Beja Santos: D. Filipa de Bragança e a mitologia amorosa de Salazar

“D. Filipa de Bragança, Lutar pela Restauração da Monarquia no Portugal de Salazar”, por Paulo Drumond Braga, Esfera dos Livros, 2019 é apresentada como uma bibliografia da casa real portuguesa em que releva a importância do papel desempenhado pela irmã mais velha de D. Duarte Nuno não só junto dos monárquicos portugueses como pela influência que teria exercido junto de Salazar para nobilitação e dignificação do ideário monárquico. Acontece que este documento elaborado com rigor indiscutível se deixa resvalar para um pretenso relacionamento equívoco entre D. Filipa e Salazar, o que deu ensejo a que num jornal digital se voltasse a incendiar a mitologia amorosa do ditador.

Vem de longe um esforço homérico para encontrar amantes, idílios, namoradas de ocasião, segredos da vida amorosa do ditador, não faltam idas à bruxa e visitas a curandeiros para apimentar os mistérios da sua intimidade. Escreveu-se muito, mistificou-se correspondência, como aquela trocada por Salazar em Coimbra com uma benfeitora cultural. Inequívoco, eloquentemente demonstrado, sabe-se que Salazar gostava de seduzir e nunca se furtava, por carta ou telefone ou encontros pessoais a receber senhoras. Andou-se muito à volta do seu relacionamento com Christine Garnier, uma escritora que conviveu com Salazar na década de 1950, sobretudo. O principal biógrafo de Salazar, Filipe Ribeiro de Meneses, chamou a atenção para a importância desse livro na renovação da imagem do ditador, este não escondia a empatia pela escritora, tratou-a com deferência e mimos, houve mesmo a prenda de um anel dispendiosíssimo, o ditador, no período final da sua vida política recebeu-a com o seu marido. E ainda não está estudada a cooperação que estabeleceram em missões que ele lhe pediu. A escritora conhecia bem o Senegal e em 1961 Salazar pediu-lhe para ir à Guiné e elaborar um relatório, é assunto que ainda não interessou a historiografia do Estado Novo.

Regressemos à investigação de Paulo Drumond Braga, há que questionar se ele põe todos os elementos em cima da mesa quando fala da Fundação da Casa de Bragança. Os monárquicos parecem assobiar para o lado quando falam do património dos atuais duques de Bragança. D. Duarte Nuno tinha uma vida mais do que remediada, era economicamente financiado pelos monárquicos portugueses, Salazar cumpriu fielmente o testamento do rei D. Manuel acerca da criação da Fundação da Casa de Bragança, está publicada a sua correspondência com a rainha D. Amélia pedindo-lhe claramente que constituísse património para este ramo descendente dos miguelistas, a viúva de D. Manuel II também contribuiu. Mas a questão de maior peso para a análise das atividades da Infanta D. Filipa é a falta de pano de fundo para a política estratégica de unidade que Salazar exigia às forças arregimentadas: monárquicos de todos os matizes, republicanos tradicionalistas, conservadores e ultraconservadores, partidários da extrema-direita e de uma direita unionista, enfim, uma diversidade que tinha como fronteira-limite a chamada oposição, denegrida pela expressão reviralho ou, em momentos nevrálgicos de propaganda histérica, os comunistas e os seus aliados. Era um manto de Penélope de que Salazar não abdicava. Até à década de 1950, a questão monárquica pesou na sua estratégia unionista, aquela linha conservadora do Antigo Regime servia-lhe às mil maravilhas, mesmo quando os monárquicos intrigavam entre si, se misturavam com Rolão Preto e os Camisas Azuis e até se deslumbraram com Hitler e Mussolini. O pós-guerra gerou uma nova classe de empreendedores e de tecnocratas, esmoreceu naturalmente na sociedade portuguesa qualquer pendência para uma causa real, a motivação republicana sobrepôs-se, a concorrência estava esgotada.

A investigação ilumina o papel da infanta, ela própria tece uma teia de relações, gere influência, socorre-se da epistolografia para servir a causa do seu irmão, antes e depois de 1946, quando se instalou definitivamente em Portugal. D. Duarte Nuno era discreto e nunca houve qualquer reticência na sua admiração a Salazar. A infanta escreve e procura pessoalmente o ditador, dá-lhe conta, sistematicamente, das atividades monárquicas, pede-lhe conselhos. Salazar furtou-se sempre ao contacto com D. Duarte Nuno, a figura que servia de ponte entre os monárquicos e a cúspide do poder absoluto era a infanta, dava muito jeito ter como intermediária uma mulher determinada, ideologicamente fiel, possuidora das informações mais fidedignas.

Não se pode dizer que Paulo Drumond de Braga alimente diretamente a mitologia amorosa de Salazar, é cuidadoso nas referências das cartas, há uma evolução mais do que compreensiva de uma forte amizade e um sentimento de gratidão. Cita alegadas relações amorosas que Salazar terá mantido ao longo dos anos mas é cuidadoso quando fala da infanta e do ditador: “Daí a Salazar ter tido algum tipo de interesse por D. Filipa vai alguma distância, tanto mais que se sabe como era hábil no relacionamento com o sexo feminino”. E cita mesmo uma opinião de Marcello Caetano: “Tinha prazer na convivência feminina e à sua roda giravam sempre várias mulheres em quem sabia despertar adoração sem limites, a quem recebia, com quem conversava, cujas vidas acompanhava com desvelado interesse, às quais enchia de pequenas atenções e enviava flores… Sempre com requintes de sensibilidade”. O autor depois vai pôr uns pauzinhos de mistério na correspondência entre ambos: “Atendendo a que o espólio de Salazar, que hoje se conserva na Torre do Tombo, guarda as muitas cartas ao ditador enviadas por D. Filipa entre 1940 e 1968, cabe perguntar: haveria outro núcleo de missivas que em 1970 foi, de facto, entregue à infanta? Se houve, que destino levaram essas cartas? D. Filipa conservou-as? Destruiu-as? Uma outra hipótese é a de que, afinal, não tenham sido entregues à irmã de D. Duarte Nuno as cartas que endereçou ao criador do Estado Novo ou que às suas mãos tenham somente chegado cópias delas”. Um historiador deve precatar-se das ambiguidades que alimentam a mitologia amorosa de Salazar e que diminuem drasticamente o interesse a quem pretende conhecer mais aprofundadamente a influência que a infanta teve no complexo puzzle da obsessão unionista de Salazar. É pena.

 

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