Aires B. Henriques: Major Neutel de Abreu (Parte final)

Continuação do número anterior

O mágico “Ma-hon”

Por último, não resistimos a transcrever uma reportagem do ilustre jornalista republicano e maçon Hermano Neves, aquando da sua viagem por África e pelo norte de Moçambique, onte teve o privilégio de contactar com o então capitão Neutel de Abreu, ou “Ma-hon”, como os negros deslumbrados o apelidavam. A mesma está datada originalmente de Setembro de 1913, tal como publicada pelo jornal “A Capital” e transcrita no nº 841, de 6 de Dezembro de 1913, do semanário “Figueiroense”. Segue o texto sobre “Ma-hon”:

“Quelimane, Setembro 1913” – “Se alguém de entre vós um dia vier à Macuana, daqui a vinte anos que seja, pergunte por Ma-hon. Eu tenho a certeza absoluta que não podem ter desaparecido ainda os vestígios do supersticioso respeito que a simples enunciação do vocábulo desperta em toda a região”.

“Para os negros, Ma-hon é alguma coisa mais que um homem, porque nunca conceberam que no frágil barro de que nós somos formados possam co-existir todas as faculdades que lhe atribuem. Para eles é uma curiosa criatura que com a simples inspecção de um olhar lhes descobre, no fundo da alma, todas as torpezas e todas as traições; tem o inexplicável condão de adivinhar as coisas, sabe castigar com justiça, premiar com largueza e castigar com piedade. Ma-hon possui a cólera dos deuses e o enternecimento das pompas; ruge, como um temporal, em frente dos soberbos, mas comove-se como uma criança em frente dos miseráveis. Por vezes, veste os que andam nús, e nos anos escassos é para ele que apelam os famintos”.

“Foi ele quem, percorrendo a região de lés a lés, em toda ela primeiro afirmou o prestígio da nossa Pátria. Preferia sempre a penetração pacífica, a política conciliadora, a coberto da qual a nossa bandeira ia flutuando pelo sertão dentro, sobre os frágeis postes militares que contruía”.

“Era, então, como o oceano em calmia; mas se alguém ousava desrespeitar essa bandeira, o oceano revolvia-se em fúria e a sua missão cumpria-se, se necessário fosse, a ferro e fogo”.

“Muito tempo andou errante pelos matos à frente de um punhado de indígenas fiéis. Marchava como eles, a pé, sobre a areia esbrazeada; sorvia, como eles, a água sórdida dos charcos, comia como eles as raízes da terra. Dormindo sob o céu constelado, ao acaso das étapes, o traiçoeiro cacimbo das noites tropicais, penetrava-lhe nos ossos, e muitas vezes os membros tremiam-lhe, convulsivos, sob a violência da febre. Um dia levaram-no quase morto para o hospital. Diziam aos pretos que era gravíssimo. Quase desesperado o estado de Ma-hon. E os pretos, por única resposta, sorriam incrédulos, porque sabiam perfeitamente que Ma-hon não pode morrer nunca”.

“Quando ainda simples comandante do posto de Mongiqual, o actual capitão-mor da Macuana, Neutel de Abreu – que outro não é Ma-hon – ardia de impaciência para que o deixassem ocupar o interior do distrito. Os indígenas conheciam-no nesse tempo pelo pitoresco epíteto de Monomacaia, ciclone, porque  mandava derrubar  as árvores das matas para sulcar de estradas a região. Ao cabo de longa insistência permitiram-lhe que fosse. Hoje, a Macuana, esse misterioso hinterland de que só muito vagas noções chegavam até nós, está finalmente aberto à civilização e ao domínio português. Amanhã, os ecos das colinas e das serras, que tantas lendas povoaram, vão ser despertados pelo silvo estrídulo das locomotivas; nas vertentes férteis elevar-se-ão habitações europeias, dominando as culturas; o indígena, civilizado pelo trabalho, prestará de boa vontade o concurso dos seus braços para desenvolver as riquezas da terra. Foi Neutel de Abreu quem rasgou o caminho. E, perante essa obra imensa que eu antevejo, e em presença do esforço sobre-humano de Ma-hon, que neste momento evoco, fico a cismar na ingénua condescendência do bom povo português que consagrou tantos heróis de África, sem que lhe fizessem afinal conhecer os verdadeiros heróis”.

“Esse homem simples, eminentemente modesto – tão modesto que receio, se estas linhas caírem sob os seus olhos, que vá mogoar-se por ter falado dele -, trabalha há mais de vinte anos nas colónias portuguesas de África, e trabalha com um amor, uma patriótica dedicação, absolutamente inexcedíveis. Raras vezes tem ido à Europa, porque o facto de ter empregado aqui o melhor da sua actividade prendeu-o definitivamente ao país que pacificou. Terminou a época das guerras; a sua obra, agora, é uma obra de paz. Em Nampula, sede da capitania-mor que administra, elevam-se já construções hospitaleiras, casinhas muito brancas e confortáveis, e o raro viajante que passa por ali já deixa a terra com saudade. É o esboço de uma cidadezinha que ainda não vem nos mapas, mas nem por isso é menos encantadora  e alegre. Água magnífica, solo esplêndido, culturas e pomares onde Neutel capricha cultivar todos os frutos da Europa…”.

Ma-hon vive hoje ali permanentemente; o guerreiro transformou-se em colono. Lá vão procurá-lo, de muito longe, os pretos para pedir justiça, para pedir sol, para pedir chuva, para pedir tudo. Com eles dissipa quanto ganha. E o facto de ser pobre – quando ao cabo de muito menos canseiras tantos encontram uma opulência certa -, mais realça, a meu ver, a beleza moral deste homem singular. Hei-de contar, um dia, aos leitores de A Capital dezenas de episódios que tenho recolhido acerca dele; e melhor poderão apreciar então a sua curiosa figura de português de outros tempos, cuja existência, hoje em dia, quase parece um anacronismo”.

“Está ligado à região por um grande afecto. Como se lá tivesse nascido. Quando estive em Nampula lembro-me de ter ouvido dizer, magoadamente, à vista do panorama imortal que se desfruta: – Pensar que tantos portugueses, a fugir da miséria, partem para o Brasil e para o Pacífico, onde quanta vez os espreita miséria bem maior!… E isto quando esta terra, nossa e bem nossa, só espera que a fecundem com um pouco de trabalho, para generosamente produzir a felicidade e a abundância!”.

 

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