Joaquim Ferreira: COENTRAL – Pintura e douramento do Altar-Mor da Igreja Matriz

Dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, a Igreja Matriz do Coentral Grande terá sido construída antes de 1691 para possibilitar a criação da freguesia, cuja sede ficou estabelecida nesta localidade, como escreveu José Alves Barata num artigo sobre o tema, publicado na Revista Coentral Terra de Encantos, de 1956, no qual acrescenta: “melhoramento sem o qual a sua terra não poderia vir a ser sede da freguesia”.

Como aludi noutro trabalho já publicado, é de crer que tivesse havido no local um outro templo. Kalidás Barreto, na Monografia do concelho de Castanheira de Pera, considera que esta probabilidade tem algum fundamento, sustentando a sua opinião na interpretação que fez do que está expresso na primeira página do livro de registo dos actos religiosos da freguesia, realizados desde aquele ano, onde está escrito: “Livro que há-de servir de se assentarem os baptizados, casamentos e defuntos desta freguesia de Nossa Senhora da Nazaré dos Coentrais novamente erecta neste ano de 1691”. Conclui assim que a expressão “novamente erecta” poderá significar que terá havido, anteriormente, outro templo naquele local.

Contudo, Francisco H. Neves, em artigo publicado no jornal “O Ribeira de Pera”, de 28 de Fevereiro de 2021, sobre o tema Selada de Pera/Ribeira de Pera/ Castanheira de Pera, esclarece-nos esta dúvida. Nesse seu excelente texto clarifica que, o advérbio “novamente” utilizado nessa frase, não se refere à construção da Igreja do Coentral mas sim à freguesia criada de novo, ou seja, pela primeira vez, nesse ano de 1691.

Escreve ele: “O advérbio novamente significa aqui de novo. O Prof Marcello Caetano, na sua História do Direito Português (Sec. XII-XVI), (Verbo), Cap. 5/93, a propósito dos abusos da nobreza na criação de novas honras (terras imunes) refere: «…queixam-se os povos de que são feitas honras novamente, isto é, honras novas, pois este «novamente» queria dizer então, «de novo», como coisa nova, pela primeira vez». Notar que este «novamente» no Coentral se refere à freguesia e não ao templo.”

Assim, mantêm-se válidas as conclusões de António Luís de Sousa Henriques Secco (em 1853) e Francisco H. Neves (em 2014), sobre a origem toponímica do Coentral, ou seja, estes autores defendem que a palavra provém de um provável contra-altar cristão, construído em oposição ao altar aos deuses romanos, erigido no Trevim, e dessa relação altar/contra-altar terá nascido este topónimo. Por isso, não será de estranhar que tivesse existido um altar (ou templo) cristão aí construído antes da Igreja ser edificada, o que, segundo Francisco H. Neves, faria do Coentral o primeiro núcleo cristão da serra.

Uma acta de 30 de Abril de 1721, do padre Manuel Barata de Andrade, na qual responde a um questionário eclesiástico, este pároco do Coentral confirma a construção da Igreja Matriz por volta daquela data (1691). Informa ele: “Nesta freguesia de Nossa Senhora da Nazaré do Coentral deste bispado não há mais que a própria Igreja que haverá trinta anos que o povo fez …”

Tendo havido ou não outro templo naquele local, a verdade é que, basicamente, a configuração da Igreja pouco se alterou desde então até aos nossos dias.  Esta igreja tinha apenas três altares, ainda por dourar, quando em 1767/1768 (ou 1772)[1], o Coentral recebeu a visita do Delegado do Arcediago de Penela. No seu relatório escreveu o seguinte:

  • “…a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, do lugar do Coentral, […] he de uma só nave, e pequena, tem 3 altares com seos retábulos de boa talha, mas inda por dourar, está forrada e soalhada, bem provida de ornamentos, e o sacrário bem guarnecido, não só pela parte interior, mas exterior.”

Naquela época não existia, ainda, o altar de Nossa Senhora das Dores que foi mandado fazer pelo Neveiro-Mor da Casa Real, Julião Pereira de Castro, alguns anos mais tarde, após ter construído duas casas no Coentral nos anos de 1774 e 1775, onde residiu durante largas temporadas para dirigir o negócio da neve na Real Fábrica da Neve do Coentral, situada no Cabeço do Pereiro, serra da Lousã. Este importante homem ofereceu, também, à Igreja Matriz um pálio, uma cruz de prata e um candeeiro em cristal, que viria a ser roubado pelos franceses, em 1810, aquando da sua passagem pela aldeia. O grande apreço que o Neveiro tinha por esta terra levou-o a candidatar-se a Juiz da Igreja. Porém, como contou em tempos o saudoso Joaquim Lopes de Carvalho “os do Coentral, apesar do respeito que lhe guardavam, não quiseram satisfazer esse desejo do Neveiro, pois, segundo se diz, não queriam designar, para tão honroso cargo, um homem de fora, um «achadiço»”

Em 2018 no meu livro COENTRAL-História, usos, costumes e tradições manifestei a opinião que teria sido o Neveiro-Mor do reino a custear a pintura e douramento do Altar-Mor e dos outros altares secundários da Igreja Matriz do Coentral. Na verdade, como veremos a seguir, através da transcrição das palavras do professor Joaquim Barata de Mendonça na notícia publicada no jornal regional “A Comarca de Arganil”, nº 51, de 30 de Janeiro de 1902, que aí adopta o pseudónimo “Nodençam”, apenas em 1902 se concluiu a pintura e douramento da tribuna e Altar-Mor da Igreja desta freguesia, obra executada pelo distinto artista, pintor e dourador castanheirense, mestre António Marques de Araújo. Este mesmo mestre pintor viria a executar, no ano seguinte, entre o princípio de Janeiro e o fim do mês de Junho desse ano, as obras de “limpeza, reparação, pintura e douradura do altar-mor, trono e sanefas das janelas e lado frontrário ao altar” da Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, conforme escreveu Miguel Portela no artigo, sobre este tema, publicado no jornal “O Figueiroense” de 16 de Outubro de 2015.

A obra de pintura e douramento do Altar-Mor da Igreja do Coentral, viria a ser executada graças ao contributo monetário dos coentralenses, residentes e de fora, como relatou o professor Joaquim Barata Mendonça, na citada notícia do jornal “A Comarca de Arganil”. Escreveu ele:

“Já está concluída a obra da pintura e doiramento da tribuna e altar-mor da egreja d’esta freguezia, trabalho do distincto artista o sr. António Marques d’Araujo, de Castanheira de Pera. Está bonito, e o rev.º parocho, à missa, conventual do pretérito domingo, chamou a attenção dos seus parochianos para o referido altar, agradecendo-lhes e a outros de fóra o terem assim concorrido com as suas esmolas pecuniárias para o esplendor do templo, fazendo-lhes ao mesmo tempo sentir que não deviam parar aqui, porque os demais altares carecem de egual melhoramento.

Oxalá seja feliz e não esmoreça no caminho que tão louvavelmente encetou de melhorar d’est’arte a casa de Deus.

Também a expensas de trez devotos – a sr.ª Maria Barreto e os srs Joaquim Diniz Pimentel e José Miguel Junior – foram pintadas e encarnadas as imagens de Nossa Senhora de Nazareth, S. Joaquim e Sant’Anna, importando o trabalho de cada uma em 12$000 réis.

Parabéns aos trez referidos devotos pelo seu fervor religioso e que estes trez Bemaventurados sejam lá no céo os seus desvelados padrinhos, quando passarem à d’esta outra vida, que, com quanto se diga que é melhor, a todos desejo seja bem tarde, bem assim a quem estas linhas escreve.”

 

Para esta obra, e para a pintura e douramento dos restantes altares, contribuiu também D. Manuel Agostinho Barreto, conforme ficou registado na acta da sessão ordinária do dia 5 de Maio de 1904, da Junta da Paróquia da Freguesia do Coentral Grande, concelho de Pedrógão Grande, realizada às 12 horas da manhã, à qual compareceram o Presidente da Junta, Reverendo Miguel Henriques Serrano e os Vogais, Manuel Lopes Antão e Manuel Henriques Serrano. Naquele tempo, dizia o Presidente da Junta da Paróquia:

“S. Exª Reverendíssima o Snr. D. Manuel Agostinho Barreto, Meritíssimo Prelado da Madeira constantemente está exercendo para com a classe indigente d’esta freguezia com o rendimento das propriedades herdadas de seus fallecidos Paes, e de que é possuidor nesta freguezia, tem subscripto com quantias avultadas para quasi todos os melhoramentos desta freguezia, a saber: deu para auxiliar a reconstrução do edifício escolar 50$000 reis; para a pintura e douramento dos altares desta Egreja 60$000 reis; para o relógio da torre 20$000 reis; fez a expensas suas um acrescentamento no cemitério, melhoramento de primeira necessidade, com o qual despendeu 50$000 reis; ofereceu a esta Egreja um cálix de prata com suas pertenças; um missal; um par de galhetas de crystal com tampa, guarnições e competente prato de metal dourado; um paramento de damasco branco, systema francez; um palio de damasco com 4 varas para conduzir o Sagrado Viático aos enfermos da sede da freguezia, e um vaso de metal dourado para o Sacrário; doou a esta Egreja Parochial uma sorte de terreno para hortelar com castanheiros, oliveiras e outras arvores contíguas, com o fim especial de ser usufruída pelos parochos que se forem sucedendo nesta freguezia; gratificar annualmente, do seu bolso, o sacristão …”[2]

 

Mais tarde a Igreja do Coentral recebeu outros melhoramentos, nomeadamente: a construção da nova sacristia, em 1937/1938, tendo a Junta de Freguesia cedido o terreno para o efeito; a colocação de um novo sino na torre da Igreja, em Junho de 1952; e, em data que se desconhece, a construção de dois novos altares dedicados a Santa Filomena e a Santa Luzia.

Na década de 1960, o altar-mor foi objecto de remodelação, que lhe retirou a beleza e o encanto original e, deixou mais pobre o local nobre da Igreja Matriz do Coentral Grande.

Nos anos mais recentes outras melhorias lhe foram introduzidas, que tornaram o templo mais aberto á inclusão de todos os fiéis, através da construção de uma rampa de acesso ao seu interior para pessoas com mobilidade reduzida.

____________________________________

 

Referências Bibliográficas

  • Barreto, Kalidás, Monografia do concelho de Castanheira de Pera, 3ª Edição revista e actualizada da edição de 1989, 2004;
  • Ferreira, Joaquim, COENTRAL-História, usos, costumes e tradições, edição de autor, Outubro de 2018;
  • Machado, Herlander, Terra de Encantos – Coentral, Factos e Contos da Tradição Oral, Serra da LousãCoentral, Lisboa, 1991;
  • Neves, Francisco H., artigo “Crónica da Fraga-Selada de Pera/Ribeira de Pera/ Castanheira de Pera”, publicado no jornal O Ribeira de Pera, de 28 de Fevereiro de 2021;
  • Nodençam (professor Joaquim Barata de Mendonça), notícia publicada no jornal A Comarca de Arganil, nº 51, de 30 de Janeiro de 1902;
  • Portela, Miguel (Investigador), artigo “António Marques de Araújo: pintor e dourador da capela-mor da Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos”, publicado no jornal O Figueiroense – Série II, nº 15, de 16 de Outubro de 2015 (Edição compartilhada com O Ribeira de Pera);
  • Revista Coentral, Terra de Encantos, Serra da Lousã, 1956;
  • Simões, José Manuel, artigo “Coentral Terra de Encantos – Um Bispo Coentralense – 1904”, publicado no Jornal O Castanheirense, de 31 de Agosto de 2002.

 

[1] É dúbia a data desta visita do Delegado do Arcediago de Penela, à freguesia do Coentral. Kalidás Barreto, na Monografia do concelho de Castanheira de Pera, 3ª Edição revista e actualizada da edição de 1989, 2004, página 63, refere o ano de 1767 ou 1768, como data provável, enquanto Herlander Machado, no livro Terra de Encantos – Coentral, Factos e Contos da Tradição Oral, Serra da Lousã – Coentral, Lisboa, 1991, página 45, refere o ano de 1772.

[2] Extraído do artigo de José Manuel Simões, “Coentral Terra de Encantos – Um Bispo Coentralense – 1904”, publicado no Jornal O Castanheirense, de 31 de Agosto de 2002.

Comments are closed.

Scroll To Top