Luís Cunha: Momento com a História.

No dia 13 de junho de 1589, o Corsário inglês Francis Drake, falha a sua tentativa de assalto a Lisboa. Apesar de associarmos — muito por culpa de Hollywood — os piratas às Caraíbas e às Américas, Portugal também teve a sua dose de piratas e corsários, mesmo que nem todos hasteassem bandeiras negras com caveiras.

 

O britânico Francis Drake, um dos mais perigosos corsários marítimos de sempre, em junho de 1583, efetuou uma tentativa de assalto à cidade de Lisboa. Portugal, país com uma extensa costa, foi durante décadas, saqueado por piratas africanos. Luís Ribeiro diz em “Era Uma Vez Lisboa”, «que a conquista de Ceuta, em 1415, que marca o início dos descobrimentos, também tinha como objetivo esmagar os piratas marroquinos».

 

Nos séculos seguintes, os grandes inimigos seriam os corsários europeus, que, apesar de estarem ao serviço das outras monarquias, não conseguiam ser bem domados e tinham iniciativa própria. Havia tantos ataques que em 1562 saiu uma ordem real que dizia que as pessoas que vivessem a 13 ou menos quilómetros do mar tinham de ter treino para aprenderem a usar armas.

 

O corsário britânico Francis Drake, era protegido da rainha de Inglaterra, Elizabeth I (alguns historiadores apontam-no como sendo filho bastardo desta Rainha, presumivelmente de uma relação não consentida com Tomas Seymour, marido de Catherine Parr, viúva e ultima esposa de Henrique VIII, seu pai), e atormentava os mares ibéricos — numa época em que Portugal tinha perdido a independência e partilhava o mesmo rei, Filipe I, com Espanha.

 

Francis Drake, para além de corsário, era capitão inglês e vice-almirante do Reino da Inglaterra, e um político da era elizabetana. Elizabeth I da Inglaterra condecorou-o como cavaleiro em 1581, sendo mesmo o segundo no comando da frota inglesa contra a ”Invencível Armada” em 1588, subordinado apenas a Charles Howard e à própria rainha. Suas façanhas, tornaram-no num herói para os ingleses, mas num pirata para os espanhóis, conhecido como ”El Draque”. O rei Filipe II chegou a oferecer uma recompensa de 20 mil ducados pela sua cabeça, que na atualidade representaria próximo dos 6 milhões de euros.

 

A 18 de abril de 1589, dez meses após a vitória sobre a “Invencível Armada”, o célebre corsário e almirante inglês Francis Drake partiu do porto de Plymouth rumo à península Ibérica. A bordo do galeão de nome apropriado “Revenge”, comandava uma frota de mais 150 navios. Na restante armada seguia abordo a pequena corte portuguesa no exílio desde 1581: D. António, Prior do Crato, pretendente ao trono português, o seu filho D. Manuel de Portugal e mais de 70 dos seus partidários, numa tentativa de atacar a cidade de Lisboa. Talvez até tivesse uma boa intenção — era um ataque conjugado com D. António, Prior do Crato, que pretendia libertar o País dos espanhóis e torná-lo outra vez independente. Esta tentativa de assalto a Lisboa, estava inserida nas operações da guerra anglo-espanhola de 1585-1604, e visava aproveitar a vantagem estratégica obtida com a derrota da “Invencível Armada” enviada por Filipe II de Espanha contra a Inglaterra no ano anterior.

Pelas 10 horas da manhã de sexta-feira 26 de maio de 1589, a vila de Peniche foi surpreendida por uma esquadra de mais de 150 navios manobrando ao largo. Perto das 16:00 horas as tropas inglesas iniciam o desembarque de um contingente de 6 500 homens no areal de Nossa Senhora da Consolação, a Sul da península.

 

Em Peniche, o alcaide da fortaleza e muitos habitantes fugiram em pânico mal souberam da presença de Drake. Mas, à vista de D. António que desembarcara com uma cruz levantada e uma “insígnia” da Virgem Maria, o capitão entregou a fortaleza apesar desta se encontrar bem provida de artilharia e munições. O pretendente ao trono não perdeu tempo e distribuí uma carta-manifesto na qual convocou o povo a recebê-lo enquanto libertador, assim como às tropas inglesas e à armada que o apoiavam. Nos dias seguintes, D. António e o seu filho distribuíram aos portugueses armas e munições capturadas na esperança de os acompanharem até à rendição de Lisboa.

 

Terça-feira, dia 30 de maio, a baía de Cascais é enquadrada pela armada liderada por Sir Francis Drake. Após um rápido desembarque defronte do Mosteiro de Santo António (atuais Salesianos do Estoril), 300 soldados ingleses assumiram a vanguarda de um contingente de 1.500 homens que cercou e tomou a fortaleza de Cascais, apoiados pela artilharia da armada. Simultaneamente, um piloto português desembarcado do Revenge, navio de Drake, convenceu a população local a acolher os invasores e apoiar D. António Prior do Crato, na sua luta pelo trono português. O alcaide espanhol da fortaleza de Cascais rendeu-se devido às notícias comunicadas pelo seu capelão (padre do mosteiro de Santo António). O desafortunado alcaide espanhol retirou-se num barco a remos e a sua guarnição abandonou a fortaleza, apenas para mais tarde ser sentenciado à morte por traição e executado em praça pública na Ribeira de Lisboa.

 

No Tejo, as defesas a ultrapassar pela armada de Drake, consistiam na esquadra de 12 galés de D. Alonso de Bázán (irmão do falecido Marquês de Santa Cruz, idealizador da “Invencível” Armada de 1588), a fortaleza de São Julião da Barra substancialmente ampliada e a plataforma de artilharia erguida no areal da Cabeça Seca (Bugio).

 

Na manhã de 1 de junho, dia de Corpo de Deus, Lisboa não celebrou a habitual procissão do Santíssimo Sacramento. Concentrando forças e precavendo-se de uma eventual sublevação popular, o exército espanhol coordenado pelo Vice-Rei Alberto de Áustria e comandado pelo Capitão-geral conde de Fuentes recolheu para o interior dos muros da capital, distribuindo dezenas de companhias de infantaria pelas praças de armas improvisadas em Nossa Senhora da Graça, no Terreiro do Paço e no Rossio, assim como ao longo da muralha fernandina e entulhando as diversas portas e postigos.

A cavalaria portuguesa, liderada por D. Francisco Mascarenhas, conde de Vila da Horta, foi encarregue de patrulhar as ruas da cidade, prevenindo qualquer alteração da ordem. O reforço da defesa da capital foi considerável: na véspera do desembarque inglês em Peniche, Lisboa contava com 6.680 soldados, já durante o ataque às muralhas da cidade, os efetivos atingiram perto de 12.000 homens (dos quais apenas 1.000 seriam portugueses). Os defensores possuíam, assim, quase o dobro de homens das forças atacantes.

Para D. António, este foi um efémero e amargo regresso, esfumando-se as esperanças de uma sublevação que o ajudaria a recuperar o trono de Portugal.

 

A operação terminou com uma derrota, constituindo um fracasso de dimensões semelhantes aos da famosa “Invencível Armada Espanhola”. Após este desastre, aquele que tinha sido até então um herói popular na Inglaterra, Sir Francis Drake, caiu em desgraça. Simultaneamente alimentou um renascimento do poderio naval espanhol, que sofrera um rude golpe após a derrota da sua armada.

 

Francis Drake nunca teve verdadeiramente coragem (ou vontade) para atacar diretamente Lisboa, “era uma missão suicida”, e ficou-se pela costa de Cascais. A operação terminou com uma derrota, constituindo um fracasso de dimensões semelhantes aos da famosa “Invencível Armada Espanhola”. Após este desastre, aquele que tinha sido até então um herói popular na Inglaterra, caiu em desgraça. Simultaneamente alimentou um renascimento do poderio naval espanhol, que sofrera um rude golpe após a derrota da sua “Invencível Armada”. O corsário Francis Drake, regressa a Inglaterra sem honra, o que lhe valeria um valente puxão de orelhas por parte da Rainha Inglesa. Sete anos depois, em 28 de janeiro de 1596, viria a morrer de forma inglória a bordo do seu galeão “Defiance”.

 

Filipe II de Espanha ( Filipe I de Portugal) manteve, através do Vice-Rei Alberto de Áustria, o controle de Lisboa e do território português. As grandes armadas espanholas mantiveram a Inglaterra em alerta, mesmo após a derrota da “Invencível Armada” de 1588.

 

A 20 de julho de 1589, celebrou-se em Lisboa, uma procissão de ação de graças pela derrota dos ingleses entre a Sé e a igreja de São Francisco, na qual participaram todas as ordens religiosas e confrarias, com a gente “principal” a transportar uma imagem de Nossa Senhora da Guia mutilada pelos ingleses, proveniente de uma ermida de Cascais. Seis semanas depois, a população de Roma assistiu ao regozijo do Papa Sisto V, com a boa nova da retirada da expedição inglesa de Portugal, compondo pessoalmente um salmo e várias preces e liderando 36 cardeais e toda a Corte Pontifícia em mais uma procissão até à igreja de “Sant’Antonio dei Portoghesi”.

 

”Os Amigos de Peniche”, segundo alguns autores do séc. XX, esta expressão popular deve a sua origem à expedição inglesa de 1589, devido à falta de apoio dos ingleses no regresso de D. António a Portugal, numa aceção pejorativa de falsos amigos apenas interessados em saquear. Contudo, apesar de os ingleses terem retirado sem conseguirem de facto ajudar a causa de D. António, a origem da expressão não terá sido, até prova documental em contrário, contemporânea da expedição ou sequer relativa à mesma. Mais provavelmente, terá que ver com o desembarque das forças liberais em 1833 (aproveitando a fuga da guarnição do partido absolutista), consumado com atos de vandalismo e agressões a populares, atingindo sobretudo as igrejas, mutilando imagens e altares.

 

Texto retirado do futuro livro “365 dias de História”.

Luís M. Cunha.

 

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