Aires B. Henriques: CASA DE PEDRÓGÃO GRANDE EM LISBOA – Vítima de injustiça e incompreensão

 

 

A caminho dos 90 anos de existência, em plena “Baixa” lisboeta, criada para acolhimento dos pedroguenses que em Lisboa buscavam trabalho e um novo modo de vida e bem estar, a Casa de Pedrógão Grande ganhou fama de “Embaixada em Lisboa” quando há mais de um decénio uma sua Direcção – a que o signatário presidiu – entendeu dever dar-lhe um maior realce como elo de representação e divulgação do seu concelho na “Grande Lisboa”, em cuja área de influência residem mais de dois milhões e meio de portugueses, de gostos diversificados, cultura e rendimento superior à média nacional.

 

Apesar do seu passado de trabalho e glória ter por vezes sido substituído pelo conformismo e inacção, a Casa de Pedrógão Grande conseguiu sobreviver até hoje sem os adequados apoios (institucional e financeiro), bem revelador do total desinteresse do distante poder autárquico, normalmente falho de ideias e receoso dos dirigentes regionalistas em Lisboa. Mesmo assim por ela passavam dirigentes e ideias que, desde a primeira hora da sua fundação, fizeram chegar ao concelho ajudas para os mais pobres, para o hospital, para a instrução popular (em incentivos, livros e material escolar), melhoramentos nas aldeias, estradas, pontes (v.g., Gravito) e fontes, etc. Até uma torre nos anos 60 do Séc. XX adossaram à Capela da Sª dos Milagres, padroeira do concelho, mas estes nunca chegaram, sobretudo na maior compreensão que o Município pedroguense devia votar ao concelho e às suas gentes, no reforço da aproximação dos que residiam tão distantes.

 

Até onde chega a nossa memória, o ano de comemoração do cinquentenário da Casa de Pedrógão Grande, é um marco importante da afirmação regionalista, em que prepondera o director Manuel Jacinto Nunes, e a cultura pedroguense teve a possibilidade de se exibir em Lisboa, no recinto da sua “Feira Popular” (a Entrecampos), onde – por exemplo – recordamos uma exposição de pintura de João Viola (já bem reveladora dos seus dotes artísticos) .  Mas será sobretudo no período subsequente a 1998 que a Casa de Pedrógão se afirma nesse grande objectivo regionalista, de aproximar os pedroguenses na província a aqueles outros radicados na cidade. Para isso contou sobretudo o entrosamento de propósitos com a antiga Junta de Freguesia de S. José, em Lisboa, em cuja área se sedeavam diversas outras associações, algumas das quais com origem beirã. Durante vários anos aí se realizam os “Encontros de Culturas Regionais” onde houve a possibilidade de vermos exibir-se – com agrado generalizado – o Rancho Folclórico de Vila Facaia (sob a orientação da Profª Lila), a par do da Ribeira de Celavisa (Arganil) e do grupo de danças e cantares da Xuventude de Galiza.

 

Em espaço onde sobressaíam as bandeiras da Casa e do Concelho, exibidas no belo recinto do Jardim do Torel (junto ao Campo de Santana), houve a chance ainda de aí expor livros para venda, de autores regionais, e de proceder à distribuição de folhetos e postais ilustrados – editados pela própria Casa – de divulgação do património e belezas do Cabril e Pedrógão Grande. Prontamente a Direcção da Casa de Pedrógão Grande quis dar corpo ao seu grande projecto como “Embaixada da Amizade e da Confraternização” pedroguense, avançando com a promoção de diversas excursões automóveis ao concelho, dando-o a conhecer entre os lisboetas, suscitando o interesse das novas gerações e criando uma dinâmica económica e turística que contribuísse para o seu desenvolvimento. Ficaram inesquecíveis as recepções que culminaram nos restaurantes “O Churrascão” e “Lago Verde”, após visitas ao Centro Histórico da Vila, ao Convento de nª Sª da Luz, ao Cabril e Monte da Sª da Confiança. Conjugados esses passeios com os almoços comemorativos dos aniversários da Casa (que anual e alternadamente se realizavam em Lisboa e Pedrógão), houve ainda ensejo para – a partir de 2004 – o acentuar da importância e belezas da Foz da Ribeira da Pera, a que se alia muito da nossa história, mística e poética local. Indiscutivelmente que as gentes e o comércio local entenderam e louvaram tais iniciativas que, hoje, mais do que nunca, justificam serem reanimadas.

 

Não esquecemos também o apoio e acompanhamento por parte da Casa de Pedrógão das acções que, de forma espontânea, foram desenvolvidas pela então Delegada Escolar – Profª Noémia Barão – e que envolveram em Lisboa a visita de professores ao agrupamento modelo das escolas primárias do Torel e, em outras oportunidades, o usufruto da oferta cultural lisboeta. Por sua vez, visando uma maior aproximação à comunidade local, dando a conhecer os seus propósitos e finalidades programáticas, a Casa de Pedrógão passou a participar com um stand nas Festas do Concelho (a 24 de Julho), o que lhe possibiltou beneficiar das sugestões aí colhidas e de um especial carinho por parte de quem o visitou, tido como essencial para a continuação do seu trabalho de aproximação das gentes aqui residentes com as da sua diáspora. Infelizmente, porém, porque porventura receosa da sua acção local, a Câmara Municipal de Pedrógão – apesar da insistência nos pedidos – nunca acedeu à concessão de quaisquer instalações (das várias devolutas na Vila) para que a Casa de Pedrógão melhor se desdobrasse na sua actividade em prol do concelho. Mais do que receio, sobretudo má vontade e falta de visão que, aliada a idêntica postura e inoperância noutras áreas, empurrou o concelho para o lastimoso estado a que chegou…

 

A recuperação das segundas e terceiras gerações de descendentes é essencial para a revitalização do concelho e de todo o Vale do Zêzere, e isso passa por uma forte concertação de políticas com as autarquias vizinhas, investindo na promoção do que de melhor a região dispõe para oferecer. O potencial é imenso, faltando apenas divulgá-lo. Foi consciente disto que a Direcção da Casa de Pedrógão, limitada aos escassos meios financeiros de que dispunha, se abalançou em actividades recreativas e culturais, na realização de um conjunto de exposições de fotografia, edição de postais ilustrados e livros. De entre aquelas, sublinhamos as diversas Noites de Fado e os Concertos de Música ao Vivo em que foi possível contar com o pedroguense Rui Paulino David, já então um conceituado artista, com um longo e aplaudido percurso musical, para delícia de quantos o escutam.

 

Por sua vez, em termos de livros e edições com vista á divulgação do concelho, da sua cultura e património, há a destacar: “O Cabril do Granada – local de mística e poesia” (2004), “O Povo Ratinho” (2005), “O Pedrógão de Roberto das Neves” (2006) e “Espiritualidade e Sociedade em Portugal ao Tempo de Frei Luís de Granada” (2007). E mais não se fez porque, preferindo a concorrência à cooperação, os então autarcas preferiram negar à iniciativa da Casa de Pedrógão Grande uma outra monografia de divulgação do concelho…  Mesmo assim, nesta área, é manifesta a diligência e capacidade da Casa na promoção da nossa região onde, com vantagem, vemos que suplantou a iniciativa e actividade camarária (não sendo sequer necessário juntar-lhe a colaboração prestada à Junta de Freguesia de Pedrógão Pequeno na preparação e edição em 2013 da sua monografia local: “Pedrógão Pequeno, Jóia do Cabril”).

 

A importância da Casa de Pedrógão Grande em Lisboa avalia-se ainda pela circunstância de, aquando da Direcção presidida pelo Sr. Manuel Jacinto Nunes (que acumulava com a de Provedor da Misericórdia), se ter conseguido criar no concelho dois museus (v.g., Casa-Museu Manuel Nunes Correia e Museu Pedro Cruz), quando o concelho de nenhum dispunha. Entre outras intervenções em prol da valorização do concelho não podemos deixar de igualmente referir os pedidos de classificação de uma Árvore de Interesse Público (magnólia sempre-verde, de folha perene, com  200 anos), no sítio da Ponte dos Frades (Troviscais)[1]; bem como o pedido de classificação pelo IPPAR do Forno de Telha Romano da Cotovia, colocado perante acrescidos riscos de destruição, e por nos termos estatutários ser obrigação da Casa velar pela preservação do património local, pondo-o ao serviço da cultura, do desenvolvimento e do bem-estar das gentes da região.

 

Visando chamar atenção para o Cabril e Vale do Zêzere, assim se procurando dinamizar e dar alento a um território em que se acentuavam os sinais de inércia, empobrecimento e desertificação, em Maio de 2007 a Casa de Pedrógão Grande em Lisboa viu concretizados os seus esforços de celebração do 5º Centenário do Nascimento de Frei Luís de Granada com uma grande jornada de convívio da Família Dominicana de Portugal (chefiada pelo seu Prior Provincial, Frei Miguel dos Santos), a qual teve lugar nos concelhos de Pedrógão e da Sertã (no Monte da Sª da Confiança) com a presença de cerca de 300 participantes, vindos de todos os pontos do país.

 

Se esta é uma das iniciativas que melhor podem definir do labor da Casa de Pedrógão Grande e da sua importância como agente cultural e dinamizador do concelho que representa, outras lhe cabem dentro do lema que um dia adoptou – “sem dinheiro, mas com ideias” – para aplicar no melhoramento da imagem e desenvolvimento local. Entre elas sublinhamos uma outra iniciativa que há quase vinte anos lançou, sem dinheiro, sem meios, mas com confiança e crente na boa vontade e colaboração associativa do Clube Náutico de Pedrógão Grande (então presidido por Fernando Fernandes): – um Passeio de Barco entre Vale de Góis/Pedrógão Pequeno e Álvaro/Vilar da Amoreira, “como um meio de proporcionar aos nossos amigos e associados um dia agradável sobre as águas da Albufeira do Cabril e, ao mesmo tempo, despertar a atenção das autarquias locais para o potencial turístico e de desenvolvimento que o Rio Zêzere encerra”. E, de facto, maior êxito não podia ser alcançado, pois, sem dinheiro, mas com entendimento e vontade de cooperar, a iniciativa vingou, integrada desde então pela autarquia pedroguense no seu cartaz anual de festas (da Feira de Ano, em Julho).

 

Quanto fica exposto explica, afinal, que a Casa tenha beneficiado de um voto de louvor da Assembleia Municipal de Pedrógão Grande, aprovado na sua reunião ordinária de 27/07/2005, “pela maneira digna como tem promovido, prestigiado e projectado o nosso concelho, com a realização de vários eventos, culturais, sociais, recreativos e turísticos (…)”. De igual modo, em 1/12/2012, o Dr. Pedro Santana Lopes (do Gabinete de Vereadores do PPD/PSD da CM de Lisboa) “manifesta o (seu) apreço pelo serviço à causa pública e espírito cívico que a Casa de Pedrógão Grande tem prestado à comunidade, convicto da sua importância na vida das pessoas e da nossa cidade de Lisboa”, bem como pela forma como a sua Direcção tem “dignificado o nome da Casa de Pedrógão Grande, com uma entrega que deve ser digna de registo e que muitas vezes é esquecida”.

 

Tais louvores e apreciações são bem o testemunho do trabalho realizado pelas suas Direcções, bem assim como o legado deixado, crentes no papel positivo que a Casa de Pedrógão Grande pode desempenhar, assente no seu desempenho e numa “Grande Lisboa” particularmente vocacionada para o turismo e para a cultura, onde se localiza a sede desta associação regionalista e vivem mais de dois milhões e meio de pessoas, detentoras de formação, cultura e rendimentos superiores à média nacional.

 

Quando os cidadãos e a classe empresarial pedroguense já compreenderam do papel relevante da Casa de Pedrógão Grande na criação de uma nova imagem e na aproximação das gentes da cidade e do campo, em prol do desenvolvimento local, não entendemos nós a recente desqualificação – por parte da Câmara Municipal de Pedrógão Grande – da sua “Embaixada em Lisboa” como agente cultural! Porquê rejeitada a Casa de Pedrógão Grande do processo preparatório da candidatura de Leiria a Cidade Europeia da Cultura em 2027? Porquê afastada agora quando antes fora convidada e participara das sessões preparatórias dessa candidatura?

 

Trata-se, por quanto atrás deixámos dito, de uma flagrante injustiça para com uma instituição que já deu sobejas provas de quanto é capaz para ajudar o concelho a sair do fosso para que o empurraram. Mas mais grave ainda é vermos nessa decisão a incompreensão e incapacidade dirigente que, depois de mais de 20 anos de má gestão autárquica, já julgávamos ultrapassadas. Mudaram as cabeças dirigentes mas, ainda que exibindo cores diferentes, não mudaram as da incompetência, do medo e as dos fantasmas de antanho… E, pelos vistos, persistem ainda as dos boatos, da incerteza, da precipitação e incoerência… Assim sendo, o futuro é negro!…

 

Pedrógão Grande, em 8 de Setembro de 2019

 

Aires B. Henriques

 

 

[1] – Classificada ao abrigo do Decreto-Lei nº 28.468, de 15/02/1938. Vide Aviso nº 5384/2005, da DGRFlorestais, publicado no DR nº 101, II Série, de 25/05/2005.

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