Aires B. Henriques – António Alves Bebiano, o Visconde de Castanheira de Pera

António Alves Bebiano nasceu a 21 de Julho de 1831 na freguesia de S. Domingos de Castanheira de Pera, integrada ainda no concelho de Pedrógão Grande, e faleceu a 4 de Novembro de 1911. Virá a ser conhecido sobretudo como “Visconde de Castanheira de Pera”. Era filho de José Alves, natural de Eiras, freguesia do Campelo, do concelho de Figueiró dos Vinhos, e de Maria da Silva, natural de Castanheira de Pera [1].

 

Em 1852, com 21 anos de idade, fez-se à vida e partiu para o Brasil, vindo a trabalhar, em Queluz de Minas [2], “na casa comercial do abastado fazendeiro, tenente-coronel e comendador Joaquim Lourenço Baeta Neves, português natural de Góis, que antes emigrara para o mesmo país, onde casou com Maria Fortunata Monteiro de Barros Lobo”.

 

Em 1868 António Alves Bebiano regressa a Portugal, “com bens de fortuna, com experiência de vida e com projectos que prontamente quis pôr em prática”,  lançando-se na grande obra da industrialização de Castanheira de Pera que lhe é reconhecida. Vem casado com Ana Luísa Monteiro de Barros Baeta Neves, clara “representante da aristocracia mineira, dotada das mais altas virtudes morais e da mais requintada educação, que até ao final da sua vida não lhe podia ter sido mais dedicada, trocando para sempre a sua pátria e a sua família por Portugal e por aquela outra não menos numerosa a que tal casamento deu origem”[3], pois dessa união nascerão seis filhos.

 

Decidido a fazer da Ribeira de Pera uma das mais importantes zonas produtoras de lanifícios no país,  António Alves Bebiano não hesitou em importar de França os maquinismos mais modernos,  apesar das enormes obstáculos que sabia ter de vencer para os conseguir colocar em Castanheira de Pera, do outro lado da Serra da Lousã.  Verdadeira epopeia em que – apesar da ausência ou deficiência das estradas existentes – os equipamentos não deixaram de “galgar a serra, palmo a palmo, puxados por bois e por homens”, tornando finalmente possível – praticamente sem apoios públicos – transformar uma modesta aldeia serrana numa próspera área fabril.

Assim se funda em Castanheira de Pera a Fábrica dos Esconhais, em 1877, na periferia da vila, e, mais tarde, a Fábrica dos Rapos.  Segundo o Inquérito Industrial de 1881[4], a primeira não só era uma das maiores, mais completas e modernas no país, como uma das mais afamadas quanto à qualidade dos lanifícios. A atestar esse prestígio virão a seu tempo as medalhas concedidas pela qualidade dos produtos expostos em Filadélfia, Paris (1878), Rio de Janeiro (1879), Coimbra (1896), e ainda as medalhas da República Francesa e da «Companhia Fomentadora das Indústrias e Agriculturas de Portugal».

 

Mas António Alves Bebiano não se notabilizou apenas por essa façanha, de apetrechamento e modernização da indústria de lanifícios, mas também por ideias e iniciativas inovadoras, energia e dinamismo que, na sua época, soube imprimir à sociedade local, o que em muito beneficiou e contribuiu para o desenvolvimento de todo o concelho e Vale da Ribeira de Pera. Assim o entendeu também o rei D. Luís que – como o diz por decreto de 27 de Janeiro de 1881 -, “atendendo ao merecimento e qualidades que concorrem na pessoa de António Alves Bebiano, grande industrial do concelho de Pedrógão Grande, e querendo dar-Ihe um público testemunho da (sua) Real consideração”, (teve) por bem fazer-Ihe mercê do título de Visconde de Castanheira de Pera em sua vida”[5].

 

De facto, a António Alves Bebiano se deve o impulso e decisão para a resolução dos muitos problemas locais, como o da incomunicabilidade com o exterior, imposta por uma localização deveras interior, em área de montanha, de acentuada altitude e relevo: – incomunicabilidade pela falta de estradas ou não reparação das poucas existentes, que normalmente se encontravam em más condições, pelo que diligenciou a construção da estrada para a Lousã, até ao alto da Serra; assim como mandou proceder ao estudo do acesso de ligação a Figueiró dos Vinhos[6]; – incomunicabilidade pela falta de meios telégrafo-postais, pelo que suscitou a criação de um “posto” na vila de Castanheira e garantiu o pagamento do vencimento e habitação ao funcionário que assegurava o seu funcionamento[7].

 

António Alves Bebiano é pois um homem notável que, pelo seu trabalho, vai gerando simpatias a nível nacional, o que lhe permite gozar também de alguma influência política, mais não fora quando vemos um dos seus filhos – João Alves Bebiano (n. 1861) – eleito para as Côrtes. Naturalmente o Visconde de Castanheira de Pera chegará a Presidente da Câmara de Pedrógão Grande, cargo que desempenha de 29 de Maio de 1890 a 16 de Março de 1893 com visão e sentido de serviço público, e de que destacamos as seguintes deliberações:

De envio ao Parlamento, em Julho de 1890, de uma exposição escrita, aprovada por unanimidade da então vereação, pela qual – justificada pelo grande movimento fabril da freguesia de Castanheira de Pera, o que a tornava no segundo centro industrial de lanificios do país – se pedia “a criação de uma escola industrial adequada especialmente ao seu ramo de indústria, sem o que, de futuro”, as empresas e a região não deixariam de “sofrer graves prejuízos” nos seus investimentos;

 

E, nos anos seguintes, a preparação das condições materiais e financeiras para a construção de um mercado de abastecimento público em Castanheira de Pera[8].

 

Mas também na área social, cultural e recreativa a iniciativa do Visconde de Castanheira de Pera se fez notar:

 

– na fundação de um montepio[9] dos operários das fábricas ali existentes, e especialmente da importante fabrica dos Esconhaes, vocacionado para prestar socorros aos operários enfermos e ás familias dos que falecerem[10];

– na organização de um clube recreativo; e como fundador em 1880 da Filarmónica Castanheirense, à qual ofereceu instrumentos e fardamentos;

 

– na pronta adesão ao projecto nacional de alfabetização idealizado por Casimiro Freire e que, a partir de Maio de 1882, a Associação das Escolas Móveis levou a cabo pelo país, sendo que foi do seu bolso que saiu ainda o dinheiro necessário para contratar um mestre para ensinar o povo analfabeto a ler pelo método João de Deus.

 

Do que fica dito, para além do seu dinamismo e capacidade de decisão, transparece uma clara preocupação com as questões do ensino e da formação profissional. Não espanta assim que, cerca de oito anos antes daquele pedido de criação de uma “escola industrial” em Castanheira de Pera, António Alves Bebiano – porque “tem a peito a instrução dos operários da sua fábrica e dos seus conterrâneos”[11] – tenha solicitado a 1ª missão nacional das escolas móveis pelo método de João de Deus e “para ela forneça casa, mobília e as despesas de expediente”[12]. Fê-lo certamente convencido de que, como o enunciava a Direcção da  Associação das Escolas Móveis, “o método de João de Deus é o mais racional, o mais lógico, o mais simpatico à inteligência simples e rude do analfabeto. Mas, para ser facilmente compreendido, é indispensável que o professor o saiba expôr com clareza e amenidade”.

 

Por isso, essa 1ª missão “abriu as suas aulas no dia 24 de Novembro de 1882, com dois cursos, um diurno, outro nocturno, e 58 alunos”, contando com João António Epifânio Baleisão como o professor mais habilitado, que ministrou 60 lições. Contudo, “os rigores do Inverno, as doenças, o desânimo da ignorância, (fizeram) rarear sensivelmente as fileiras dos alunos. Os exames (finais) realizaram-se no dia 26 de Fevereiro deste ano, e apenas 21 alunos se apresentaram”.

 

Diz-nos ainda o relatório da missão que “aquela primeira festa celebrou-se na própria casa da escola, uma sala vasta que algumas senhoras e cavalheiros da terra ornaram com verdejantes arbustos e flores campesinas. Presidiu o Sr. Dr. Baeta Neves e assistiram a ela muitas senhoras, o Sr. Visconde de Castanheira de Pera, todas as autoridades eclesiásticas, judiciais e administrativas e grande concurso de povo”.

 

“Os examinandos acertaram com uma conta de dividir, copiaram com boa letra e regular ortografia um trecho que lhes foi apontado, e leram com desembaraço algumas linhas do livro ‘Deveres dos Filhos’. A admiração e o entusismo foram gerais. Com três meses de trabalho apenas, os analfabetos venciam aquele terrível promontório da leitura e da escrita”. No final, “o povo irrompeu em vivas calorosos”[13].

 

Neste seu contributo para o combate ao analfabetismo se vê porventura o melhor do castanheirense António Alves Bebiano, do seu íntimo de cidadão generoso e disponível para apoiar o desenvolvimento da comunidade serrana que o viu nascer; mas será sobretudo “pelo seu trabalho indefesso, pelo seu esforço inabalável”, que um dia “transformou uma pequena aldeia obscura num centro industrial laborioso, fecundo, florescente”[14], pelo que merece ser recordado. O monumento erguido na praça que hoje tem o seu nome, inaugurado em 31 de Julho de 1950, é o reconhecimento tardio dessa inestimável obra que, à custa de tantos e tão porfiados esforços, conseguiu realizar[15], mas indiscutivelmente prova do seu enorme prestígio e valor.

João Bebiano

Em cima: o médico Dr. José Frederico Serra (1889-1934), natural de Portalegre, que ficará ligado familiarmente ao Visconde, à Maçonaria local até 1932 (como Venerável mestre da Resp:. Loja Guerra Junqueiro)[16] e como director do jornal O Ribeira de Pera.

Em baixo o deputado Dr. João Alves Bebiano, filho do Visconde de Castanheira de Pera, que nas Côrtes assumirá a defesa da autonomia administrativa de Castanheira de Pera face a Pedrógão;

 

[1] Era ainda neto paterno de António Alves Bebiano, da freguesia de Castanheira, e de Maria Angelina, das Eiras; e neto materno de Filipe José da Silva, das Regadas, freguesia de Pedrógão Grande, e Joana Dinis da mesma Castanheira.

[2] No Estado de Minas Gerais, numa localização estratégica, a poucos quilômetros dos centros consumidores do Sudeste brasileiro e próximo dos corredores de exportação Santos, Vitória e Rio de Janeiro. O seu clima é do tipo Tropical de altitude. Em 1866, foi elevada à categoria de cidade e em 1872 foi criada a Comarca de Queluz. Em 1934 o município passou a denominar-se de Conselheiro Lafaiete..

[3] Alguns aspectos mais notáveis da vida de António Alves Bebiano, Visconde de Castanheira de Pera, de C. M. L. Baeta Neves, 1975, Braga, a págs. 9 e 19; Vide também as obras «Genealogia dos Fundadores de Cataguazes» (Rio de Janeiro, 1934) de Arthur Rezende, e «A Família de Monteiro de Barros» (S. Paulo, 1951), de Francisco de Barros Brotero.

[4] Inquérito Industrial de 1881, 2ª parte, Livro 3º, Lisboa, 1881, págs. 212; e Inquérito, 3ª Parte, Lisboa, 1882, pág. 161.

[5] Por decreto de 27/01/1881, de D. Luís, inscrito no livro de Mercês n.º 38, a fls. 218; in Monografia do Concelho de Castanheira de Pera, de Kalidás Barreto, 2ª edição, págs. 245 e 246.

[6] Jornal «O Districto de Leiria» n.º 61, de 27/5/1883 (projecto estrada distrital nº 66).

[7] «O Distrito de Leiria» n.º 22, de 27/8/1882 (criação de uma estação telegrapho-postal).

[8] Jornal «O Campeão do Zêzere» n.º 36, de 20/3/1892 (vistoria dos terrenos e levantamento de planta para a construção de uma praça publica»; e ainda, no n.º 41, de 15/5/1892 (autorização da aplicação de fundos na sua construção)

[9] Ou associação de socorros mútuos.

[10] «O Distrito de Leiria» n.º 24, de 10/9/1882.

[11] “Cartilha Maternal ou Arte de Leitura”, de João de Deus,  11ª edição, Imprensa Nacional, 1892, Lisboa, a págs. 170-172 (Correspondência) e 177-178 (Ramalhos/Sertã).

[12] Esta casa é hoje propriedade de Luís Kalidás Barreto, onde se preserva a sala da escola com o seu quadro preto (uma pedra de xisto/ardósia, segura por dois ferros).

[13] “Cartilha Maternal”, de João de Deus,  11ª edição, 1892, a págs. 171-172.

[14] Alguns aspectos mais notáveis da vida de António Alves Bebiano, Visconde de Castanheira de Pera, de C. M. L. Baeta Neves, 1975, Braga,

[15] «O Castanheirense», de 4/8/1950; e revista «Lanifícios» nº 9, de Setembro de 1950.

[16] Vide Maçons de Pedra e Cal – A Maçonaria ao Vale do Zêzere, a págs. 250-253.

 

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