquia, ou seja, a promoção da Cultura local e regional».

«No meu entender deverá ser criado um grupo de trabalho, composto por entidades conhecedoras da causa e que podem contribuir para corrigir as falhas que possam existir no momento».

Resposta à 3.ª Pergunta:

«Concordo plenamente com o ponto de vista da questão. A divulgação da Cultura local e dos escritores locais será o principal o objetivo, mas tal não é possível sem o intercâmbio com outras entidades de outras regiões para que continue a haver troca do conhecimento cultural local e regional».

«Cumprimentos»

«Nelson Fernandes»

Por último, as reposta do candidato independente pela CDU, o Dr. Aires B. Henriques.

«Estimado Luís»,

Resposta à 1.ª Pergunta:

«Num concelho em que são raras as manifestações culturais, um Festival Literário como o FLII – para mais dito Internacional e do Interior – assume a maior importância para a ocupação e formação  dos espíritos, bem como para o  fomento do diálogo  entre as várias comunidades de participantes, numa perspectiva intergeracional e intercomunitária de vários e distintos saberes, realidade e estados de alma, permitindo que todos os autores intervenientes e concelhos vizinhos se conheçam melhor, estabeleçam fortes vínculos de experiência, saber e partilha e, em conjunto, ajudem a uma melhor promoção da Região de que fazem parte, tornando-a mais conhecida, apetecida e respeitada».

Resposta à 2.ª Pergunta:

«Não estou tão certo que os escritores da região sejam quase inexistentes, porquanto o necessário inventário está por fazer, e aí teremos que incluir os nela nascidos, mas também os residentes e todos aqueles outros que ao longo dos tempos com ela foram estabelecendo afinidades e amizade com os seus naturais, com eles comungando das suas preocupações e interesses, e sobre todos escrevendo e debitando os seus estados de alma ou diligenciando na divulgação da Região, quer pela via do livro quer da imprensa regional escrita. Cabe às Autarquias locais um forte papel nessa inventariação e na criação dos mecanismos capazes de potenciar esses autores, divulgá-los apropriadamente e capacitá-los para novos desafios. Infelizmente, a impreparação e insensibilidade de muitos dirigentes autárquicos, não permite que se vá longe e que, por exemplo, não se criem incentivos aos jovens e novos autores que esperam uma oportunidade para melhor se revelarem. A agravar tal estado de coisas, a última edição desse FLII em Pedrógão Grande traduziu-se pela sua organização por uma entidade – a Associação das Vítimas – claramente não vocacionada para o assunto, quando as suas preocupações de momento eram outras, mais viradas para as comemorações e o amparo espiritual das famílias das vítimas dos fogos de 2017. Para mais, a sua impreparação, permitiu desde logo que uma força partidária local (o PSD) tentasse tirar partido dessa sua inexperiência, quando em boa verdade essa força deveria preferencialmente clamar pela criação por parte da Autarquia local de uma estrutura forte de apoio a tais festivais. Deveria inclusive – isso sim – chamar a atenção para a inexistência de um Conselho local da Cultura e de um gabinete de assessoria nesse âmbito, como o fazem outras congéneres com responsabilidades autárquicas por esse país fora. Em muitos casos, tal papel é assegurado em regime de voluntariado pelos próprios autores ou professores da região. É uma forma de descentralização do poder, de independência e fomento da participação da comunidade cívica e escolar local, melhor conhecedora e empenhada nos aspectos da Cultura, da Literatura e das Artes da região. Por receio ou impreparação, a Câmara Municipal de Pedrógão Grande nunca o fez, chegando mesmo por diversas vezes por rejeitar as ofertas ou recomendações que lhe dirigiam nesse sentido, impedindo claramente de colocar a Cultura ao serviço do desenvolvimento da região e da criação de uma melhor imagem dos saberes e potencialidades dos seus concidadãos…»

Resposta à 3.ª Pergunta;

«A escolha de figuras nacionais é meritória, mas tal não deve servir para que se ignorem as locais quando, em boa verdade, a Região de Pedrógão, do Vale do Zêzere e do Pinhal Interior tem outras que com elas rivalizam. Lembramo-nos, em concreto, do pedroguense Roberto Pedroso das Neves e dos seus poemas em “Assim Cantava um Cidadão do Mundo”, e do goiense Francisco Barata Dias, com o seu “Alqueive” e outros romances que marcam o seu enorme talento e amor ao seu povo; sem esquecermos outros autores ainda como Hermano Neves, de Alvares (Góis),  Tomaz da Fonseca, de Mortágua, de Avelino Cunhal, de Seia, Casimiro Freire, de Pedrógão Pequeno, J. J. da Silva Graça, de Pedrógão Grande, e tantos outros que um Festival Literário do Portugal Interior tem a estrita obrigação de recordar e enaltecer, como preito de homenagem e incentivo às gerações mais recentes. Para mais, deverá às Autarquias locais caber o papel de divulgação das suas obras, pela sua reedição e promoção de encontros, palestras e debates sobre esses honrados e insignes filhos do Interior. Na maior parte dos casos, como é o caso de Pedrógão Grande, sempre faltou conhecimento aos autarcas locais para que o pudessem fazer, ainda que alguns tenham passado pela Universidade. Assim hoje  apodrece um forno romano ao fundo da Vila e o seu Centro Histórico, genuinamente medieval, foi sendo vandalizado após 1974, sem que os insistentes alertas fossem ouvidos e as destruições acauteladas. É para isso que servem os autores e os livros e, por maioria de razão, os Festivais de Arte e Literatura, como era expectável que o FLII o fosse.  Mas, aparentemente, de pouco serviu o Festival  em Pedrógão Grande, que – conforme ao lema do certame não aproveitou a Arte e a Cultura para promover à discussão dos seus problemas e ao desenvolvimento de que cada vez mais carece. Também não vimos que os laços interculturais com os concelhos vizinhos e da Região se firmassem, impedindo novos elos e contributos de parte a parte. Basta lembrarmo-nos que as autarquias de Pedrógão Pequeno e da Sertã, aqui bem ao lado, ficaram ignoradas, sabido embora da sua potencialmente valiosa importância para o desenvolvimento do território comum do Cabril e Vale do Zêzere. Perdeu-se uma oportunidade de recolher  contributos e de dar a conhecer a região, à semelhança do que, lamentavelmente, em outras ocasiões, temos vindo a  assistir nos últimos anos. De futuro, terá de caber à Autarquia pedroguense um claro papel de apoiante e incentivador deste tipo de Festivais de Cultura, Literatura e Arte, patrocinando generosamente os escritores e os artistas que um Conselho Cultural local, com saber e critério, possa vir a propor, numa perspectiva de engrandecimento concelhio».

«Um forte abraço»

«Aires Henriques»

Pedrógão Grande 24 de junho de 2021

Luís M. Cunha

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