António Pedro Carreira – Pluridisciplinaridades Temáticas

Um mês depois da tragédia há ainda muitas questões sem resposta. O tempo não é de apurar responsabilidades, pelo menos para nós populares não. Mas já alguém deveria estar a tratar disso. Eu não falo da investigação para apurar se o incêndio teve mão criminosa ou se deflagrou devido a causas naturais. Não me interessa. E não me interessa porque em relação a esse tema, não tenho dúvidas. Não foi a trovoada que provocou o incêndio. Pode tê-lo agravado mais tarde? Admito que sim.

Mas para mim, a questão central não é como, mas sim “o quê” e “porquê”. Isto porque, independentemente de como o incêndio teve início e das condições atmosféricas que conjugadas proporcionaram uma propagação incontrolável, falta perceber muita coisa. Falta perceber como é possível termos uma Protecção Civil que não está preparada para reagir a uma catástrofe desta natureza. Como é possível serem mobilizados apenas doze homens para o primeiro ataque, mantendo-se nas primeiras horas de fogo com esse dispositivo? Como é possível que os meios aéreos, em sete horas de actuação possíveis, actuem apenas pouco mais de duas horas? Como é que a informação não chega aos operacionais (já por si em número insuficiente) da GNR, para que as estradas fossem cortadas? Como é que não chega um plano de acção para que as pessoas fossem evacuadas em segurança? Como é que não chega uma informação à população de como deveriam proceder? O que é que falhou? Porque é que falhou?

Note-se, e que fique bem claro: na minha opinião, nem Bombeiros, nem GNR, nem Sapadores podem ser acusados de nada! Todos fizeram o que podiam, como podiam. As acusações de que “não tinham ordem para apagar”, faz parte de uma hierarquia que tem que ser respeitada. Um plano de acção, só funciona se houver confiança desde o fundo até ao topo da hierarquia. Falhou o topo.

Ninguém quer acusar ninguém de crime. Ninguém queria que isto acontecesse por certo. Ainda assim, é preciso que cada um assuma as suas responsabilidades. Começando pela Ministra da Administração Interna. Foi na área de responsabilidade dela que houve mais falhas. Não foi a Constança Urbano de Sousa que falhou, foram áreas tuteladas pelo Ministério da Administração Interna que é liderado pela Ministra, e como tal, é ela que tem que assumir que efectivamente não soube liderar uma equipa que devia estar preparada para reagir.

Se a prevenção é o primeiro sinal de protecção, então também as autarquias e as autoridades locais, devem assumir as suas responsabilidades na falta de medidas preventivas que saiam do papel para o terreno. Cumprir e fazer cumprir a lei. Ordenar o território florestal, nomeadamente nas zonas onde o eucalipto abunda e fazer respeitar as distâncias das casas e das estradas. Enfim, medidas que permitam uma resposta capaz aos incêndios e sobretudo, mais importante do que tudo, proteger a população.

Se tivermos em conta que num incêndio com estas dimensões, em Castanheira de Pera pelo menos, tínhamos um Centro de Saúde fechado, em que mesmo depois de aberto, contou maioritariamente com serviço voluntário, em que chegavam feridos a toda a hora, em que chegaram os nossos Bombeiros em estado grave, eu pergunto: onde estava a resposta adequada a isto? Como é que os Bombeiros demoraram tanto tempo a entrar em unidades hospitalares com condições para os socorrer enquanto queimados. Onde está a resposta para um cenário de emergência? Quem assumiu a responsabilidade até agora? Ouço frequentemente dizer que “ninguém está preparado para isto”. Mas tem que estar. Pagamos para que esteja. E temos que exigir que esteja.

Depois sabemos de Comandantes Distritais formados em Protecção Civil que são afastados dos cargos e substituídos por outros com formação em Direito e Desporto e Lazer… Como podemos nós confiar? Como podemos nós afirmar que estamos seguros e no caminho certo?

Mas há mais responsáveis e por certo os mais culpados, esses somos nós todos. Todos nós que votamos e não exigimos, todos nós que vemos o perigo todos os dias ao pé de nossas casas e não denunciamos, que viramos a cara ao lado aos perigos a que estamos sujeitos. A todos nós que não lutamos pelos nossos direitos e que não exigimos estar protegidos. Todos nós, somos os maiores culpados destes acontecimentos, trágicos, tristes, mas que podem ser um alerta para que desempenhemos o nosso papel enquanto cidadãos, mais vigilantes, mais responsáveis, mais activos e sobretudo com mais consciência de que a nossa segurança deve ser sempre a nossa prioridade e o foco principal da nossa luta.

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