As nossas praias… Um reportagem de Florbela Caetano

Uma aldeia que vai a banhos

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É cada vez mais difícil atravessar o espaço, devido às toalhas que vão sendo estendidas. O que há pouco era relva verde está a ser coberto por um colorido de cores e pessoas. Ao chegar, encontrámos Florbela Alves sentada numa cadeira de praia a aproveitar o facto de ainda não haver muita gente em seu redor. Em fato de banho e abrigada na sombra de um chapéu-de-sol, a turista vinda de Leiria olhava a água. Mas talvez estivesse a ver algo mais do que a piscina fluvial – é que o marido e o filho estavam lá dentro a nadar. “Isto é muito bom para o meu menino pequenino andar à-vontade”, confidenciava. A zona de menor profundidade tem 0,5m e a de maior 1,5m – informação que está assinalada. É com esta segurança que Florbela se deixa ficar o resto da tarde na Praia Fluvial da Aldeia Ana de Aviz.

“Esta praia responde por si só. Está bem situada, próxima da vila” de Figueiró dos Vinhos, declara Gonçalo Brás, chefe de gabinete da autarquia. Por outro lado, em termos de espaço para se estar a apanhar banhos de sol, “a Aldeia tem maior área de utilização do que as Fragas [de S. Simão]”, continua. Quanto às infraestruturas, há casas de banho, rampas de acesso para pessoas com mobilidade reduzida, parque de estacionamento (incluindo estacionamento para bicicletas) e churrasqueira à disposição.

Já foi uma das praias fluviais distinguidas com Bandeira Azul, mas houve um problema na qualidade da água. Não se tendo registado um decréscimo de utilizadores e tendo em conta “os parâmetros bastante exigentes para que se tenha direito à distinção”, o executivo considera que “voltar a apostar na candidatura é prematuro”. “Temos que primeiro perceber por que houve problemas e quais poderão ser os potenciais focos de manutenção”, declara o mesmo responsável. Mas não é apenas de banhos na água e de banhos ao sol que se faz o ambiente aqui vivido.

De quarta-feira a domingo, a Bibliopraia funciona dentro do recinto. “É assim há quatro ou cinco anos e as pessoas aderem”, revela Eugénia Lima da Biblioteca Municipal Simões de Almeida (Tio) de Figueiró dos Vinhos. A bibliotecária fala-nos a partir do interior de uma cabana de madeira repleta de livros infantis, revistas e jornais, onde há lugar para um pequeno expositor com folhetos turísticos sobre o concelho. “Ainda tentámos apostar na literatura, mas as pessoas preferem as bandas desenhadas e as publicações periódicas”.

Enquanto conversamos, vários banhistas se aproximam. Uma menina quer trocar o livro que já leu por outro. Uma mulher quer levar consigo um mapa da Aldeia do Xisto. E um homem quer saber o que tem de fazer para poder requisitar uma publicação. Eugénia explica-lhe: “em troca de um documento de identificação, pode levar o que escolher ler. Quando terminar a leitura, deve devolver o jornal ou a revista, para que outras pessoas também tenham acesso”.

A Praia Fluvial da Aldeia não é, porém, só para quem reclama a tranquilidade e o silêncio da leitura. Todas as quartas-feiras de agosto, os ritmos do Zumba enchem a piscina. Quando os banhistas estiverem cansados, a fome chegar ou a sede teimar em não desaparecer, a solução passa por se dirigirem ao bar-esplanada da piscina. Aí também encontram música – não igual aos ritmos anteriores, mas o tipo de música e a conversa que o rádio ligado traz.

Pelo bar passam “cerca de 60 pessoas por dia, à volta de 300 por semana”. A funcionária Ana Mendes faz as contas de camisola azul vestida, a cor que identifica o staff. Por enquanto, Ana ainda não está muito atarefada, mas a tarde promete ser longa.

É também o bar, um concessionário da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, que tem a responsabilidade de contratar um nadador-salvador, o que está a ser difícil. O município “tem tentado promover o curso de nadador-salvador”, mas a imposição de requisitos mínimos de participantes fez com que o curso não abrisse em 2016, revela Marta Brás, vereadora da autarquia. O Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) aponta como regra que uma turma deve ter pelo menos 15 participantes, mas houve apenas cerca de dez inscrições. E Marta Brás é perentória nesta matéria: “É preferível realizar cursos com dez pessoas do que não realizar. Eventualmente o ISN terá que rever o limite mínimo imposto”.

Por enquanto, Florbela Alves faz o papel de vigilante como pode e na medida necessária. É a primeira vez que aqui vem e traz consigo um folheto distribuído pela associação Pinhais do Zêzere, com imagens das praias de Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Pampilhosa da Serra e Pedrógão Grande. “Vi a fotografia, achei bonita e viemos cá ver o espaço”, declara sorrindo.

Há quatro anos que a Associação de Residentes do Alto do Lumiar (ARAL) em Lisboa traz outro tipo de vigilantes até aqui. Os coordenadores Bárbara Oliveira e Luís Frota, de olhos postos nos jovens entre os oito e os 16 anos, organizam um dia de atividades na piscina da Aldeia, integrado num campo de férias. O objetivo “é mostrar às crianças e jovens uma nova realidade que não implique a praia habitual e o reboliço da cidade”, afiançam.

Ao longe, há gritos de guerra. O grupo prepara-se para entrar na água. Estão prontos para se divertirem. E Bárbara não duvida que “esta praia fluvial reúne todas as condições” para que tal seja possível.

Fragas de S. Simão: praia e aldeia em simbiose

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“Já cheira a rio”. A afirmação acompanha o sopro do vento que bate na verdura, o ruído dos pés a passarem sobre a terra e a balada das cascatas que correm ao fundo. Estamos a descer uma pequena encosta e a irmã e as três amigas da autora da afirmação detêm-se por breves momentos. Inspiram e sentem a brisa que lhes traz o odor a água fresca que corre sobre as rochas. A castanheirense Mariana Pais não lhes mentiu – cheira mesmo a rio. Era tudo o que pediam para esta tarde de férias de verão, ou seja, “um sítio mais sossegado do que o Corga e do que as Rocas” [praias fluviais na Castanheira de Pera], confidenciava Mariana 30 minutos antes de aqui chegarmos. Meia hora antes de estarmos rodeadas por fragas – as Fragas de S. Simão.

O espaço faz parte do património natural e paisagístico do concelho de Figueiró dos Vinhos. Mariana Pais e a irmã gêmea, Marta Pais, só visitaram o local uma vez, mas ficaram tão impressionadas que já se sentem capazes de promover o destino: “é um bom sítio para relaxar e para tirar fotos”, afirmam. “O único senão é que temos que usar chinelos quando queremos ir para a água… há muitas pedrinhas…”, continuam. Mas “a água não é muito fria e é límpida, muito límpida”, pelo que o assunto fica arrumado.

Seguimos por uma ponte de madeira e as câmaras fotográficas já estão a postos. Parece que tudo é motivo de enquadramento através da objetiva. Por agora, é mesmo preciso é prosseguir com a marcha para encontrar uma rocha à sombra. “Temos que encontrar uma boa rocha para estender a toalha. Espero que não haja tanta gente como quando cá viemos…”, vai comentando Mariana, que se refere a um problema de sobrelotação já identificado pelo executivo da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos (CMFV).

Minutos antes, a esta preocupação somavam-se outras. As amigas das gêmeas perguntavam-se se haveria casa de banho, local onde pudessem comprar água e se haveria nadador-salvador. As respostas são simples: sim, há casa de banho e até mesmo com instalações próprias para deficientes; sim, há um bar onde podem comprar água, cerveja, sumos e petiscar, além de ser disponibilizada uma churrasqueira de livre acesso, repuxos e parque de merendas; e nadador-salvador só em alguns fins de semana, devido ao problema nacional de dificuldade de recrutamento desses profissionais. Somado a tal, o espaço tem ao dispor rampas de acesso para pessoas com mobilidade reduzida e um parque de estacionamento.

“A intervenção feita pela CMFV é uma forma de manutenção e melhoria das infraestruturas disponíveis”, afirma Marta Brás, vereadora do município. Depois de por volta do ano 2000 o executivo em funções ter transformado o espaço numa praia fluvial com pontes e calçada, criando acessos às zonas de água, cabe ao atual executivo assegurar “condições de higiene e saneamento, através da recolha de resíduos e limpeza das matas”. Esta é “uma via para melhorar a estadia” dos turistas, declara.

A preocupação por garantir a atratividade do espaço ganha ainda mais relevo pelo facto de a praia se enquadrar na área de influência da aldeia do Casal de São Simão e, assim, na rede das aldeias do xisto. A integração da praia nesta rede acaba por ser apropriada enquanto “marca muito forte em termos de comunicação, dinamização e intervenção patrimonial”, revela Gonçalo Brás, chefe de gabinete da autarquia.

Praia e aldeia estão a 15 minutos de distância a pé, através dos caminhos de terra utilizados antigamente por quem lavrava as terras e trabalhava nos moinhos. É nesta simbiose que as Fragas de S. Simão ganham uma “dimensão e destaque totalmente distintos de qualquer outra zona do concelho”, atesta o mesmo responsável. “Foi, por exemplo, devido a esta articulação que surgiu o restaurante Varanda do Casal”, na Aldeia do Xisto.

Talvez seja por causa desta e outras transformações que Margarida Rufino, 20 anos e natural de Aveiro, comente que o espaço “está um pouco diferente”. Enquanto come um gelado na esplanada da praia fluvial e aproveita para secar o cabelo ao sol, revela que veio aqui há 10 anos. Lembra-se que “havia duas rochas gigantes que faziam um arco em V”. Margarida e os pais eram “muito aventureiros” e queriam “trepar essas rochas”. Mas as alterações não mudaram a perceção de Margarida sobre um aspeto: “Isto é lindo, lindo, lindo!”, exclama.

E é por querer ainda mais provas da beleza da praia que uma das amigas das gêmeas manifesta impaciência por não estarem a explorar o espaço em redor. A aveirense Rute Pina levanta-se e as outras seguem-na.

Caminham sobre os trilhos de terra e pedras, ao longo da corrente. Pequenos montes de cinzas de fogueiras antigas, talvez deixados por campistas, são uma constante. Ouve-se a língua inglesa aqui e a francesa acolá. O cantar das cigarras também faz parte da melodia. Esta é a banda sonora do espaço onde há brisa, um balouço e pequenas piscinas naturais que vão aparecendo. As folhas caiem enquanto as crianças equipadas com braçadeiras se colocam sobre os quatro membros e trepam rochas que chegam aos seus joelhos.

É neste cenário que Rute declara: “Tenho que convencer os meus pais a vir cá um dia…”. E as gêmeas sorriem, orgulhosas por terem algo como as Fragas de S. Simão para mostrar a quem as visita.

Florbela Caetano

 

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