240×6=24 – Um conto original de Sérgio Filipe Godinho

Umas luzes brancas insistem em brilhar. Iluminam, por vezes, e para castigo dos presentes, intermitentemente um corredor. Um longo e profundo corredor, onde as paredes fazem os possíveis para esconder as inúmeras portas que ali alguém decidiu colocar. O cheiro, esse, não engana nenhum dos presentes quanto ao local onde estão – tivessem eles entrado vendados e saberiam perfeitamente que tipo de comportamento teriam que adotar para se sentirem integrados.

Neste mundo específico há maioritariamente três tipos de pessoas – os que desesperam por alguém, os que desesperam por poder ajudar alguém e os que desesperam por serem ajudados.

Estamos num típico hospital.

4sergio

Um homem entrou no quarto 543, onde estaria alguém em pós-operatório. Esse alguém não se movia. Como quem não move parece que não sente – mais ainda sentia ele. Profundamente abalado, reação natural devido ao desequilíbrio do seu mundo, não parava de repetir uma operação matemática, enquanto, estaria praticamente imóvel: apenas se abanando na cadeira para a frente e para trás, parecendo estar a autoinfligir, intelectualmente, golpes agonizantemente fatais.

240×6=24, 240×6=24, 240×6=24, 240×6=24, 240×6=24, 240×6=24…

Alguns chamar-lhe-iam de ato curioso, muitos de uma heresia matemática e a grande maioria diria que seria um tipo qualquer de loucura. Contudo, não sejamos rápidos a rotular os outros – todo o comportamento tem uma explicação, uma base que o suporta, e para o entender basta que vejamos a situação de um outro ângulo.

Faremos o seguinte então – mudaremos de prisma. Seremos agora esse homem.

Era um dia normal para mim. Fiz tudo o que de costume fazia – acordei com o mau feitio do costume, acabei o banho com o sorriso do costume e saí para o trabalho com a expectativa do costume. Eis que acontece algo que de costume não tem nada. Recebo uma chamada do hospital, que prontamente atendi. Isto é o que ouviria quem estivesse a meu lado.

Estou?, Sim, é o próprio., Diga…, Desculpe não estou a entender., Como?, Não., Não pode!, Não pode estar a acontecer, Não, Não!, Vou já para aí!.

As mãos começaram a suar incessantemente, formando um rio de emoção que corria pelo meu frágil, agitado e tiritante corpo.

Corri para o meu carro, o que não era costume, inseri tremulamente a chave, o que não era costume, e arranquei ao máximo que a estrutura do carro permitia, o que não era costume.

Cheguei às urgências do hospital com uma velocidade adequada a uma ambulância do INEM. Com um movimento brusco estacionei o veículo num parque que parecia ter sido deixado para mim. Desliguei-o rapidamente e ao sair fechei a porta do carro com a força que o meu corpo não media. Desfiz-me numa corrida que parecia não ter fim até à receção: que por sorte encontrei sem fila.

Ofegante, como era de esperar, e como eles deveriam estar habituados a ver, perguntei pela situação que me havia sido comunicada ao telemóvel. A senhora, camuflada pelo embaciamento do vidro que nos separava, disse-me, apontando para uma porta, para falar com alguém que estivesse de serviço, e passo a citar – “do outro lado”.

Assim o fiz – passei a porta e falei com a primeira pessoa que vi oficialmente fardada para o serviço. Obtive a resposta que queria.

Venha comigo.

A passo incomodativamente lento a meu ver, seguimos caminho pelos labirínticos corredores do hospital. Sentia a tensão, o coração que batia sem regra e o desfoque que o meu olhar tinha adquirido. Tudo me parecia desorganizado – principalmente eu.

A pessoa fardada parou, escreveu alguma coisa num bloco de notas que trazia e disse.

Vá ao fundo à direita. Tem dez minutos, depois teremos que prosseguir.

Agradeci, enchi o peito de ar e mais não fiz que o que o meu instinto me mandou – segui caminho até ao fundo e virei à direita.

Eu sabia o que esperar. Sabia-o, porque mo tinham dito na chamada mas… uma coisa é saber, outra coisa é ver. Ver é saber duas vezes.

Aninhei-me junto da cama e rapidamente soube: a luz, as vibrações, o toque – tudo isso estava a projetar representações para o meu cérebro, o qual teria o maior prazer em criar memórias, como que fotografias ou peliculas de filme, que iam ficar registadas na minha mente. Cada detalhe deste momento – a imagem, o cheiro, o corpo – comigo para sempre.

Estava na tentativa empenhada de tirar o máximo proveito dos dez minutos que me foram prometidos quando uma voz masculina de um médico de serviço deixa o aviso.

Despeça-se que vamos ter que prosseguir com o procedimento.

Uma rigidez saía da voz que me roubava seis minutos dos dez que tinha! Eram seis minutos que podia nunca mais vir a ter – não assim. Protestei mas de pouco valeu. Cheguei-me para o lado porque nada podia fazer – restava-me esperar que os seis minutos que me tinham sido roubados valessem uma vida.

Esperei inquietantemente na sala de espera, que mais se devia chamar sala de desespera, durante horas. Não sei ao certo quantas, perdi conta do tempo – sabia que me custava a passar e isso era suficiente.

Firme, esperei e em boa hora ouvi o chamamento da minha pessoa.

Guiaram-me até ao quarto onde encontraria a esta altura pouco mais que um corpo – a anestesia não permitiria mais do que isso. Antes de entrar, o médico informou-me que a recuperação ia ser difícil, se possível. Dito isto, entrei no quarto em lágrimas.

Uma vez lá dentro, só pensava nos seis minutos que me tinham roubado e de que nada, afinal, pareciam ter valido. A dor era tão intensa, tão profunda, tão forte. Não sabia lidar com tudo isto – não tinha como. Só uma certeza tinha: o meu dia iria deixar de ter vinte e quatro horas – iria passar a ter duzentas e quarenta porções de seis minutos. Então comecei a reviver o que ainda não tinha vivido: um perpétuo 240×6=24

Um mês após o dia dos acontecimentos foi bom poder dizer, com o maior sorriso que os meus olhos permitiam, o que tanto queria.

Que bom é ver-te sorrir novamente mãe.

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