II Conferência sobre a Serra da Lousã – Desafios e Oportunidades de Desenvolvimento no Horizonte 2014-2020

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera deu o mote na sua intervenção inicial e de boas-vindas aos participantes: “neste lapso de tempo entre a primeira e a segunda conferência pouco ou nada se fez, foi um ano perdido”. E acrescentou “ a Serra da Lousã é um diamante em bruto, se for mal lapidado perderá grande parte do seu valor”.

Se alguém teria ficado com a esperança que esta declaração resultaria num acto de contrição do poder político, e que o futuro reservaria novos desenvolvimentos, cedo ficou desconfiado que talvez assim não aconteça.

Os presidentes de cinco dos sete municípios: Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Penela e Góis, com a Lousã a fazer-se representar por um técnico municipal e Miranda do Corvo ausente, não conseguiram fazer passar a mensagem de unidade no querer e nos esforços para um plano em conjunto, capaz de ultrapassar a clivagem causada pelo desenho das novas CIM (Comunidades Inter Municipais), que repartiram o território da Serra da Lousã entre a região de Leiria e a de Coimbra.

2-painelO autarcas não se entendem por exemplo quanto à necessidade, ou não, de criar um organismo que faça a gestão deste território de forma integrada, ultrapassando assim a questão das CIM, como também não se entendem qual o tipo de organismo que melhor representaria o território: agência, associação, com preponderância dos poderes públicos ou não? Isto para já não falar daquilo que ninguém falou mas que todos pensaram: onde ficaria sedeado este organismo, quem o comandaria?

Sem esta questão resolvida, ou sequer em vias disso, a conferência prosseguiu de fria a morna, com intervenções demasiadamente técnicas, outras mais emotivas, mas como alguém lembrou quase no final, pouco se ouviu falar da Serra da Lousã.

A conferência foi organizada pela Lousitânea, Liga dos Amigos da Serra da Lousã em parceria com o município de Castanheira de Pera, e caberia aos presidentes destas duas entidades, Paulo Silva e Fernando Lopes, dar as boas-vindas aos participantes.

Os trabalhos estavam divididos em quatro painéis. Da parte da manhã iniciaram-se com “Políticas públicas e desenvolvimento regional: perspectivas para a Serra da Lousã”, moderado pelo professor Paulo Carvalho, em que participaram uma representante da CCDRC – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, que deu uma panorâmica sobre o novo período de programação e execução dos Fundos Comunitários (2014-2020), tendo destacado a importância que o novo plano concede a projectos que criem emprego através da valorização de recursos endógenos.

Já Pedro Machado, presidente do Turismo Centro de Portugal, salientou a necessidade de trabalhar em rede de modo a valorizar a oferta turística da Serra da Lousã de forma integrada com a marca Centro de Portugal, afirmando-se através de quatro grandes vectores: O turismo de Património, Histórico e Cultural, O turismo de Natureza, Saúde e Bem-Estar, o turismo Científico, Tecnológico e Industrial, e o Turismo Residencial.

O Rui Melo, do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, anunciou algumas novas medidas previstas no Plano de Desenvolvimento Regional, como a alteração da área em que é necessário a apresentação de um Plano de Gestão Florestal para novos povoamentos, que passa de meio hectare para 25 hectares, libertando assim muitos pequenos produtores deste peso burocrático e financeiro, anunciando ainda alterações em outras áreas, como a beneficiação da florestação de pinheiro bravo após incêndio, na apicultura, apostando na manutenção de espaços apícolas nas manchas florestais, apoios a empresas de exploração florestal, quer de material lenhoso como outras de produtos florestais não lenhosos, entre outros.

Participaram deste painel também técnicos ligados à gestão do património cultural, Rosa Oliveira do Ministério da Economia e Sidónio Santos da DRAPC – Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro, que truxe novidades no investimento agrícola, nomeadamente em viveiros, apicultura, caprinicultura, onde passam a ser elegíveis com fundos perdidos a aquisição de animais, medronheiro, ervas aromáticas e gastronomia.

No debate que se seguiu, destaque para a intervenção de António Campos, antigo dirigente do PS, que referiu: “o interior é um território que faz fronteira com Portugal, mas é outro país”.

Seguiu-se o painel reservado ao poder político: “Poder político e desenvolvimento local: estratégias e desafios no contexto da Serra da Lousã”, moderado por Paulo Silva, e cujo “sumo” se resume praticamente ao referido nas primeiras linhas deste artigo, mas de que destacamos duas passagens da intervenção do presidente do município de Penela, Paulo Matias face aos inconclusivos resultados da primeira conferência e do andamento desta:  “não volto a participar em mais nenhuma conferência destas” e ainda sobre algumas intervenções verificadas no primeiro painel, excessivamente técnicas e burocráticas “não falaram quatro ou cinco vezes na Serra da Lousã, é só blá, blá, blá, generalidades”.

Da parte da tarde houve lugar a dois novos painéis, “Tecido empresarial, movimento associativo e desenvolvimento local: oportunidades em 2014-2020”, moderado por Carlos Fonseca, biólogo da Universidade de Aveiro, com intervenções de Helena Rodrigues, da Cooperativa de Vila Nova do Ceira, Dulce Margalho, da Associação de Baldios de Vila Nova, Miranda do Corvo, Miguel Pessoa, da empresa de animação turística Go Outdoor, Ana Maria Ribeiro da Tipografia Lousanense, João Paulo Graça Oliva, da Quinta dos Esconhais, Castanheira de Pera, Elisabete Costa, da empresa de cosmética natural Castanea Natur, de Penela, Rui Simões, da ADXTUR, e José Manuel, da Associação Pinhais do Zêzere, que falaram das respectivas entidades que representavam, as suas experiências  e projectos, naquele que foi talvez o mais optimista de todos os debates.

No debate que se seguiu, António Neves Pedro deixou uma proposta para a criação de uma federação de associações, entidades e empresas com interesse no desenvolvimento da Serra da Lousã, que funcionaria como interlocutora e agente de desenvolvimento.

No segundo painel da parte da tarde “Políticas e Intervenções na Serra da Lousã – Olhares científicos e culturais”, participaram Carlos Fonseca, Paulo Carvalho, Rui Silva, antigo presidente do município de Figueiró dos Vinhos, e José Pais, PCA da Prazilândia EEM.

No final ficou o anúncio de que o município de Pedrógão Grande se disponibilizou para receber a terceira conferência, na esperança que fracturas e clivagens, fome de protagonismo e bairrismo exagerado se encontram devidamente curados para que finalmente a Serra da Lousã possa ser visto como um território unido e integrado numa estratégia comum de desenvolvimento, a bem de todos.

A ver vamos…

António Bebiano Carreira

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