Carta aberta ao Conselho de Administração do Millennium BCP

Conselho de Administração do Millennium BCP
C/c Presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pera
Exmos. Srs. Membros do Conselho de Administração do Millennium BCP
Venho por este meio, para que no final da nossa relação, não fiquem coisas por dizer,  transmitir o meu desagrado pela decisão de encerrar a sucursal de Castanheira de  Pera, mas também pela forma impessoal, reveladora de uma falta de estima e apreço  inqualificável, que me surpreendeu deixando uma sensação de desprezo que muito me  transtorna.
Finda assim uma relação de 14 anos, em que sempre a oferta da concorrência,  nomeadamente em taxas de manutenção e comissões, era mais baixa, mas que recusei  pelo compromisso, pela consideração e sempre na esperança de que o custo acrescido  se traduziria, como sempre traduziu, num bom serviço e num acompanhamento  permanente, mas também em apoio quando fosse necessário investir, numa parceria  que sempre perspectivei como duradoura.
Obviamente também pela relação com os funcionários, uns de amizade, outros quase  familiar, mas todos com uma relação cordial, mais do que de funcionário para cliente,  de amigo para amigo, também teve um peso enorme na minha recusa de ceder aos  preços da concorrência e honrar o compromisso que assumi com o Millennium BCP em  Agosto de 2002, com apenas 17 anos, que mantive porque é assim que sou; assumo e  cumpro os meus compromissos, e nunca, pelos princípios supracitados, que faço  questão de exibir e de aplicar em tudo, terminaria esta relação por sms, com 9 dias de  antecedência.
Parece uma carta a uma ex. namorada e não a uma entidade bancária, não é? Pois. É  que o Millennium BCP nunca foi para mim uma entidade bancária, foi um parceiro que  procurei manter comigo ao longo dos anos e que mesmo quando toda a gente me dizia  que pagar 8€ por mês era ridículo, eu servia-me da lealdade, do acompanhamento e  das perspectivas de apoio financeiro nas as minhas ambições de investimento no futuro, para justificar esses 96€ por ano. Lamento agora, sinceramente, cada cêntimo  que investi num parceiro que decidiu assim, sem aviso prévio, tratar-me como um  número e não com o respeito que percebi agora, não era recíproco.
Mas, chega de falar nos meus sentimentos. Falemos agora do meu concelho.  Castanheira de Pera é um meio pequeno. Segundo os ultimos censos, tinha em 2011,  cerca de 3191 habitantes. Não sei se estarei a ser muito drástico mas, estimo que  esteja neste momento perto, ou abaixo dos 3000.
A sucursal de Castanheira de Pera contava com cerca de 1200 clientes, o que significa,  a frio, que cerca de 1/3 da população deste pequeno concelho, escolhia, como eu, o  Millennium BCP para seu parceiro. Será que haverá em muitos concelhos esta  percentagem de preferência? Não pretendo resposta a esta pergunta, porque estaria a  cair no erro de interpretação do Millennium BCP acerca de números e não quero.
Preocupa-me que seja o Millennium BCP a lançar uma espécie de alarme social, como  se fosse o início do fim dos serviços no concelho. Já esperava há algum tempo, que  fosse a Caixa Geral de Depósitos a fazê-lo, porque infelizmente o estado é geralmente  o primeiro a abandonar-nos, pensei eventualmente na Caixa de Crédito Agrícola por  ser um banco de menor dimensão (e que está agora a mostrar que a dimensão não  está no capital, nem no número de clientes, que o caminho faz-se caminhando e que a  competência é uma estrada para o sucesso), mas nunca esperei que partisse do  Millennium BCP abandonar uma população que se mantém com o BCP, como já se  mantinha com o BPA, há tantos anos.
Este acto precipitado e repentino, revelou-se de uma profunda irresponsabilidade, que  o Millennium BCP deveria ter tido em conta, num processo que deveria ser de  transição lenta e não um “vai à fava” (para poupar a algum impropério que me está na  ponta dos dedos a querer ser digitado), traduzindo-se numa enorme falta de respeito  para com a população deste concelho.
Pasma-me esta forma pouco ética, quando a ética deveria ser sempre a bandeira de  qualquer entidade bancária, de “saltar do barco”. Deixa-me exasperado este  comportamento absurdo, inconsequente e até negligente, por parte de uma prestigiada entidade. O cinismo com que me convidam a ir conhecer a sucursal de  Ansião, deixa-me ainda mais irritado, porque, se dizerem-me “vai lá à tua vida” já é  mau, então dizerem-me “faz aí 70km de cada vez que quiseres fazer um depósito”,  ainda é pior. Preferia, honestamente, a primeira abordagem.
Se por um lado, conseguiria até perdoar o Millennium BCP por ter que fechar esta  sucursal, pelo baixo número de clientes, por não compensar ter 3 funcionários numa  sucursal tão pequena, mesmo podendo operar com um, ainda que isso reduzisse  substancialmente a qualidade do serviço e mesmo das opções nesta sucursal, nunca  perdoarei ao Millennium BCP pela forma como tratou o meu concelho e as gentes de  Castanheira de Pera. Posso dizer que neste momento, se anunciassem a abertura de  uma sucursal mesmo por baixo de minha casa, que até lá tem um espaço bem jeitoso,  que era utilizado como consultório médico, eu não voltaria a ser cliente do Millennium  BCP, nem que fosse o ultimo banco nacional, e olhe nunca gostei nada dos espanhóis.
E é com este desabafo que me despeço do parceiro que, mesmo eu achando que a  saída de Jorge Jesus para o Sporting, seria a maior traição que teria que suportar na  minha vida, conseguiu superar toda e qualquer desilusão e sentimento de traição,  desrespeito, desconsideração e desprezo que pensei ter que passar, ainda que tenha  esperança que, esta falta de respeito se revele, como Jorge Jesus, uma benção e não  algo de negativo.
Com os melhores cumprimentos
António Pedro Carreira

 

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