Luís Cunha: O Património Histórico da Vila de Pedrógão Grande – A sua Igreja Matriz

 

As fontes dizem-nos que este “Templo” classificado como Monumento Nacional desde 1922, foi edificado entre os finais do terceiro e durante o último quarto do Século XII.

É uma Igreja Salão de três naves, de traça Românica, que foi anexada ao Cabido de Coimbra no ano de 1295, pelo Bispo D. Emerico.

Ao longo dos Séculos da sua existência, foi sofrendo algumas alterações à sua arquitetura original, que de algum modo lhe foram alteram a sua traça original.

A abóbada do seu Altar-Mor, poderíamos classifica-la com sendo pétro-Manuelina ou Renascentista-precoce, as rosetas e as nervuras que a sustentam e vão assentar em quatro estribos situados nos cantos, bem como os frescos – a necessitar urgentemente de uma intervenção mas ainda visíveis – são indícios que nos poderiam levar a dizer que, este edifício tinha sofrido uma intervenção durante a última metade do Século XV, já que foi nesse período que apareceu este tipo de Arquitetura. Tal como a sua Torre-Sineira, com vinte e cinco metros de altura tendo uma cobertura em forma de capacete que, também ela nos poderia induzir em erro e levarmo-nos a dizer que a mesma teria sido construída durante a última metade do mesmo Século XV, uma vez que, foi nesse período do início do Renascentismo que apareceu este tipo de coberturas, introduzidas pelo famoso Arquiteto Italiano e percursor do Renascentismo Filippo Brunelleschi no ano de 1434 (nascido Filippo di ser Brunellesco Lapi; em Florença, Itália no ano de 1377).

Mas os documentos existentes, (Atas da Câmara Municipal de Pedrógão Grande vol. 1. 1553) dizem-nos, que o arquiteto Jorge de Brás reconstrói a capela do Altar-Mor, Sacristias e Corpo da Igreja nos anos de 1537 a 1539, sendo o seu custo, suportado pelo Cabido da Sé de Coimbra e pelo povo de Pedrógão Grande. Já o Arquiteto Baltazar de Magalhães é o responsável pela construção da Torre-Sineira, reunindo-se este Arquiteto a 5 de Outubro de 1553 à porta da Igreja, com os Juízes Guilherme Arnão e Diogo Mexia e ainda o Vereador Baltazar Queirós com o objetivo de acordarem nalgumas partes referentes à obra, concretamente à abertura dos arcos sineiros da Torre.

Como apontamento, à parte do que me leva a escrever este artigo sobre a Igreja Matriz de Pedrógão Grande, poderemos dizer que, Portugal andava quase um Século atrasado em relação às tendências arquitetónicas que se praticava lá fora, nomeadamente, na Itália, França, Alemanha e etc., porque, nesta altura, as coberturas utilizadas nas torres, já não eram em forma de “Capacete” mas integradas no corpo da “Torre”.

Mas seguindo a discrição deste belíssimo Monumento Pedroguense, a construção da “Torre-Sineira” faz desaparecer a maioria das carateristicas Românicas da fachada primitiva, se bem que, do meu ponto de vista, o arco e as colunas da porta princípal continua a ser da sua traça original; as carateristicas que apresenta esta entrada principal para o templo, uma entrada com um arco de volta perfeita e colunas (ombreiras) trabalhadas são referências nitidamente Românicas. Já os contrafortes laterais, bem como as duas pequenas janelas que se encontram nessas mesmas laterais, não nos deixam qualquer duvida e são dos primórdios da sua construção.

No ano seguinte à reunião com o Arquiteto Baltazar de Magalhães, ou seja, no ano de 1554, é acordado com o escultor João de Ruão, a construção de um Retábulo para a Capela-Mor pela quantia de oitenta mil reais. Esta quantia é superior à que outros escultores pediam, mas como a obra seria feita pelo próprio João de Ruão e não por um dos seus colaboradores (aprendizes), o Cabido de Coimbra optou por este escultor.

O contrato foi feito a 19 de maio de 1554, tendo-se acordado dividir o pagamento em três prestações: a primeira a 5 de Julho desse mesmo ano no valor de 30 mil reais; a segunda a 1 de Abril do seguinte com um valor de 25 mil reais e a última a 23 de de Maio de 1555 de igual valor, 25 mil reais.

O retabulo teria ao centro em baixo, o sacrário e na parte superior a titular da Igreja, Nossa Senhora da Assunção. Lateralmente se colocariam as imagens de S. João Evangelista, S. Pedro, S. João Batista e S. Paulo. A pitura deste retabulo só foi efetuada 34 anos depois, de ter sido pago a última tranche ao escultor.

A sua pintura foi efetuada pelo pintor coimbrão Manuel Pais. O contrato também contenplou a pintura dos frescos da abóbada do Altar-Mor. (Como apontamento, este contrato encontra-se na posse da Câmara Municipal de Pedrógão Grande).

Do retabulo só restam alguma peças, mas, na minha mudesta opinião,  com as peças que são visiveis na Igreija – S. Paulo, S. Pedro, S. João Batista e S. João Evangelista – e as que se encontram guardadas, ainda seria possível reconstruir-se este retábulo, e  coloca-lo no seu lugar original. Desse modo, não se deixaria perder para sempre uma peça tão valiosa, que, certamente iria engrandecer e ao mesmo tempo embelezar ainda mais, a já de si belíssima Igreja Matriz de Pedrógão Grande.

No século XVIII e por provisão de 16 de Maio de 1736 do Rei D. João V, foi lançada a contribuição de 300 mil réis para a reparação da Torre-Sineira, tendo-se também nessa mesma altura mandado refundir os sinos o; – Bento e Balão – acrescentado-se a cada um deles nove arrobas de metal. Há uma lenda que corre de boca em boca no povo da Vila de Pedrógão que, durante a refundição dos sinos acima referidos, alguns homens bons da Vila, teriam ali colocado algumas moedas de ouro e por isso, o toque destes sinos há a sençassão do toque repitado, efeito da liga de ouro no metal dos sinos. Digasse em abono da verdade que, até à data, ainda não apareceu nenhum documento a atestar esta este dito.

Já no século XX, durante o decorrer da decada de vinte é construida a escada exterior que dá acesso à Torre-Sineira, uma vez que até essa altura o seu acesso era feito pelo interior através de uma escada de madeira. Há ainda moradores na Vila que ainda se lembram da existencia desta escada.  Em 22 de Julho de 1914, foram efetuadas novas obras de restauro e demolida a capela anexa à Torre-Sineira. Três anos mais tarde é feito novo orçamento para a continuação das obras de restauro e consolidação, importando em 339 500 escudos. Finalmente em 4 de Agosto de 1982 foi celebrado outro contrato para novas de restauro e conservação no valor de 1.502.150 escudos.

O interior, apesar das modificações intrudizidas, apresenta-se bastante escuro, sendo esta particularidade uma das caracteristicas do Românico. Transpor a porta principal, impressiona a dimensão do Monumento, com as suas três naves sustentadas por dez colunas de fusto cilindrico encimadas por Capitéis Jónicos. Na nave central, mais alta que as laterais, vislunbram-se de ambos os lados quatro pequenas janelas, situadas na parede por cima dos arcos.

Na nave lateral esquerda é possível ainda verificar a existência de três pequenas janelas da construção primitiva, duas das quais se encontram tapadas, sendo apenas visíveis do interior. Numa delas, são visíveis alguns azulejos espano-arabes do século XVI, digasse, muito mal tratados, fruto de alguma incuria nas ultimas intrevenções de restauro que este templo sofreu, a exemplo do belíssimo guarda vento em madeira que existia na sua entrada principal, que foi retirado, não se sabendo porquê? nem mesmo onde possa estar, bem como, os materias utilizados para a limpeza dos belos granitos que ornamentam a entrada principal do Templo, onde é visível a sua degradação, certamente resultante da aplicação de produtos químicos não compativeis com este tipo de “granito gnaisse”. (A recrer uma intrevenção urgentíssima)

No pavimento do templo são visíveis 11 pedras sepulcrais. A ascenção social de algumas famílias que emergem em Pedrógão Grande, principalmente no decorrer dos séculos XV, XVI e XVII, é testemunhado com as pedras sepulcrais existentes no interior da Igreja Matriz e das duas capelas aí construidas.

Na nave central e da esquerda para a direita, podem contar-se sete sepulturas: A segunda e a quinta são em granito e não têm qualquer indicação epigráfica. A última encontra-se bastante gasta tendo apenas visível as letras gravadas: “Roco“. As sepulturas com campo epigráfico, são em calcário, lendo-se na primeira encimada por um brasão: “Aqui jaz Joanes (João) Nogueira de Magalhães, tesoureiro mor que foi da sé de Leiria. Faleceu a 2 de dezembro de 1633 às 10 horas da noite“. Na terceira : “Sepultura perpétua do Reverendo Padre Manuel Calvo Leitão de Magalhães, Secretário que foi do Santo Ofício na cidade de Évora. Faleceu a 4 de Fevereiro de 1652 e dos seu Herdeiros“. A quarta sepultura é encimada por um brasão e lê-se: Sepultura perpétua de Pero ?(Pedro) Carvalho de Andrada Leitão e de seus Herdeiros. Faleceu a 29 de Junho de 1642“.

Na nave lateral direita, existe uma capela mandada erigir por Luiza das Neves e junto ao seu altar existem três sepulturas em calcário, na primeira lê-se: “Sepultura perpétua dos Administradores da Capela Martim Miguéis e de seus Herdeiros e parentes em primeiro grau“. Na segunda sepultura lê-se: “Sepultura perpétua. Aqui jaz o corpo de João de Almeida Abreu e sua mulher Sebastiana Ribeiro de Almeida Andrade, seu filho mandou fazer esta lembrança para si e seus sucessores e Herdeiros. Ano do Senhor de 1676“. Na terceira sepultura lê-se: Sepultura perpétua de Simão Dias de Alvares e de sua mulher Luiza das Neves e para si seus sucessores e Herdeiros“.

Na nave lateral esquerda, junto à Belíssima Capela do Santíssimo há uma sepultura em granito onde ainda é visível o Brasão da família ai sepultada, não sendo possível decifrar alguma epigrafia que ainda é precetivél na pedra sepulcral.

As paredes do altar-mor estão furradas a azulejos do século XVIII, provavelmente, foram aplicados durante as obras realizadas neste período.

Como Monumento icónico do concelho de Pedrógão Grande a necessitar de uma intrevenção urgente, face à visível degradação que o mesmo apresenta; umas delas por desgate do próprio tempo, outras, por incuria do homem: não só pela utilização de alguns materias menos adequados, em algumas das intrevenções  de restauro que foram feitas, como também, na forma como este Monumento é tratado por todos nós (comunidade), o certo é que, o seu estado de preservação merece a nossa preocupação. Deixo um apelo à Edilidade Pedroguense, para que a mesma se empenhe numa rapiada intervenção no sentido da conservação deste Monumento Nacional.

 

24 de Janeiro de 2019

Luís M. Cunha

 

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