Apresentação do livro “A Regoa na Memória da República”

Pedro Lopes

Pedro Lopes

A Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos foi o palco escolhido para, no dia 24 de Julho, Pedro Lopes apresentar o seu livro “A Regoa na Memória da República”.

De salientar o grande interesse que este lançamento despertou junto dos figueiroenses mais ligados à causa cultural, registando-se casa cheia para assistir à apresentação.

Álvaro Garrido, docente e coordenador do grupo de História da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra era a pessoa que estava anunciada para proceder à apresentação, mas compromissos inadiáveis não lhe permitiram estar presente, pelo que foi o próprio autor, Pedro Lopes a apresentar o livro.

Antes porém, Marta Braz, vice-presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos fez a abertura da sessão, cumprimentando o autor e os presentes, e justificando a ausência do presidente da Câmara, que por motivos de agenda de última hora não pode estar presente.

De seguida, Fernando Martelo apresentou o autor: “olhando para a plateia que tenho aqui à minha frente, isto é quase chover no molhado, porque vocês todos conhecem muito melhor o Pedro do que o conheço eu.”

Traçou depois o percurso académico e profissional de Pedro Lopes, a quem reconheceu desde muito jovem bastantes qualidades, e que estudou no concelho, tendo-se depois licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com apenas 22 anos, começando imediatamente a trabalhar como professor. Concluiu também o Mestrado em História Contemporânea de Portugal na FLUC e em Ciências da Educação na área de Especialização em Administração Educacional em 2012 no Instituto de Educação da Universidade do Minho. Fez também um curso de especialização em Organizações Educativas e Administração Educacional que concluiu em 2008 no Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho.

Deu aulas em Pedrógão Grande, em Vila de Rei, na Sertã e Régua, tendo pertencido nestas escolas à estrutura directiva das mesmas.

Referiu também que o autor, para além da sua actividade profissional, desempenhou também funções políticas, tendo sido presidente da Junta de Freguesia, presidente da Assembleia de Freguesia, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal e membro da Assembleia Municipal, sempre em Figueiró dos Vinhos. Acerca do percurso político de Pedro Lopes, disse Fernando Martelo “de todas as facetas do Pedro, eu acho que a menos relevante será mesmo a política… e ele não quererá repetir a experiência… porque estou em crer que pelo menos da maneira que hoje em dia se exerce a política em Portugal, pelo menos para um homem de bem não é muito apelativo o chamamento à política.”

Sobre o livro, Fernando Martelo disse que este dá uma perspectiva do que foram os primeiros tempos da República e fim da Monarquia, não só na zona da Régua mas também no país inteiro, tendo ficado seduzido não só pela forma como está escrito, de forma simples e interessante de seguir, com muitas transcrições da época, mas igualmente pela semelhança de algumas partes do livro com os tempos actuais, tendo lido algumas passagens, terminando a “apresentar ao Pedro os meus parabéns pelo magnifico livro que aqui nos deixa”.

Falou de seguida o autor, Pedro Lopes, que fez a apresentação do seu livro.

Começou por explicar que este livro resulta do “ser” do professor, que não pode ser um mero reprodutor daquilo que alguém escreveu, porque muitas vezes é preciso fazer investigação, preencher algumas lacunas que acontecem no conhecimento que está disponível. E surgiu de uma necessidade que sentiu quando foi para a Régua dar aulas, em 2005, vinda de uma prática que implementou na sua carreira, incutida pela sua professora do ensino secundário em Figueiró dos Vinhos, Margarida Lucas, que dizia que “devemos ir sempre à história local, para melhor fazermos compreender àqueles que estão perante nós a razão de ser das comunidades”.

Na Régua, recorrendo às monografias locais, percebeu que existia um período praticamente em branco na história no Douro, entre a “Ferreirinha” (Dona Antónia Ferreira, da Casa Ferreira nos finais do Sec. XIX) e a fundação da Casa do Douro, nos anos trinta. Ora, “a História tem os seus silêncios, e é preciso interpretar os silêncios que a História nos coloca, e portanto tive que partir à descoberta”.

Para se documentar nesta pesquisa, valeu-se da imprensa local, já que nesta época existiam na Régua quatro jornais, o 5 de Outubro, O Independente Réguense, O Mensageiro da Virgem e O Douro, considerando que “a existência ou inexistência de um jornal aquece ou arrefece, ou gela completamente aquilo que é o debate político”. A leitura destes jornais prolongou o trabalho de investigação por dois anos e meio, em sucessivas deslocações entre a Régua e a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. E, abrindo um parêntesis, enalteceu o grande trabalho levado a cabo pela Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos, biblioteca associada da UNESCO, nomeadamente pelo seu actual responsável Sérgio Mangas, que numa iniciativa de Álvaro Gonçalves e do anterior executivo, levou a cabo a digitalização da imprensa local, desde a última década do Séc. XIX até à actualidade, uma “tarefa hercúlea muito útil a todos”.

Sobre o livro, considerou que se trata de uma obra essencialmente pedagógica, para a qual partiu, como é habitual em História, do enquadramento geral, para a questão particular focada na Régua, iniciando por isso com a abordagem dos símbolos nacionais: a Bandeira, o Hino Nacional, e “como sou figueiroense não podia deixar de o referir” do busto da República, que se encontra no Museu e Centro de Artes em Figueiró dos Vinhos. Aqui novo parêntesis para referir a importância do novo Museu num contexto de turismo cultural, bem como o trabalho desenvolvido por Margarida Lucas e Miguel Portela na divulgação do património cultural do concelho, trabalho que carece de continuação, lembrando o falecido To Zé Silva “com certeza um dos grandes historiadores que Figueiró teria”, apelando a que “a cultura não seja vista como um fardo no orçamento municipal, mas que seja sobretudo vista como um potencial elemento do progresso do concelho no seu desenvolvimento integrado… e peço à Marta que na sua estratégia para a cultura que continue a desenvolver este trabalho, que vem com certeza de várias Câmaras atrás…”

Retomando o livro, explicou que se divide essencialmente em duas partes, uma primeira parte que aborda a evolução do republicanismo até à República, visto como uma estratégia que se começa a desenhar nos meados do séc. XIX e culmina com a fuga do Rei Dom Manuel II na sequência da revolução de 5 de Outubro, e a segunda parte com assuntos mais locais, como o abastecimento de água, o aparecimento de energia eléctrica, a história do imposto camarário sobre o bacalhau e a revolta que se lhe seguiu, a questão do Douro, que levou a outra revolta popular em 1915, com incêndios na repartição de finanças e na secretaria da Câmara, campanários da Igreja, e uma carga militar sobre a população em Lamego de que resultaram mais de duas dezenas de mortos. Esta segunda parte aborda também aspectos nacionais, como as eleições para as Constituintes de 1911, a não era universalidade do voto, o anticlericalismo, a ditadura de Pimenta de Castro e a de Sidónio Pais, a educação, a economia e a emigração, a Grande Guerra e a pneumónica.

No final os presentes tiveram oportunidade de fazer uma degustação de vinho do Porto a acompanhar o pão-de-ló de Figueiró dos Vinhos, uma combinação que também promete dar que falar, como o livro de Pedro Lopes.

António B. Carreira

 

 

 

 

 

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