Faleceu Kalidás Barreto

Luís Maria Kalidás Costa Barreto, de 88 anos celebrados no passado dia 16, retido na sua residência em Castanheira de Pera por motivo de doença, depois de um prolongado sofrimento, veio a falecer na sexta-feira, dia 30 de Outubro. O seu corpo foi trasladado para a Casa Mortuária da Santa Casa da Misericórdia de Castanheira de Pera, onde se manterá até às 10 horas do próximo dia 1 de Novembro. Após as exéquias religiosas o seu corpo seguirá para o Crematório de Taveiro, onde vai ser cremado, sendo as suas cinzas posteriormente depositadas no cemitério de Castanheira de Pera. Filho do intelectual republicano de origem goesa Adeodato Barreto, Kalidás nasceu em Montemor-o-Novo, a 16 de Outubro de 1932, distrito de Évora, mas muito jovem radicou-se com a família em Castanheira de Pera, onde trabalhou como contabilista em diversas fábricas têxteis. Após o Curso Complementar de Contabilidade e Comércio, em Coimbra, radicou-se em Castanheira de Pera, onde exerceu as funções de proposto de Tesoureiro da Fazenda Pública bem como diretor comercial em diversas empresas da indústria têxtil, na região até admissão como auxiliar de contabilista na firma Fernandes & Antunes, Ldª Participou em iniciativas de oposição à ditadura de António Salazar e Marcelo Caetano, designadamente como membro da comissão de apoio à candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, em 1958, e como organizador da Oposição Democrática na Castanheira de Pera, nas eleições de 1969. Em 1975, na sequência da Revolução do 25 de Abril de 1974, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, nas listas do PS. Desvinculou-se deste partido e participou, em 1978, na fundação da União da Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), vindo mais tarde a reaproximar-se do PS. Em 2004, no âmbito das comemorações do 30.º aniversário do 25 de Abril, foi agraciado pelo Presidente da República Jorge Sampaio com o grau de grande-oficial da Ordem da Liberdade. Chamado por Manuel Lopes, quando da criação da Intersindical Nacional, mais tarde Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), em 1970, Kalidás liderou o Sindicato dos Têxteis do Centro, foi dirigente nacional da CGTP e conselheiro técnico de missões portuguesas à Organização Internacional do Trabalho (OIT). Após o 25 de Abril de 1974 foi membro da Comissão Administrativa do Município de Castanheira de Pera e primeiro presidente eleito da Assembleia Municipal local, em 1976. Foi eleito para a Assembleia Constituinte pelo círculo de Leiria, ao lado de nomes como Álvaro Órfão, Tomás Oliveira Dias, Francisco Oliveira Dias, Abílio de Freitas Lourenço, João Manuel Ferreira, José Ferreira Júnior, José Gonçalves Sapinho, Amílcar de Pinho, António Rodrigues, Pedro do Canto Lagido, Joaquim Jorge de Pinho Campinos, Vasco da Gama Lopes Fernandes, José Manuel Burnay. Colaborou na imprensa regional, sobretudo em jornais de Castanheira de Pera entre os quais “O Ribeira de Pera”, dos concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Lousã, foi provedor do associado do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres (INATEL) e tem vários livros publicados. Promotor cultural em Castanheira de Pera, defensor do intermunicipalismo, foi homenageado em 2019 no sítio comunitário do Santo António da Neve, no âmbito do Encontro dos Povos da Serra da Lousã, do qual foi um dos fundadores, em 1997, por proposta do jornal Trevim, da Lousã, no qual colaborou vários anos. O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, após conhecido o falecimento de Kalidás Barreto, manifestou “enorme tristeza” pela morte do antigo deputado constituinte. “Antifascista, pensador, sindicalista e deputado à Assembleia Constituinte, tinha por ele, desde os anos setenta do século passado, uma grande admiração e amizade”, refere a segunda figura do Estado, numa mensagem de pesar. Ferro Rodrigues recorda Kalidás Barreto como “uma indiscutível referência da luta pelas causas e os direitos dos trabalhadores”. O coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas, José Reis, realçou o “passado de muita luta e sabedoria” do sindicalista e recordou que o conheceu na década de 1970, em Coimbra, no contexto de uma iniciativa pública em cuja organização esteve envolvido como dirigente estudantil, na qual Kalidás foi um dos oradores. “Kalidás Barreto tinha características que nessa época fascinavam qualquer jovem militante: experiência, passado de muita luta e sabedoria”, sublinhou José Reis, lembrando que “tinha uma enorme vivacidade e foi uma lufada de ar fresco em determinado momento”, na política e no sindicalismo. A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis, Lanifícios e Vestuário do Centro, Fátima Carvalho, recordou que Kalidás Barreto “presidiu durante muitos anos” à assembleia geral desta organização, com sede em Coimbra. “Estou muito triste”, declarou Fátima Carvalho à Lusa, enaltecendo o papel que o seu “amigo e camarada” desempenhou no sector têxtil, como sindicalista, mas também enquanto co-fundador e dirigente nacional da CGTP durante décadas. Era amigo pessoal do diretor de “O Ribeira de Pera”, que neste momento acompanha toda a família neste triste desenlace, e a quem endereça os seus mais sentidos pêsames.

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