Comemorações do 25 de Abril – Carlos Beato: Valeu a pena

 

Como tem acontecido desde que Valdemar Alves é presidente da Câmara Municipal, Pedrógão Grande comemorou o 25 de Abril, Dia da Liberdade, este ano com um vasto programa ao longo de cinco dias que inclui iniciativas como cinema, tertúlia, espectáculo musical, caminhada, apresentação de livro, workshops diversos e muito desporto. Paralelamente decorreu também o Festival de Comunidades Estrangeiras.

No dia 25 de Abril as comemorações iniciaram-se com o Hastear da Bandeira no edifício dos Paços do Concelhos, que contou com Guarda de Honra dos Bombeiros Voluntários, e a presença do corpo de Escuteiros e Filarmónica Pedroguense.

Seguiu-se a Sessão Solene do Salão Nobre dos Paços do Concelho, com intervenções de Valdemar Alves e Tomás Correia, presidentes da Câmara e Assembleia Municipal respectivamente, e de Carlos Beato, oficial que integrou a coluna comandada por Salgueiro Maia que marchou de Santarém para Lisboa, e que teve um papel decisivo no desenrolar da revolução.

Valdemar Alves numa curta intervenção saudou o 25 de Abril e agradeceu a presença de todos e apresentou o convidado, Carlos Beato.

Tomás Correia lembrou os três “D’s – Democratizar, Descolonizar e Desenvolver, além do “D” da desertificação, que a tragédia de 17 de Junho de 2017 veio acentuar: “continuando por este caminho, nós vamos ter casas muito bem reconstruídas, um património bonito, mas não vamos ter pessoas para habitarem esse mesmo património”.

Carlos Beato falou de seguida, fazendo um relato, na primeira pessoa, dos preparativos para a operação militar e dos acontecimentos vividos em 24 e 25 de Abril de 1974, altura em que estava colocado na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, como oficial miliciano.

Com uma narrativa clara e cativante, bem humorada, que dirigiu principalmente aos jovens presentes na sala a quem pediu a sua divulgação, Carlos Beato deu a conhecer a coragem e a determinação com que a operação foi preparada, e depois executada por jovens militares, com idades compreendidas entre os 21 e os 29 anos (caso do Capitão Salgueiro Maia, que comandou a coluna), revelando alguns pormenores, que não sendo inéditos ou desconhecidos, são pelo menos muito pouco conhecidos. Aqui ficam alguns episódios mais pitorescos:

As portagens da Revolução

Saindo no início da madrugada de 25 de Abril de Santarém em direcção a Lisboa, a coluna composta por centenas de viaturas de transporte e combate era comandada por Salgueiro Maia, que seguia na frente, num jipe. O primeiro contratempo foi na praça das portagens da auto-estrada, que na altura começava apenas no Carregado. Das várias cabines disponíveis para entrar na via, apenas uma estava aberta, o que seria um constrangimento, para além do perigo que constituía. O Capitão saiu do jipe e falou com o portageiro, explicando a situação, e pouco tempo depois todas as cabines estavam com luz verde para passar, e a revolução continuou!

Está vermelho meu Capitão

A coluna chegou a Lisboa por volta das 06h30, com pouco trânsito ainda. Salgueiro Maia seguia no jipe rumo ao Terreiro do Paço, o seu objectivo, absorto em mapas e cartas militares, quando de repente quase bateu com a cabeça no para brisas!

– O que é que se passa? Perguntou ao motorista.

– Está vermelho meu Capitão, respondeu este.

O semáforo tinha fechado na altura! Não se sabe se o Capitão teve tempo de explicar que neste caso não era para parar, mas o certo é que a coluna não parou mais até ao objectivo!

O Cabo que salvou a Revolução

Ocupada a praça do Terreiro do Paço pelas forças revolucionárias, eis que chegam ao teatro de operações quatro tanques provenientes de uma unidade militar que apoiava a situação, fazendo cerco à praça. Segundo Carlos Beato o poder de fogo destas viaturas é enorme, e a sua intervenção teria resultado numa carnificina. Os tanques pararam, chegando entretanto num jipe um Brigadeiro que subiu à torre de um deles, onde estava o Cabo José Alves Costa, a quem perguntou se sabia disparar. O Cabo atrapalhado, por estar a falar com um oficial-general e pelas consequências do que lhe ordenavam respondeu de forma evasiva: que ia ver… não tinha a certeza. O Brigadeiro não estava para brincadeiras e ameaçou que ou obedecia ou ele mesmo lhe dava um tiro na cabeça! O Cabo respondeu com energia: sim meu Brigadeiro! Desceu a torre, fechou a escotilha e só saiu do tanque a meio da tarde!

O Brigadeiro foi de seguida detido por Salgueiro Maia, que recebeu, sem reagir, duas chapadas deste, antes de lhe dar voz de prisão.

Costa Gomes ou António de Spínola?

Numa reunião preparatória do Movimento das Forças Armadas, realizada em Óbidos em Dezembro de 1973, os oficiais conspiradores tinha feito uma votação para decidir quem seria o Presidente da República depois do golpe militar. O resultado, por ordem de preferência foi: Costa Gomes, António de Spínola e Kaúlza de Arriaga, todos Generais.

No Quartel da GNR no Carmo, o presidente do Conselho Marcelo Caetano, que ali se refugiara com o Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Patrício e Moreira Batista, Ministro do Interior, percebeu que a situação era irreversível e que a rendição era inevitável. Salgueiro Maia, que comandava as operações mas também as negociações para a rendição entrou no quartel para dialogar, antes de uma acção de força, que com tanta gente no largo do Carmo teria consequências trágicas. Marcelo recebeu-o e aceitou render-se, mas exigiu que fosse a um Oficial-General para o “poder não cair na rua”. Assim aconteceu, mas o General chamado foi Spínola, o número dois da lista. Costa Gomes estava no médico naquele dia…

Carlos Beato realçou que em todas as circunstâncias os acontecimentos se tinham desenrolado com grande elevação e ponderação, a par da grande coragem com que os jovens militares tinha levado a cabo a operação. E apenas estes factores justificam que a queda de um regime de quase meio século tenha acontecido em apenas um dia. As vítimas a lamentar foram quatro civis mortos pela PIDE na Rua Vítor Córdon, que do telhado e em desespero de causa dispararam sobre a multidão.

António B. Carreira

 

 

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