Aires B. Henriques – PEDRÓGÃO GRANDE COMEMORA 880 ANOS DE EXISTÊNCIA

“Pedrógão Grande quer alterar o dia do seu feriado Municipal”. Com este título noticiava há pouco a Agência Lusa a intenção da Câmara de Pedrógão Grande alterar a data do seu feriado municipal de Julho para Fevereiro, mês em que – por intermédio do príncipe D. Pedro Afonso – foi concedido o primeiro foral ao concelho no ano (supostamente) de 1206. Na origem da notícia o facto de, segundo o Presidente da Autarquia, o dia 24 de Julho “não diz(er) nada em termos de história”.

O mesmo declarou-se convicto de que a alteração do feriado é uma matéria consensual, pois que o dia 24 de Julho (data do actual Feriado Municipal) nunca foi mais do que a consagração da tradicional Feira de Ano, data deveras importante para o comércio do concelho mas sem qualquer relevância histórica, que recorde o seu passado e as suas “grandezas” como comunidade com quase 900 anos de história.

Considerou ainda o referido autarca que deve ser valorizado D. Pedro Afonso, filho bastardo de D. Afonso Henriques e meio-irmão de Sancho I, Alferes-Mor do Reino, a quem se deve a outorga desse primeiro foral (“foral velho”), assim “lamentando que os fundadores do concelho estejam relegados para becos e quelhos” do valioso Centro Histórico da Vila de Pedrógão Grande.

Trata-se, na verdade, de uma injustiça a reparar pois a importância de D. Pedro Afonso excede em muito a sua qualidade de ‘ilustríssimo filho do rei D. Afonso Henriques’. A outorga desse foral é a sequência lógica de, a 17 de Maio de 1135, o seu próprio pai – o futuro rei D. Afonso Henriques – ter doado a três cavaleiros (Uzbert, Monioni Martiniz e Fernando Martiniz), porventura três distintos cruzados, os territórios de Petragonum – a denominada “Herdade de Pedrógão” – para a povoarem e desenvolverem.

Esta doação régia concretizou-se 60 anos antes do primeiro foral conhecido de Pedrógão Grande (1195), como meio de pagamento ou compensação pelo empenho e esforços desses cavaleiros no ambicioso projecto de expansão do nosso primeiro rei a caminho de Santarém e Lisboa (1147).

A doação assume ainda especial importância pela indicação dos limites do território da “Herdade de Pedrogão”, fixando os seus termos pelo Rio Zêzere acima até ao Rio Unhais e nascente da Ribeira de Mega (confrontando com Alvares e Ameoso), e por ele até às vertentes da Serra da Lousã (Squalos e Salzeda), pelas quais entrava no Rio Algia (Algir / Ribeira de Alge), circundando Nadavi (Ana de Avis), e por ele abaixo até tornar a entrar no Zêzere. “Continha o dito termo cousa de seis léguas de comprido e quatro de largo”.

Verifica-se também que, por comparação dos limites dessa escritura de doação de 1135 com os da carta de foral de 1195, a Herdade de Pedrógão integrou povoações e áreas que serão posteriormente cedidas às vilas de Miranda do Corvo, Aguda, Avelar, Maçãs de Dona Maria e do futuro concelho de Figueiró dos Vinhos (que recebe foral em 1204).

Essa doação de 1135 insere-se na clara estratégia de D. Afonso Henriques avançar para sul, depois de quatro anos antes ter mudado a sua Côrte de Guimarães para Coimbra. Pedrógão Grande passa então a fazer parte da linha defensiva que visa proteger a capital do Reino pelo seu flanco oriental, onde o maciço da Lousã (a 1.200 metros de altitude) e o contíguo fosso (Cabril) do Zêzere (que corre a 200 metros de profundidade) se revelam propícios à vigilância e controlo das eventuais investidas mouras vindas de sul e sudeste.

Em caso de perigo, facilmente o alerta podia chegar a Coimbra, para o que se contava com um conjunto de atalaias discreta e estrategicamente dispostas ao longo dos vales por onde corriam as ribeiras de Pera e Mega (a oriente) e de Arouce (a ocidente). Assim se entendem e entrosavam as pequenas fortalezas que nos limites da Herdade de Pedrógão terão existido, a avaliar pelos topónimos conhecidos de Castelo do Vale da Armunha (na Ribeira de Mega), Castelo Velho (na foz da Ribeira de Pera) e as Atalaias (na zona da Graça/Bouçã). Em simetria com o Castelo do Vale da Armunha (a oriente), o Castelo da Lousã (a ocidente) desempenharia papel complementar, indispensável para a gestão de um corredor de comunicações entre Pedrógão Grande e a Côrte em Coimbra, facilitado na sua travessia pelo cume do Trevim.

A este esforço de vigilância correspondeu uma política simultânea de povoamento e fixação de populações e, mais tarde, mesmo de comércio, aproveitando da antiga rota romana que passava por Pedrógão Grande e daqui se dirigia para Coimbra. Os forais fizeram claramente parte integrante dessa estratégia defensiva, de estabilização e aprovisionamento em bens da nova capital do Reino, concretizada de modo mais notório entre 1131 e 1142, quando se reforçam os castelos da linha da frente (Montemor-o-Velho, Soure) e constroem novas fortificações (Germanelo, Alvorge, Pombal e Leiria), a par da atribuição de cartas de foral a Miranda do Corvo (1136) e Penela (1137).

Sublinhemos de passagem que o foral de Miranda do Corvo foi concedido em finais de 1136 por D. Afonso Henriques a um cavaleiro de nome Uzberto (e a sua mulher Marina), possivelmente aquele cruzado a quem um ano antes ele próprio doara a “Herdade de Pedrógão”. Assim se compreenderá que mais tarde, pelo “foral velho” de 1195, concedido pelo príncipe D. Pedro Afonso a Pedrógão Grande, este tire “uma grande nesga ao longo do rio Algia (Alge) até ao Zêzere, dando alguns pedaços às vilas de Miranda, Aguda, Maçãs e ao Avelar, pelo dito rio Algia acima; e para baixo, o mais a Figueiró, fazendo-o vila (…)”.

As datas históricas disponíveis diferem, por vezes, de acordo com os diferentes autores. Assim, segundo a obra “Portugal Antigo e Moderno”, de A. Pinho Leal e A. Pedro Ferreira, “D. Afonso Henriques mandou povoar (Pedrógão Grande) em 1176, e a deu (a vila) a seu filho natural D. Pedro Afonso, que lhe deu foral em Fevereiro de 1206, segundo Franklin, e em 1180, segundo o padre Carvalho”.

Segundo o Dr. A. J. Ferreira Quinteira (que cita o Prof. Dr. Damião Peres), o “foral velho” de Pedrógão será de 1206, confirmado em Coimbra por D. Afonso II, em 1217, e por D. Afonso III, em 1250. O Dr. José Costa Santos – baseado nessas fontes – repete as mesmas datas. Mas a verdade é que os documentos, em que ambos estes estudiosos se sustentam e transcrevem (em latim), não referem essas datas, mas sim a Era de MCCXXXIII, a que corresponde o ano de 1195. O próprio Dr. José Costa Santos, na sua obra mais recente (O Foral Manuelino de Pedrógão Grande de 1513), abandonou a data de 1206 para afirmar que a data correcta de outorga desse “foral antigo” é 1195.

Note-se ainda que, à semelhança da Carta de Foral atribuída a Miranda do Corvo em 1136, o Foral Velho de 1195 de Pedrógão Grande refere (em latim) expressão idêntica (“facta stabilitatis karta mense februario” / Era MªCCªXXXªIIIª”) com o mesmo possível sentido de carta de confirmação, estabilidade e foro, mas – ao contrário daquela – não menciona o dia da sua assinatura protocolar.

Em resumo, retira-se do exposto que a 17 de Maio do próximo ano (2015) Pedrógão Grande celebra 880 anos de existência, face ao documento mais antigo que nos dá conta da “Herdade de Pedrógão”, como território avançado do Condado Portucalense, cinco anos antes de D. Afonso Henriques se proclamar Rei de Portugal (1140) e doze anos antes do mesmo conquistar Santarém e Lisboa aos mouros.

Tal facto faz da vila de Pedrógão Grande um dos mais antigos Centros Históricos do país, muito antes – por exemplo – de Leiria, Tomar, Santarém, Óbidos, Évora, Marvão e Castelo de Vide, cuja beleza e fama fazem deles destinos privilegiados de cultura, turismo e deleite de quantos os visitam.

A dimensão inicial da Herdade de Pedrógão, doada em 1135 por D. Afonso Henriques, não foi impeditivo de novas repartições de território e do posterior desenvolvimento de outras vilas e concelhos, como Figueiró dos Vinhos, que só surge em 1204, quase 70 anos depois do nascimento de Pedrógão Grande.

Por tudo isso, a importância de Pedrógão Grande no esforço de consolidação do projecto político de Afonso Henriques justifica bem que se proclame do tradicional patriotismo dos pedroguenses e tudo se faça para bem preservar o seu actual Centro Histórico. Este, para além de anteceder Portugal em cerca de 60 anos (como uma das mais antigas nações da Europa), proporciona à sua Vila (sede de concelho) a fama de ser “uma das mais curiosas do distrito de Leiria, com as suas ruas estreitas e as suas casas com o tipo arquitectónico do séc. XV, abundância de granitos trabalhados em portas e janelas e a sua bela situação, entre o Zêzere e a Ribeira de Pera, numa região densamente povoada de pinheiros e oliveiras”.

À comprovada antiguidade dos territórios que virão a integrar a “Herdade de Pedrógão” se deve ainda a lenda da Princesa Peralta, que tão estreitamente liga o seu fado à origem e baptismo do concelho, assim como une os territórios da Serra da Lousã que se estendem por ambas as suas vertentes, aproximando Condeixa, Miranda do Corvo e Lousã (a ocidente) a Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Sertã (a oriente). Uma boa justificação para a criação e desenvolvimento turístico nos dias de hoje de uma promissora “Rota da Princesa Peralta”…

Por sua vez, permanecem fortes dúvidas quanto ao rigor da data de 1206 (foral velho), pois não há evidência escrita de documento (carta de foral) que a legitime, ao mesmo tempo que o mês de Fevereiro aparece mencionado no citado foral sem indicação de um dia concreto.

Por tudo isso, não nos restam dúvidas, de que o dia 17 de Maio de 1135 é o dia de nascimento do concelho de Pedrógão Grande, e a então carta de doação de D. Afonso Henriques o seu genuíno atestado de parto. É dia de festa! Apenas resta a sua consagração como dia de Feriado Municipal, a instituir quando o concelho celebra 880 anos de existência!… E é já de hoje a um ano!…

E D. Afonso Henriques e seu filho, D. Pedro Afonso, bem merecem uma estátua – a par de condigno registo toponímico -, por um dia terem confiado nos pedroguenses!

Em Pedrógão Grande, a 17 de Maio de 2014

Aires B. Henriques

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