Luís M. Cunha: Foi no mês de Março que começou “A Guerra Fantástica”

Conde de Lippe

No dia 20 de março de 1762, o Governo português, pela voz de D. Luís da Cunha Manuel, então Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, recusa a oferta de cooperação de dois países na defesa dos domínios ultramarinos portugueses, rejeitando desta forma a adesão ao chamado “Pacto de Família”, levando a que Portugal entrasse na (Guerra Fantástica) “Guerra dos Sete Anos”.

Tanto Portugal quanto a Espanha, tinham-se mantido neutrais na guerra que havia sido declarada oficialmente em 1756. Durante o reinado de Fernando VI de Espanha, aquele país tinha mantido boas relações com os britânicos, e desse modo, não se juntou ao seu tradicional aliado, a França, contra os ingleses nesse mesmo conflito. Todavia, assim que Carlos III de Espanha subiu ao poder, o cenário mudou, o governo empreendeu uma nova política, mais pró-francesa e, em finais de 1761 os dois estados entraram em conflito.

No dia 16 de março de 1762, os embaixadores de França e Espanha entregaram ao Governo português, liderado pelo então conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo, uma “pró-memória” (minuta que aviva um assunto em determinada circunstância), exigindo que Portugal aderisse ao “Pacto de Família dos Bourbons”, criado um ano antes (1761), e excluísse dos seus portos os navios britânicos, e seus aliados, em troca de proteção dos seus domínios ultramarinos.

Com a recusa por parte do Governo português a 20 de março, em 1 de abril desse mesmo ano (1762), os embaixadores de França e Espanha voltam à carga, e entregam um novo “pró-memória”, exigindo ao Governo português a participação de Portugal na guerra contra a Grã-Bretanha, informando que as tropas espanholas invadirão o território português, caso este país, não impeça a utilização dos seus portos por parte de navios britânicos.

No dia 5 desse mesmo mês, o governo de Sebastião José de Carvalho e Melo recusa colaborar com aqueles dois países na guerra contra a Grã-Bretanha, e onze dias depois, a 16 de abril, tendo em conta que o Exército Português estava reduzido a metade dos seus efetivos regulamentares desde 1754, manda aumentar os efetivos dos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia. Preparando o Exército, para o que aí poderia vir.

Mas os embaixadores de Espanha e França não desistem na sua tentativa de levar Portugal a partilhar dos interesses dos países que representam, e no dia 23 de abril, entregam um terceiro “pró-memória” num estilo de ultimato, exigindo o fecho dos portos portugueses a britânicos e seus aliados. Com Portugal a responder negativamente ao ultimato no dia 25, torna na prática, a inevitabilidade da guerra.

Dois dias depois (27 de abril), os embaixadores de Espanha e França abandonam Portugal. Com a Espanha a ter já um plano de invasão de forma a chegar a Lisboa, começando nesse plano, por tomar a praça-forte de Almeida e, em seguida, avançar pelo Alentejo sobre Lisboa. Todavia, com a nomeação do marquês de Sarriá, general Nicólas de Carvajal y Lancaster (descendente de Jorge de Lancastre, filho natural do rei de D. João II de Portugal), como comandante-em-chefe das tropas espanholas, esse plano é alterado.

A decisão do marquês de Sarriá de alterar o plano inicial, tinha como propósito inicial, começar por desferir um duro golpe aos interesses britânicos em Portugal, e por isso, decidiu começar a invasão pela região norte, tendo o Porto como objetivo, uma vez que os ingleses detinham grandes interesses naquela cidade .

Este novo plano do marquês de Sarriá, também agradou a Isabel Fernésio, Rainha mãe de Espanha, que ainda detinha muito poder por trás do trono espanhol, e desejava poupar a posição de sua filha, Maria Vitória, casada com o soberano português D. José I. A Rainha não via com bons olhos nenhuma vantagem em hostilizar Portugal indevidamente e, caso a capital do país não fosse atacada, a reação, certamente que não seria tão forte.

Mas a demora em reunir as suas tropas em Zamora e a iniciar as hostilidades, deu tempo aos britânicos (aliados de Portugal), de trazerem uma força expedicionária para apoio ao fraco exército português. No dia 30 de abril de 1762, o marquês de Sarriá, divulga um comunicado junto às comunidades portuguesa fronteiriças, onde afirma que a invasão de Portugal tinha como objetivo o beneficio dos mesmos, e a entrada das forças espanholas em território português dá-se só 5 de Maio, penetrando pela fronteira de Trás-os-Montes com direção a Miranda do Douro. Mas já no dia seguinte, a 6 de maio, forças britânicas, sobre o comando do general George Townshend (futuro visconde e marquês de Townshend), desembarcam em Lisboa, com o intuito de auxilio ao Exército português.

 

No dia 8 desse mesmo mês, já no decorrer do cerco a Miranda do Douro, uma violenta explosão num dos paióis da cidade, em resultado dos bombardeamentos do Exército espanhol, provoca a morte a cerca de 400 pessoas, levando à rendição daquela praça, que nesse mesmo dia é ocupada pelas forças espanholas. No dia 16, a cidade de Bragança segue o mesmo destino de Miranda do Douro, e é ocupada pelo Exército espanhol. Dois dias depois (18 de maio), perante a consumação da invasão, Portugal declara guerra à Espanha e à França.

No dia 21 de maio, no seguimento da invasão a Portugal, o as forças espanholas ocupam a cidade de Chaves, e a 3 de julho, por indicação britânica, chega a Lisboa o conde de Lippe, Guilherme de Shaumburgo-Lippe, com o objetivo de comandar o exército luso-britânico, que no dia 10 desse mesmo mesmo mês é nomeado marechal-general do exército luso-britânico. No dia 20 desse mês de julho, aumenta a internacionalização do conflito, com a França a declarar guerra a Portugal.

A tentativa da tomada da cidade do Porto por parte do marquês de Sarriá, esbarra nos focos de guerrilha entretanto organizados do lado português – sobretudo quando tentaram cruzar o Rio Douro e atravessar as montanhas de Montalegre – sendo forçados a retirar para Espanha, abandonando todas as praças anteriormente conquistadas, com exceção de Chaves., sendo o comando das forças espanholas substituído pelo conde de Aranda.

A 25 de agosto de 1762, já sob o comando do conde de Aranda, abre-se uma nova frente com a entrada de forças espanholas pela fronteira das Beiras, tomando a praça de Almeida. Em resposta, forma-se um exército anglo-português, com cerca de 15 mil homens, sob o comando do conde Lippe, e posicionam-se nas colinas a nordeste de Abrantes, onde foram construidas várias obras de defesa. Bem como, aliados a camponeses da Beira Baixa puseram em prática a tática da “Terra Queimada”, juntamente com ações de guerrilha na retaguarda do exército invasor, que viram a sua linha de comunicação com Espanha praticamente cortada.

Com as fileiras do Exército franco-espanhol a serem dizimadas pela fome, deserção e guerrilhas, o seu comandante viu-se forçado a escolher entre ficar e morrer de fome ou retirar-se. O conde de Lippe, apercebendo-se da situação desesperada do inimigo, completou-a com um movimento audacioso que acaba por decidir esta guerra, enviando uma força de soldados portugueses comandada por George Townshend, deslocando-se em movimento de cerco em direção ao diminuto e desmoralizado Exército franco-espanhol. Acabando este por se retirar para mais perto da fronteira.

Em 5 de outubro, as tropas espanholas comandadas por D. Pedro de Cevallos, comandante das forças espanholas em Buenos Aires, invadem a Colónia de Sacramento, povoação sob o domínio português na margem esquerda do estuário do rio da Prata. Quatro dias depois a Colónia do Sacramento rende-se e é ocupada por forças espanholas.

A 3 de novembro desse mesmo ano de 1762, é assinado em Fontainebleau um tratado provisório de paz, entre os reinos de Portugal, Grã-Bretanha, França e Espanha, e no dia 1 de dezembro é assinado o armistício entre os exércitos luso-britânico, comandado pelo conde de Lippe e o franco-espanhol, comandado pelo general Pedro Pablo Abarca de Bolea, conde de Aranda.

A 10 de fevereiro de 1763, é assinado em Paris, o “Tratado de Paz de Paris”, pela qual a Espanha restitui a Portugal as praças de Chaves e Almeida e a Colónia de Sacramento. A 25 de março desse mesmo ano, é proclamada em Lisboa, a paz entre os Reinos de Portugal, Espanha e França.

Este episódio ficou conhecido na nossa historiografia por “Guerra Fantástica” porque, apesar da humilhante derrota infligida aos invasores, os recontros mais importantes não foram batalhas convencionais mas ações de guerrilha conduzidas pelas milícias locais, tendo o resultado desta guerra ficado decidido por uma série de sucessivas e brilhantes movimentações de tropas sob o comando do conde de Lippe, um dos mais brilhantes soldados estrategas do seu tempo.

Texto do futuro livro “366 dias de História”.

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