Kalidás Barreto – Crónicas da Serra da Lousã

O Padre Aurélio de Campos teve a gentileza de me enviar um exemplar do seu último livro, recentemente editado “TRAÇOS DE UMA VIDA (Memórias e reflexões pessoais)”, gesto que muito me sensibilizou e que agradeço profundamente.

Feita a necessária e indispensável leitura exaustiva da obra, aqui deixo aos leitores duas passagens que me prenderam a atenção. A primeira transcrita do prefácio de Jorge Serrão, e a segunda no capítulo sobre a sua estada em Castanheira de Pera:

“E já agora, não deixa de ser curioso que Aurélio de Campos, que nunca se meteu na política própria ou impropriamente dita, nem por isso deixasse de formalmente ser vigiado pela PIDE (polícia política do regime fascista de Salazar e Caetano), e que conforme documentos que se encontram na Torre do Tombo, em Lisboa, e num ambiente como Castanheira de Pera onde sobressaía uma destacada e significativa indústria de lanifícios, esta polícia não tivesse deixado de referir que Aurélio de Campos, enquanto pároco da vila, tinha, – imagine-se! – “relações com muitos operários” e mais, que deixava “transparecer (não se sabe a quem …) certo desacordo com a situação vigente.”

(…)

“Atrevi-me a fundar um jornal paroquial mensal, que serviu para valorizar a formação dos cristãos, informar os paroquianos do movimento pastoral e intensificar o diálogo e relacionamento do Pároco com o povo da comunidade paroquial, de modo especial os ausentes. A publicação neste Boletim Paroquial de dois artigos sobre a encíclica Mater et Magister do Papa João XXIII levou a PIDE a censurar-me o jornal paroquial e a proibir-me de falar das encíclicas Mater et Magister e Pacem in Terris. Por causa dos artigos referidos e das minhas homilias, que alguém da PIDE vinha ouvir, fui chamado ao Governador Civil de

Leiria, Dr. Damasceno de Campos, que me lembrou as leis em vigor e me pôs a par dos perigos que corria. No seguimento deste encontro os artigos escritos sobre o desenvolvimento e doutrina social da Igreja foram sempre cortados. A amizade a Kalidás Barreto que colaborava comigo na Igreja e era dirigente sindicalista do meio operário dos lanifícios agravou o entendimento da PIDE sobre mim, de tal modo que o deputado local da UN atuou junto do Vigário Geral da Diocese para que fosse advertido, o que realmente aconteceu e de tal modo que me deixou muito magoado. Por esta razão não entrei na Cúria Episcopal, enquanto ele foi Vigário Geral da Diocese.

Por todos estes motivos a PIDE organizou um caderno informativo sobre a minha pessoa que se encontrava nos seus arquivos e que eu, depois do 25 de Abril, tive oportunidade de ler e tirar cópias.”

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