António Pedro Carreira – Pluridisciplinaridades Temáticas

E o Tetra já cá mora!

Foi o culminar de uma época em que o Benfica foi constantemente e de forma preocupante, quase incompreensível, fustigado por lesões. Parecia que quando as coisas finalmente se começavam a compor, lá vinha mais uma dor de cabeça. E isto durou até ao último terço da época, em que naturalmente, depois de recuperados, os jogadores necessitam de jogar para recuperar o ritmo competitivo. Alguns não o conseguiram readquirir esta época. Lembro-me nesta temporada de não termos ninguém para jogar ao lado de Jimenez, da quebra de rendimento da equipa quando Fejsa se lesionou, do pesadelo que foi quando Eliseu foi chamado a render Grimaldo lesionado e se lesionou também passado duas semanas, quando André Almeida veio dar uma perninha à direita da defesa encarnada para render Semedo e logo de seguida foi colocado à esquerda…  e até me lembro da tremedeira que foi equacionar o regresso de Luisão ao 11 titular. Todas estas adversidades e respectiva resposta, têm um elo de ligação que parece que ainda tem que dar mais provas para conquistar a confiança dos mais cépticos, esse elo é Rui Vitória. Enorme, Gigante, quem não vacila, não cai nas rasteiras que lhe passam. Muito assertivo, muito perspicaz, humilde “q.b.”, muito focado nos objectivos e na sua postura, aquela que o define. Um líder no balneário, que consegue incrementar no talento dos seus jogadores o sentimento de confiança. Não tem medo de apostar porque “os seus jogadores são os melhores e se não o fossem, se não estivessem preparados para dar uma resposta à altura, não eram jogadores do Benfica – foi esta frase mais ou menos trabalhada que foi repetindo ao longo da época quando questionado acerca da opção que iria render mais um jogador lesionado.

Sim, Rui Vitória é o meu treinador, porque me revejo na sua forma de estar e porque, com menos nota artística, alcançou o que outros não alcançaram, algumas vezes com planteis muito mais ricos em qualidade. Sim, é o meu treinador porque não quer para ele os louros nas vitórias, prefere assumir as responsabilidades nas derrotas e deixar para quem materializa e converte as vitórias no que elas são, fruto de bons desempenhos e boas interpretações das instruções do treinador, os louros das vitórias: para os jogadores. Rui Vitória é o meu treinador porque não se deixa embrulhar na postura baixa e arrogante dos nossos rivais, preferindo focar-se naquilo que interessa, que é o Benfica.

Mas há sempre a tentativa de conotar estes campeonatos com o “colinho” e com a “Liga Salazar”, com a APAF, tudo formas de procurar esconder e disfarçar o óbvio e aquilo que não conseguem desmentir: o Benfica foi a equipa mais regular e a melhor equipa do campeonato. Bom, poderei até aceitar a opinião daqueles que dizem que foi a equipa “menos má”. Mas afinal, o menos mau não é o melhor?

Depois também fico a pensar: será que foi a APAF, o colinho ou o Salazar que fizeram com que o Porto conseguisse apenas 11 pontos em 21 nos últimos 7 jogos antes desta jornada decisiva? Ou será que se a sorte aliada ao grande Guarda Redes que tem o F.C. Porto foram decisivos na Luz, para que esses 11 pontos não fossem apenas 9?

Será que foi a APAF ou o Salazar que fizeram com que o Sporting levasse 3 em casa com o Belenenses e fosse perder a Santa Maria da Feira? Ou terá sido “colinho” o que aconteceu em Alvalade contra o Benfica, quando Artur Soares Dias não assinalou nenhum dos 3 penaltis que ficaram por marcar? E quando o Sporting em duas tentativas não consegue vencer o Chaves ditando a sua eliminação da Taça de Portugal uma semana após o empate em Chaves para o campeonato? Para não esquecer: lembram-se daquela exibição contra o pior Braga dos últimos anos, em que os minhotos venceram em Alvalade por 0-1? Foi colinho?

Não, não foi. Arranjem-se as desculpas que se arranjarem, há factos indesmentíveis neste campeonato. Um deles é que o Benfica foi melhor. Outro é que Nuno Espírito Santo pareceu menos mau porque o projecto do Sporting falhou de forma categórica. Mais um facto que salta à vista, é o facto de que afinal o catedrático, tinha uma boa estrutura e boas condições para trabalhar, deixando bem claro que não foi Jesus que fez o Benfica campeão, fez parte do projecto apenas, não sendo fundamental nem indispensável como quis fazer parecer. E agora se vê que o “Sr. 7 Milhões” e o “Sr. Vocês Não Percebem Nada Disto”, falharam. Não temos um Sporting assim tão diferente do que aquele que tínhamos antes. Bom, antes venceu uma Taça de Portugal e antes dessa Taça de Portugal, conseguiu um 2º lugar… falta a Taça para estar igual, igual.

Claro que falar do Tetra sem falar de João Carvalho e da sua importância para “os segurar” até conseguirmos recuperar e voltar às boas exibições, seria esquecer uma parte muito importante neste campeonato. O miúdo de 20 anos que conseguiu fazer, sem tremer, o que eu fiz milhares de vezes quando era pequeno, marcar um golo ao Grande Casillas, só que ele marcou ao verdadeiro, àquele que chegou ao plantel principal do Real Madrid aos 17 anos, oito meses depois de nascer o João que, mesmo estando perante uma lenda, não vacilou ao saber que o seu clube de coração precisava da sua precisão na conversão daquele gesto técnico sublime que silenciou o Dragão. A ele também devemos este inédito Tetra.

Outro condimento para juntar à euforia, foi o Grande Benfiquista, Salvador Sobral, ter vencido o Festival da Canção. Claro que incluir “Grande Benfiquista” neste excerto dedicado ao Salvador, é só uma “bicada” aos nossos rivais, porque esta é uma vitória de Portugal. Mas, mais do que a vitória de Portugal e de Salvador Sobral, ele conseguiu algo que me deixa mais orgulhoso e esperançado, deixando “Salvador” ser um pouco mais do que apenas o seu nome: conseguiu colocar esta juventude a escutar boa música, música com sentimento, aquela que faz ficar com “pele de galinha” ao escutar, conseguiu pegar nesta geração – como diz Salvador – do “fogo de artifício” e colocar um país a cantar “Amar pelos Dois”, cheio de sentimento, cheio de orgulho, a prestar atenção a um tema que não tem um DJ a colocar efeitos, nem uma melodia forte e preenchida, nem grandes jogos de luzes, nem um artista alto e musculado… tem música, nos seu estado mais puro, mais belo, mais simples, cantada com sentimento por uma figura que tem tanto de simpático como de desajeitado; e ainda bem, porque se não fosse assim, as pessoas não se teriam focado no que realmente interessa na música: o Amor.

*António Pedro Carreira opta por escrever os seus artigos na ortografia antiga.

Comments are closed.

Scroll To Top