António Varanda: Toque de sinos

Há meia dúzia de anos, escrevi o seguinte texto:

«Os sinos tocam e logo na Lena ou na Leitaria os resistentes dizem “Lá se foi mais um!”. No entanto, desta vez foi uma Maria, pois o mais novo do grupo matinal, aquele que na semana passada passou no teste de audição, afirmou com convicção que o toque era a anunciar morte feminina.

Com tanto toque de finados, o bronze do sino lá se vai desgastando a um ritmo bastante acelerado – quem sabe se não vai ser necessário substituir os mesmos nos próximos anos (?). Talvez fosse melhor os senhores da Troika fazerem um depósito na conta da igreja, uma vez que, pelo andar da carruagem, os paroquianos que vão ficando não vão ser suficientes para custear a compra de novos sinos e, ao que julgo, a Comunidade Europeia não dá subsídios para sinos.

Os casamentos terminaram; agora há é ajuntamentos, já que não existem euros para cerimónias e banquetes. Aquela coisa do copo de água já foi… agora tanto faz beber água na Fonte do Pinçal como não; casamento é que não, custa muito dinheiro! Como não se fazem casamentos como no passado, já ninguém conhece o toque dos sinos a anunciar casório, e lá se foi a profissão de fotógrafo.

Nascimentos e batizados também andam de mãos dadas, logo, os sinos também não tocam a anunciar a entrada de um novo cristão no seio da comunidade cristã.

Já não posso com o toque de finados, pelo que vou propor um toque de sinos alegre, nesta terra, quando nascer uma criança, assim como, pelo menos, a oferta de um ramo de flores aos pais, caso o poder local não tenha meios financeiros para oferecer, por exemplo, umas fraldas e um perfume de bebé.

É, pois, chegada a hora de implantar uma verdadeira política ativa de incentivo à natalidade, assim como de atração de investimento para as Terras da Ribeira de Pera.

Caso nada se inverta nos próximos anos, vão existir mais salas de aula do que alunos.»

Mal eu sonhava que, volvido este tempo, os sinos da igreja matriz ficariam silenciados por força de um vírus, o Coronavírus, um estranho viajante que da China viajou para o mundo inteiro, sem precisar de passaporte ou visto de entrada na casa dos pobres ou dos ricos.

O tal Corona fechou o bar da Lena e das Lenas de Portugal, restaurantes e hotéis de poucas e muitas estrelas; fechou escolas e universidades, fábricas e fabriquetas; colocou novos e idosos engaiolados.

Este malandro foi superior a todos os agentes fiscalizadores do Estado, colocando todas ou quase todas as atividades económicas de quarentena, por tempo indeterminado.

Quando esta guerra terminar, os sinos do mundo inteiro deveriam tocar largos minutos, até acordar efetivamente a consciência meia adormecida do Homem, para que este, na verdade, abandone o seu individualismo e espírito consumista e destrutivo do planeta Terra.

 

 

 

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