Beja Santos – Terra que já foi terra: os lugares agro-pastoris da Serra da Lousã

“Terra que já foi terra, Análise sociológica da nove lugares agro-pastoris da Serra da Lousã”, por Paulo Monteiro, Edições Salamandra, é um daqueles trabalhos que merecia nova edição devidamente atualizada. É uma tese de mestrado, habilmente adaptada a livro. O estudioso debruçou-se sobre maços de velhas cartas encontradas na Serra da Lousã, logo o primeiro lote que dizia respeito a uma família desde 1890 a 1950, correspondência de um casal, ele emigrado na América, ela serrana, tudo junto e atado com cordéis. Começava uma aventura sem precedentes para conhecer melhor esses lugares agro-pastoris que dão pelo nome Silveira de Cima, Silveira de Baixo e Cerdeira; Candal, Vaqueirinho e Catarredor; Chiqueiro, Casal Novo e Talasnal. Estes terrenos tinham um ponto de encontro, Santo António da Neve, local onde além da capela existiam os fundos poços em que no passado remoto se guardava no Inverno a neve que era transportada no Verão para Lisboa pelos copeiros de El-Rei. Era a solidariedade da serra, juntavam-se povos serranos da Lousã, Vilarinho, Serpins, Coentral e mesmo Castanheira de Pera. Juntavam-se a havia baile e comes e bebes, nem tudo era pândega, às vezes soltava-se a agressividade e um rigoroso sentido de clã, como consta de um relato a propósito da gente de Vilarinho: “os homens deles levavam os paus e metiam-nos cruzados a fazer uma sebe; as mulheres punham os farnéis dentro dos paus: ai de quem lá tocasse. E nas rodas, grandes, dos de Vilarinho, não podia entrar ninguém de fora – quem queria pedia ordem. Eles podiam entrar nos outros ranchos mas não queriam ninguém nos deles; nem os outros lá queriam entrar, com medo que lhes zurzissem”.

Para além deste evento, havia outros intercâmbios, deslocações a romarias, trocas de produtos (as trocas semanais tinham como eixo principal a vila da Lousã). Deslocavam-se esporadicamente a Mirando do Corvo ou a lugares do vale da Lousã (venda de carvão, compra de carretos de cal e telha); os negócios de bois faziam-se nas feiras vizinhas, caso de Poiares, Serpins, Condeixa e Coimbra. A grande relação festiva dos serranos era feita a meio caminho entre a vila e a montanha, no Santuário da Senhora da Piedade.

O autor questiona as origens e população destes nove lugares. A serra acaba a Sul no Zêzere e a Norte no vale profundo do rio Ceira. O seu ponto mais alto é o Trevim, com 1202 metros e os nove lugares aqui em estudo têm altitudes entre os 700 e os 820 metros. O escritor Mário Braga chamou a esta serra e às suas povoações “castelos de xisto”. Orlando Ribeiro diz que é possível falar de uma herança social castreja. Falando de Talasnal ela terá assentado em antigos castros; o casaria concentrado, tão discreto e apegado à terra, é determinado pela natureza do assento, posiciona-se entre defesas naturais, neste caso a confluência de duas ribeiras; há quem encontre um paralelo entre estes povoados e as construções das citânias e castros.

Os documentos mais antigos em que o autor encontrou referências a estes povoados datam do século XVII. E descreve assim o casario: “As casas são feitas de xisto escuro que se extraiu de algum grande buraco aberto para esse efeito; incluem normalmente duas lojas para gado, em baixo, e uma sala ampla em cima, com lareira baixa, onde vivia toda a família, por maior que fosse; mais tarde, sobretudo nalguns lugares, já houve divisões para a cozinha e o quarto de dormir: os telhados são feitos de telha canuda coberta depois com placas de ardósia negra, e não são forrados por dentro. Nas casas sem lojas por baixo o chão é térreo. Há 60 anos eram muito raras as casas com vidros: usavam-se só portas de pau. Não há casas de banho nem retretes, a única alternativa às terras sendo, por vezes, uma pia num pátio traseiro ou um buraco quadrado aberto no soalho que dê para as lojas. A iluminação era feita com lamparinas de azeite e candeeiros de petróleo; só no Candal os imigrantes vindos da América puseram luz elétrica – nos outros lugares a luz só chegou quando já estavam abandonados. A água corre pelos caminhos ou declives do lugar, tendo sido por vezes difícil beber água limpa: no Inverno por causa da enxurradas e no Verão por que ela escasseava, sendo então estancada de noite para de dia ser recolhida com cântaros e filtrada por um pano de forma a ficar potável. Por isso numa povoação vizinha destas, o Singral, os habitantes deram uma parte do seu (precioso) casal para que um proprietário da Lousã lhes captasse a água. Nos nossos nove lugares só no fim dos anos 50 a Câmara da Lousã começou as obras de captação de águas; e fontes só em 1970 as houve, no Candal e Casal Novo. A roupa, essa era lavada nos riachos e pequenas quedas de água, ou em pias comuns, ou, no caso do Casal Novo, num lavadouro que mais tarde se fez”.

Feita a apresentação do lugar, Paulo Monteiro centra-se sobre o modo de vida agro-pastoril de montanha. E escreve: “As terras de cultivo são muito pobres e além disso são muito inclinadas. Assim sendo, de Inverno as chuvas iam arrastando a terra e rapidamente deixavam o xisto quase à vista, obrigando as mulheres e os homens a carregar o solo, em cestos, do fundo dos vales para o cimo. Tão acentuado era o declive que não havia possibilidade de fazer socalcos. Uma boa parte dessas terras eram de seca, e no Talasnal e Catarredor há ainda memória de quem, sendo do Candal mas tendo casado no outro lugar alinhou o rego grande para as ‘fazendas’. As terras eram enriquecidas com o estrume natural, composto de mato, carqueja, tojo e folhas de castanheiro, misturados nas lojas do gado com os excrementos dos animais; também se costumava pôr cinza e cal na terra, vindo a cal em carretos do Vale da Lousã. Só nos anos 60 se começaram a usar adubos, primeiro na batata e mais tarde nos cereais. As culturas mais frequentes eram o milho, o centeio, as couves, os feijões e as batatas. A tecnologia usada consistia nas enxadas, ancinhos, pás e machadas, de madeira e de ferro, comprados na Lousã; o arado era de pau. Para além da agricultura os habitantes dedicavam-se à pastorícia. Cada lugar tinha entre 150 e 300 cabeças (entre ovelhas e cabras) que eram levadas em comum por um ou mais pastores saídos à vez de cada casa possuidora de gado. O gado pastava nos terrenos baldios da serra, mas no Inverno descia um pouco para altitudes menores; só três ou quatro vezes por ano é que tinha de ficar no curral devido ao mau tempo. Desse gado, o leite quase só era usado para os vitelos, embora as povoações que possuíam mais cabeças, nomeadamente o Vaqueirinho e o Catarredor, fizessem bastante queijo, que vendiam na vila”.

E havia a troca dos excedentes, era necessário ir comprar na Lousã roupas, calçado, sola para os sapatos, fósforos, a “sardinha ardida”, bacalhau, café, arroz, fruta (que era raríssima na serra). Diz o autor que para além da agricultura e da pastorícia os serranos subsistiam com as castanhas e azeitonas e fabricavam carvão. A produção de carvão era um exclusivo dos mais pobres, nomeadamente das mães solteiras e das mulheres viúvas ou abandonadas. Como expõe o autor: “Esse carvão era feito longe (muitas vezes de noite), nas zonas interiores e desertas da serra: ali se arrancava a cepa, que depois era colocada em grandes covas, com mato seco a arder por debaixo; quando a cepa estava em carvão ia-se pondo terra por cima, para evitar que ficasse em borralha ou cinza, até que a combustão finalmente se apagava. Podias estar dois dias para fazer dois sacos de carvão: dois dias retirados de vez em quando ao amanho das terras, porque normalmente fazer carvão não era uma atividade principal. Havia porém carvoeiros na vila que traziam por sua conta cinco ou seis arrancadores na serra durante meses seguidos, indo eles buscar apenas o carvão já feito, que vendiam na Lousã e em Coimbra”.

Tratando-se de uma análise sociológica, Paulo Monteiro aborda as formas de propriedade e de herança, as regas do casamento, as relações produtivas entre as casas, a diferenciação profissional e social.

Dado o enquadramento local da vida dos serranos, vamos adiante ver as suas vagas emigratórias que levaram ao definhamento de todos estes lugares, constituem um documento do maior interesse para ver como estes jovens chegaram a Lisboa, atravessaram o Atlântico para ir trabalhar nos transportes, indústria e comércio, no Brasil e Estados Unidos. São duas vagas diferentes, a primeira única e exclusivamente destinada a sair, sai-se por algum tempo e regressa-se ao final de alguns anos: o camponês já não é o mesmo durante e depois da emigração. Aqueles que foram mal sucedidos e se proletarizaram não podem regressar e retomar a antiga condição de pequenos proprietários. A segunda vaga leva-nos a procurar compreender o que se passou no Concelho da Lousã e limítrofes, que enfraqueceu a produção camponesa tradicional, tornou-se insuportável a miséria rural marcadamente nos anos de 194. Nota o autor que na década de 50 os setores não agrícolas só absorveram 20% do êxodo rural e apenas 10% na década seguinte, houve que emigrar para mais longe. De 1960 a 1981, enquanto a população do país cresceu aproximadamente 12%, a região centro menos 4,1%, mas de forma diferenciada, o da Lousã diminuiu bastante enquanto Castanheira de Pera aumentou mais de 7%, explicado pela criação local de empregue na indústria têxtil. Mas, dado assente, a vida agro-pastoril deixou de ter atração, são muito poucos os que aceitam viver fora de um modo de vida urbano, rodeados da esfera do consumo, da mobilidade e dos encantos da tecnologia.

Insiste-se que este precioso livro de Paulo Monteiro precisa de ser atualizado, é um trabalho científico escrito com empolgamento, devoção e ternura.

(Continua no próximo número)

 

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