António Pedro Carreira: Pluridisciplinaridades Temáticas

Pluridisciplinaridades Temáticas

Bom, chegámos ao último número de mais um ano. E havia tanto para escrever se este artigo fosse um resumo do ano de 2016… os atentados no aeroporto de Bruxelas, na Turquia, em Bagdad, em Munique, no Afeganistão, entre outros reclamados pela maior ameaça da actualidade, o Estado Islâmico. Os testes nucleares na Coreia do Norte, os trágicos sismos no Equador e em Itália, e o furacão Mathew no Haiti. O processo de impeachment de Dilma Rouseff e os Jogos Olímpicos no Brasil. Portugal vence o Euro 2016!! O nobel da literatura para Bob Dylan, a eleição de Donald Trump (como é possível?!?!), a morte de Fidel Castro, eleição de Marcelo Rebelo de Sousa que criou em Portugal um novo conceito de Presidente da República, a eleição de António Guterres para secretário geral da ONU, a 4a bola de Ouro de Ronaldo, e muitos, muitos outros acontecimentos que marcaram este ano de 2016, dos quais também seria injusto se não incluisse nos destaques o record de visitantes da Praia das Rocas. Foi de facto um ano incrível, cheio de acontecimentos marcantes, uns trágicos, outros emocionantes mas, certamente que o ano 2016 ficará marcado na memória de todos.
20guterresVoltando à actualidade, gostaria de fazer um reparo. Para mim, Ronaldo é o melhor do Mundo e o melhor de todos os tempos, já não é de agora que penso assim e a história vai dar-me razão. É de facto alguém que vai ficar na história de Portugal, e que o merece indubitavelmente. Mas, e é por isso que às vezes me sinto embaraçado com o meu país, porque carga de água é que no dia em que Ronaldo venceu a Bola de Ouro, os nossos meios de comunicação social dão mais destaque a esse prémio do que à tomada de posse e início do mandato de António Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas?!? Isso abre um leque de várias questões, surgindo em destaque as seguintes:
Teremos nós noção do que significa o cargo que António Guterres desempenha?
Não será também uma obrigação da comunicação social, dar o devido destaque a uma informação dessa magnitude e elucidar os cidadãos para a importância desse cargo e para as suas competências no plano Mundial?
É que António Guterres é só o homem em quem estão neste momento concentradas importantes decisões, como questões humanitárias, mediação de conflitos entre nações no âmbito da preservação e luta pela Paz Mundial e Segurança Internacional… só.
Como disse Miguel Sousa Tavares, afirmação que subscrevo na íntegra, “António Guterres é neste momento um português maior do que todos nós e maior que Portugal”, isto obviamente num contexto figurado de que o seu cargo é, na perspectiva da comunidade internacional, maior e mais influente do que o próprio país. Apenas nós e a nossa imprensa não compreendemos isso, porque não temos uma imprensa comprometida com a correcta divulgação e formação de cidadãos mais interessados e informados… é assim que depois se elegem “Trumps”…
Agora gostaria de partilhar um “post” que publiquei no meu Facebook, relativamente à morte de Fidel Castro, que, certo que não foi nenhum santo, mas também não merece ser assim espezinhado como tem sido por algumas facções de direita mais radical, ou por pseudo-intelectuais que são incapazes de recuar no tempo para interpretar factos e contextos históricos, preferindo ficar presos a uma pseudo-evolução da sociedade, que também ela se tem vindo a demonstrar imperfeita:
“Muita gente desconhece quem foi e o que fez Fidel Castro. Se por um lado há quem o queira comparar a uma espécie de Nelson Mandela mais mauzinho, por outro há quem o queira rotular como um criminoso e ditador sem escrúpulos.
20fidelBom, em primeiro lugar é preciso compreender em que contexto emerge Fidel e que Cuba existia antes de Fidel.
Fidel Castro é, em primeiro lugar, um produto da história. Cuba vivia numa ditadura, sob um regime autoritário, corrupto, em que o fosso entre ricos e pobres era enorme e crescente e em que os interesses externos enriqueciam os corruptos e em nada faziam mover a economia estagnada de Cuba.
Os interesses americanos, nomeadamente com jogos de azar, tráfico de droga, negócios lucrativos com a máfia americana implementando o mesmo sistema de coacção sobre os já debilitados comerciantes que tinham que pagar a vários grupos mafiosos para sobreviver, negócios de prostituição e pobreza extrema num país em que a entrada de capitais americanos deveriam ter contrapartidas para tirar o povo da miséria e em que visivelmente só pioravam a situação, criando empregos com salários ainda mais baixos.
Foi esta a Cuba que Fidel encontrou e contra este regime que lutou. Foi em Fidel que o povo viu esperança para literalmente lhe matar a fome. Fidel planeou a revolução e procurou seguidores sozinho, executou a revolução com o apoio de Ernesto Che Guevara e do irmão Raul Castro mas, acima de tudo, o maior dos apoios veio do povo cubano que desesperava por um líder do povo e para o povo.
Chegado ao poder Fidel Castro implementou políticas que protegiam os mais desfavorecidos e que diminuíam o fosso entre ricos e pobres. Essas políticas não foram bem recebidas, nem pelos mais ricos, nem pelos americanos que alarmados por estas políticas e vendo afectados os seus interesses, cortaram relações diplomáticas com Cuba e ao ver que em nada influenciaram a conduta de Fidel, planearam e falharam uma tentativa de o assassinar.
Esta tentativa de assassinato e o corte de relações foi um ponto de viragem que fez Fidel passar a odiar, ainda mais, os americanos e face à ameaça crescente de apoio americano a um golpe de estado, reprimiu opositores e aproximou-se da União Soviética que imediatamente após o corte de relações lhe piscou o olho. Fidel aceitou o seu apoio em troca de ajudas militares nomeadamente com a cedência de pontos estratégicos, isto em plena Guerra Fria dando origem à célebre crise dos mísseis.
Foi esta crise que, após estar resolvida e a ameaça nuclear ultrapassada, fez os Estados Unidos bloquear e isolar o país e impedir que todos os países com relações comerciais com os Estados Unidos tivessem relações comerciais com Cuba. Este embargo que durou mais de 50 anos, fez Cuba ficar dependente de países com regimes comunistas. Fidel apoiou revoluções comunistas noutros países na tentativa de estabelecer novas parcerias comerciais mas este embargo fez crescer alguma contestação à sua liderança, a acrescer aos ricos, corruptos e facções criminosas estabelecidas em Cuba.
Fidel Castro reprimiu esses rebeldes mas acabou por se tornar num líder autoritário, que fez com que largos milhares de cubanos pedissem o apoio dos Estados Unidos como refugiados políticos, certo é que nesses milhares de barcos seguiam muitos criminosos e mafiosos que vieram a estabelecer as suas organizações nos Estados Unidos e foram apelidados de “a vingança de Fidel”, pelo aumento da criminalidade com a chegada destes refugiados.
Nas prisões cubanas morriam prisioneiros às mãos da tortura e das condições desumanas em que viviam. Paralelamente Cuba desenvolveu-se em várias áreas, mais notoriamente na medicina, mas também em políticas ambientais. Fidel ofereceu ajuda gratuita para tratar feridos de Chernobil, ofereceu apoio na África do Sul para o fim do Apartheid e ofereceu formação a médicos em Timor, participou em inúmeras ajudas e diversas formas de apoio humanitário mas nunca foi, para os seus opositores, verdadeiramente humano ou igualmente benfeitor, o que o levou a ser acusado de, com as acções humanitárias, apenas pretender reverter a situação cubana e juntar apoiantes contra o embargo cubano, situação que nunca admitiu resolver directamente com os americanos.
Este foi Fidel Castro. Nunca poderei apelidar Fidel de um animal sem coração, nem de um benfeitor de que o mundo vai sentir falta.
Fidel Castro foi simplesmente Fidel. Não comparável a nenhum outro líder. A nobreza da sua luta e dos seus gestos para com o mundo e sobretudo para com o seu povo, não apagam a forte repressão que implementou em Cuba, a privação da liberdade de imprensa, a constante vigilância dos cidadãos e a forma como agia perante qualquer sinal de oposição.
Mas Fidel nunca poderá ser acusado de uma coisa, de não ser fiel ao seu povo, aos seus princípios e de não amar Cuba.
O julgamento das suas acções, esse será eterno e penderá entre o ser humano que lutou por um povo e o governou segundo as suas convicções e o tirano, repressor que permitiu tortura e violação dos direitos humanos e não me atrevo a ser eu a fazê-lo.
Termino como comecei, Fidel Castro foi um produto da história e o reflexo do desespero de um povo perante os abusos do capitalismo, o resto foi moldado pela mesma história e pelos acontecimentos numa relação causa efeito que nunca será consensual”.
Para terminar, gostaria de desejar a todos os leitores, e agora também a todos os ouvintes da Rádio S.Miguel e da Rádio Pampilhosa FM, a todos os amigos e conhecidos, bem como a todos os que gostam e não gostam do que escrevo, a toda a gente, mesmo aos inimigos que julgo não ter, mas se os houver, também para eles, desejo um Feliz e Santo Natal e um Próspero Ano de 2017. Espero que juntos possamos acompanhar e analisar a actualidade nacional e internacional, de preferência com acontecimentos positivos que são muito mais agradáveis! A todos, mas mesmo a todos, um forte abraço e até 2017!

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