Itinerários turísticos do Cabril: O “CABEÇO DAS MÓS” E O “PENEDO RACHADO”[1]

Ao cimo da vila de Pedrógão Grande, e bem no final da Avenida Sá Carneiro, virando à sua direita, existe uma via (em terra batida) que atravessa o Cabeço das Mós e vai entroncar, a oriente, na estrada que agora faz parte da Grande Rota do Zêzere (GR 33). Esta via foi a que primitivamente serviu de apoio à construção da Barragem do Cabril, dado que nessa altura ainda não existia a Estrada Nacional Nº 2 (EN2) (recentemente classificada como rota turística).

Por aí passavam os camiões com os materiais necessários à construção da Barragem, excepto os inertes (britas, etc.) que eram produzidos na pedreira do lado de lá (de Pedrógão Pequeno), ainda hoje existente. Era também junto dessa via que existia uma taberna (improvisada, e em madeira), propriedade do pedroguense Ferra-o-Bico[2], natural da povoação da Adega, onde os operários que trabalhavam na Barragem se encontravam, abasteciam e retemperavam as suas forças.

Do lado de esquerdo dessa via, antes de alcançar esse ponto, ainda hoje aí subsiste o conhecido Penedo Rachado (do Cabeço das Mós), que é um grande bloco granítico, de forma arredondada e com uma fenda a meio. Do lado direito da mesma via, por sua vez, são visíveis diversos buracos no solo agreste, de onde eram extraídas as rochas de granito que depois eram canalizadas para a oficina de canteiro existente na zona.

A última pessoa aí conhecida, Serafim Marques Pereira, e que dava pela alcunha de “O Ministro”, dedicava-se a esculpir blocos de granito para a construção das mós dos moinhos de rodísio, nessa altura existentes em apreciável número na região para a produção de farinha. Em meados Séc. XX existiam uns 20 desses engenhos em toda a Ribeira de Pera, para além dos existentes nas Ribeiras dos Frades, de Mega[3] e do Nodel (na freguesia da Graça). Só na aldeia do Mosteiro existiam uns cinco moinhos de rodísio, para além de dois lagares de azeite, um dos quais com sistema igualmente de rodísio[4] e pio com duas mós verticais. Junto à praia fluvial do Mosteiro – na margem esquerda da Ribeira de Pera – ainda hoje aí persiste um desses moinhos, propriedade do Sr. Marcolino, que depois de devidamente recuperado, o põe a funcionar para quem mostre interesse em visitá-lo (estudantes, turistas), desempenhando na perfeição a sua função pedagógica e cultural.

Pela abundância de granito, e pela fama que granjeou como base de apoio à economia local, a toponímia pedroguense fixou essa zona de extracção de pedra como sendo a do Cabeço das Mós. No entanto, o referido “Ministro” também construía vergas e ombreiras, soleiras e peitoris, para a construção civil, como hoje são bem visíveis nas casas do Centro Histórico da centenária Vila, assim como nas mais cuidadas vivendas do concelho. A par delas ainda fabricava pias de pedra, para a alimentação dos porcos, assim como algumas peças mais pequenas para o trato de outros animais domésticos (cães, gatos, coelhos e galinhas).

De conversa mantida com o neto do “Ministro” soubemos ainda que seu avô iniciara a vida como latoeiro, mas como vivia rodeado por pedras de granito, cedo foi aliciado para as trabalhar, até porque – como veio a verificar – era um ofício muito mais rentável que aquele, por ser profissão praticamente sem concorrentes. Soubemos também que o local onde se situava a casa do “Ministro” passou a ser apelidado de Quinta do Alegrete, porque o mesmo – tendo um filho e três filhas, e não existindo ainda luz eléctrica no local – juntava habitualmente a família à lareira a cantar, juntamente com alguns amigos e pessoas conhecidas da vila, até altas horas da noite. Fruto da alegria desse convívio logo, pois, alguém se lembrou de baptizar apropriadamente o local – por demais ermo – como Quinta do Alegrete.

Para além do referido neto, o falecido “Ministro” ainda hoje tem uma dessas filhas viva (D. Sara), que é utente do Lar da 3ª idade, mas a casa mudou de proprietário.  A área onde se insere manifesta-se de uma grande beleza, pelo seu verde, luz e cor, muito agradável e fácil de percorrer pelos visitantes, mesmo utilizando viaturas que não sejam todo o terreno. Por esse facto, aconselhamos uma visita ao Cabeço das Mós, aproveitando um desses percursos pedestres (PG3) que, partindo do Largo da Devesa, e passando pela bela Fonte de Cima e pelo Penedo Rachado, visa alcançar a EN2 e a GR33. Os grandes exemplares de sobreiros e carvalhos que por ali abundam – e que rivalizam com alguns dos melhores espécimes alentejanos e transmontanos que conhecemos – mais favorecem o ambiente e nos atraem a explorar as margens do Zêzere e da sua refrescante e encantadora albufeira…

 

Texto de : Engº Mário Coelho Fernandes

Fotos de: João Carvalho (“Viola”)

 

[1] Não confundir este “Penedo Rachado” (a norte) com o “Calhau Furado”, que se situa (a sul) nas encostas da Pena-Mingacho, nas imediações da Foz da Ribeira de Pera.

[2]Dois dos filhos do referido Ferro-ó-Bico ainda hoje são vivos. São eles o Sr Adelino, com casa na povoação da Adega, e a D. Mercedes, com casa na Aldeias das Freiras. Ainda que ambos continuem emigrados no Brasil, todos os anos eles vêm a Portugal passar as férias.

[3] Um deles situava-se junto ao Poço do Moinho Miranda, a sul do sítio da Várzea, na aldeia de Mega Cimeira.

[4]A unidade de turismo rural Villa Isaura, de Aires B. Henriques, dispõe de algumas fotos do que ainda restava deste lagar de varas há 35 anos atrás. Trata-se de um sistema de tracção por rodísio, muito débil para a função, mas vulgar na região serrana mais a norte (Serra da Estrela).

Comments are closed.

Scroll To Top